A palavra “marvel”, em português, pode ser traduzida como “maravilhar-se” ou “estranhar”. Foi uma combinação desses dois significados que vi despertar na minha mãe enquanto ela assistia comigo a uma maratona dos 18 filmes de super-heróis da Marvel Studios no último mês. Aos 61 anos, ela definitivamente não é o público-alvo desses longas-metragens. No entanto, vou descrever aqui porque ter assistido toda essa saga ao lado de alguém que jamais havia visto um filme do gênero pode ser uma experiência singular.

Tudo começou quando planejei maratonar a franquia antes da estreia de “Vingadores: Guerra Infinita” e percebi que o desafio de rever os 18 filmes, diariamente, não era para qualquer um – nenhum amigo tinha interesse ou estamina para a missão. Isso é compreensível, já que eles totalizam 2.163 minutos – cerca de 36 horas. Essas produções incluem de trilogias de ação como “Homem de Ferro” a histórias espaciais como os dois “Guardiões da Galáxia”, além de obras cuja trama tem um viés místico, como “Doutor Estranho”, ou cômico, tal qual “Homem-Formiga”. Não, eles não são todos iguais.
Eu não desisti desse desafio, e ao apresentar a premissa do primeiro “Homem de Ferro”, lançado em 2008, para a minha mãe, ela topou embarcar nessa loucura. Adiamos a série que planejávamos acompanhar juntos – “O Mecanismo” pode esperar, certo? – e suspendemos os dramas de Natalie Portman e Morgan Freeman que provavelmente seriam assistidos na TV à cabo. E assim seguimos, em alguns casos pulando alguns dias entre os filmes, até este dia das mães, quando concluímos a aventura assistindo “Pantera Negra”, o último antes do terceiro “Vingadores”.
SeguirDe certa forma, ver o MCU (Universo Cinematográfico da Marvel) ao lado dela foi um exercício de paciência para nós dois. Para mim, no sentido de compreender o ponto de vista de alguém que não está acostumado com esse estilo de narrativa – foi preciso explicar as ramificações das histórias (todos os filmes estão interligados e possuem personagens em comum), as passagens de tempo e as implicações das gemas do infinito. Para a minha mãe, a paciência foi sentar no sofá por duas horas e meia para aprender a levar um guaxinim falante a sério, a compreender o multiverso e a temer o reino quântico.
As diversas pausas durante as exibições foram mais do que necessárias, e permitiram não apenas explicações sobre causas e consequência dos eventos das tramas, mas a abertura de diálogos sobre decisões e motivações de personagens. No fim das contas, por mais que esses filmes estejam tomados por batalhas explosivas, robôs de computação gráfica e figurinos extravagantes, eles tratam de questões humanas e sociais básicas.
O Homem de Ferro é um milionário excêntrico que desiste de fabricar armas para lutar pela paz, mas lida com a necessidade de proteger quem ama e cria armaduras com poderes igualmente perigosos. O Capitão América sofre ao se tornar uma marionete do governo durante a Segunda Guerra Mundial, e em outra ocasião sofre com as consequências de ter ficado congelado por 70 anos e não confiar mais em organizações de segurança. O doutor Stephen Strange é um médico cético que acaba encontrando a cura para o seu problema na compreensão do plano astral. Enquanto isso, Peter Parker, o Homem-Aranha, sofre com questões de responsabilidade e confiança, e Peter Quill, o Senhor das Estrelas, supera questões familiares não resolvidas ao encontrar uma nova família. Até os vilões – de Loki a Zemo – têm motivações claras e com respaldos, o que incitam a discussão sobre até onde vai a luta pelo que se acredita ser certo.
Além disso, é divertido ver essa espectadora incomum caçando as aparições de Stan Lee em todos os filmes e expressando choque quando o Thor aparece de cabelo curto – mais do que quando Nova York é destruída por um exército de alienígenas. Testemunhar a representatividade – e as habilidades – de heroínas em meio a um grupo formado basicamente por homens também é um bônus. O melhor, ainda assim, é a preocupação com os heróis. Afinal de contas, atravessar o arame farpado durante o treinamento de Steve Rogers no exército pode ser derradeiro, não é?
Apesar das risadas e reações de surpresa que a vi expressar em “Homem-Formiga” e do interesse pelo caráter conspiratório retratado em “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, foi a simplicidade de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” que a conquistou. Mesmo que este não vá figurar entre os filmes favoritos dela, que incluem “Love Story – Uma História de Amo” e “Doutor Jivago”, cumpre a uma das funções primordiais do entretenimento. Você não precisa ser exclusivamente cult ou venerar o antigo cegamente: há espaço para tudo.
A lição que pode ser tomada com essa maratona de 18 filmes é que pode ser extremamente prazeroso assistir algo com uma pessoa que está fora de sua zona de conforto. Esses longas-metragens ganham novas camadas e você pode ter a chance de revigorizar a sua relação com alguém de uma forma inédita. Eu não saí da minha zona de conforto nesta ocasião, e, por mais que planejasse fazê-lo agora, não sei se isso vai acontecer tão cedo. Afinal de contas, minha mãe quer maratonar Star Wars, Indiana Jones, Harry Potter, Friends e Supernatural.