Crítica: ‘Não Olhe Para Cima’ entrega atores de grande porte, mas enredo fraco e sem surpresas

Utilizando a mesma linha de raciocínio dos últimos dois anos, 'Don't Look Up' peca ao retratar a realidade enquanto ainda a estamos vivenciando

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Yasmin Mior Florianópolis

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“Don’t Look Up”, ou melhor, “Não Olhe Para Cima”, em tradução literal, tem a receita completa para ser um filme de sucesso: o elenco impecável – com nomes como Maryl Streep, Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence – a premissa bem construída e ótimas efeitos gráficos.

Isso, é claro, se a sátira tivesse sido lançada no tempo correto e não tentasse desviar a atenção de assuntos sérios para piadas infames, mas não engraçadas.

Filme acerta na escolha de atores, mas peca na construção do roteiro – Foto: Internet/Divulgação/NDFilme acerta na escolha de atores, mas peca na construção do roteiro – Foto: Internet/Divulgação/ND

Antes de dar seguimento à crítica, o que você precisa saber sobre a produção audiovisual: a história narra a descoberta de um meteorito que tem capacidade de causar a destruição em massa do planeta Terra por dois cientistas de baixo escalão, Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e o Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio).

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O meteorito, chamado de Dibiasky, em homenagem à sua descobridora, chegará à Terra em sete meses. É dentro desse período de tempo que o filme se desenvolve durante as suas duas horas e meia de duração.

É nele também que vemos, sem muito sucesso, a tentativa desesperada dos cientistas em alertarem os órgãos governamentais sobre a preocupante situação.

Em um paralelo com o mundo real, os telespectadores podem entrar em um mar de nostalgia, sendo jogados novamente ao começo de 2020, quando o coronavírus entrou em cena, e precisou ser combatido em meio às falsas notícias e aos descréditos populacionais acerca do perigo da doença.

É assim que a narrativa de ‘Não Olhe Para Cima’ fica batida e sem novidades para o público. No longa, a presidente dos Estados Unidos, Janie Orlean (Meryl Streep), fica encarregada de salvar a população mundial dos desastres que podem ser provocados pelo meteorito, após ser alertada pelos cientistas e pela Nasa de sua existência.

Em mais uma brilhante atuação de sua carreira, Streep dá vida à uma governante que não tem interesse pela população, se deixando levar apenas por sua aparência junto ao público, e pelo capitalismo compulsório que dá brecha para o desastre nas cenas finais da produção audiovisual.

A sátira acerta ao mostrar como se dá o embate entre informação e órgãos públicos, principalmente quando a carreira política de outros está em jogo, mas erra ao lançar o filme dentro do contexto em que ainda estamos inseridos, afinal, o que está na tela é o que todo o mundo vive diariamente desde a erupção da Covid-19.

Atores fortes x personagens fracos

Tentando inserir personagens como Jason Orlean (Jonah Hill) – o filho da presidente dos EUA – e a cantora Riley Bina (Ariana Grande) em formato de alívio cômico à narrativa, os produtores não conseguiram garantir estruturação e conformidade em suas histórias, deixando-os com pontas soltas e sem o carisma que deveriam passar para o público.

Até mesmo a ganhadora do Oscar, Jennifer Lawrence, não consegue entrar 100% em seu personagem. No início do filme temos uma cientista contida, que sabe o que está fazendo e que entende o que deve ser feito.

Entretanto, conforme a narrativa avança, ela se perde dentro de si, virando uma mulher histérica que precisou ser “apagada do mapa” pelo governo estadunidense.

Outros dois personagens secundários, Quentin (Timothée Chalamet) é um menino de rua, que vive com sua gangue e torna-se aliado de Dibiasky após sua explosão em rede nacional sobre o meteorito. O personagem tem poucos minutos de tela, e mesmo neles não tem significação para a história.

Peter Isherwell (Mark Rylance) entra na história para contrapor a salvação mundial, pensando apenas na riqueza que conquistou com o lançamento de celulares super modernos por sua empresa.

Até mesmo a mídia vira chacota no filme, mostrando jornalistas descompromissados com a verdade e entregando ao público apenas uma breve comoção engraçada e suavizada dos fatos.

Talvez o único acerto contextual tenha sido o de DiCaprio. Do começo ao fim a atuação do ator entrega ao personagem o que deveria: sentimentos à flor da pele, que de fato transmitem a situação atual, a confusão de ter somente mais sete meses para viver, e o arco final com sua família restituída antes da tragédia.

Entretenimento abalado, mas conciso

Apesar de não entregar ao público um filme com reviravoltas surpreendentes e que agarre a atenção do mesmo do começo ao fim, a narrativa de ‘Não Olhe Para Cima’ serve para pensarmos sobre a situação em que nos encontramos nos últimos dois anos.

A crítica feita à sociedade do século 21 é concisa, e possui o embasamento da realidade como pano de fundo. O filme, apesar de atrasado, poderá ser considerado como atemporal, até o momento em que a humanidade mude o seu curso de ação em relação às questões que dizem respeito a nossa sobrevivência.

‘Don’t Look Up’ está disponível na plataforma de streaming Netflix.

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