Correndo em dupla, Alice Richter e Bianca Richter participam ativamente das corridas de rua em Santa Catarina. Alice tem 28 anos e é paratleta, diagnosticada com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) de nível moderado.
Bianca é sua irmã mais velha, também foi diagnosticada dentro do autismo de espectro leve e corre como guia da Alice, para suporte nos trajetos.
Há cinco anos elas participaram do primeiro circuito, em São José. A convite, elas visitaram a concentração da corrida e Alice quis participar.
“Ela foi de calça legging, meio jeans, foi do jeito que tava”, conta Bianca. “Tava boa!”, Alice resume sobre a sua primeira prova, a partir da qual não parou mais.
Alice Richter aproveitou para conhecer os estúdios da NDTV – Foto: Divulgação/NDA equipe que dá suporte a paratletas nos eventos de corrida, o Instituto IPE, noticia na sua página a agenda de corridas e ela pede para ir em todas.
Alice tem inúmeras medalhas desde então, e pelo menos 10 troféus. A dupla de corredoras participou neste domingo da Corrida Rústica da Polícia Militar de Santa Catarina, comemorando 188 anos de fundação.
Agora se preparam para a próxima prova, a corrida da APAE de Brusque – Pernas Solidárias. O podcast Vá para Corrida conversou com elas, na apresentação de Vanessa da Rocha e participação especial de Henrique Zanotto.
Podcast Vá Para Corrida, com Vanessa da Rocha e Henrique Zanotto, recebeu as irmãs Alice e Bianca Richter – Foto: Divulgação/NDDiagnóstico do TEA – Transtorno do Espectro Autista
O Transtorno do Espectro Autista é um tipo de deficiência de difícil diagnóstico. Há diferentes níveis: leve, moderado e severo.
As características mais conhecidas são dificuldade na parte de comunicação, como leitura e escrita ou para se expressar e expressar emoções, a necessidade de ter rotinas e hábitos fixos, e ter muito interesse em um assunto ou objeto específicos.
Por serem de intensidades variadas, a características podem ser facilmente confundidas ou passar despercebidas como “traços de personalidade” para quem vê de fora.
O nível mais leve do transtorno quase sempre não é diagnosticado ou tem o diagnóstico tardio, e os mais severos têm mais chance de serem percebidos.
Também existe o fato de que, por preconceito, muitas pessoas não aceitam, e até a família não aceita que possam estar dentro do autismo, não admitem fazer os testes para ter conhecimento sobre o assunto.
Nesses casos, o desafio permanece para a convivência e para a própria pessoa, sem chance de se conhecer e se informar para viver melhor.
O que contribui em grande parte para a falta de informação e diagnósticos é que a deficiência foi apenas recentemente reconhecida, sendo oficial para a Organização Mundial da Saúde em 1993.
No Brasil, a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista foi consolidada quase vinte anos depois, pela Lei 12.764 de 2012.
Atualmente, os dados sobre o autismo ainda estão sendo construídos no mundo todo, sendo a principal referência o CDC (Center for Disease Control and Prevention), que é o sistema público de saúde dos Estados Unidos.
Segundo o centro, a estimativa mais atual da proporção de pessoas que possuem o TEA é de 1 para 36, ou 2,7% da população.
O Transtorno não apresentou, até o momento, diferença evidente da incidência entre etnias, classes ou região do planeta.
Por isso este cálculo é usado pelo Brasil e outros países como referência para estimar a população que possuem algum espectro do autismo, mas que não são reconhecidas ou nem se reconhecem na condição.
No Brasil, isto seria mais de 5 milhões de pessoas. Para obter um diagnóstico, qualquer pessoa pode consultar um psicólogo especializado em autismo ou um neuropsicólogo. A APAE e o SUS ofertam análises gratuitas, com lista de espera.
Como recado, Alice procura conscientizar. “Queria avisar para todo mundo: tem que estudar, aprender e respeitar o autismo. Viva o autismo!”
Aprendendo a viver um dia de cada vez
Alice tem uma irmã gêmea, Aline, que está no espectro severo e exige mais cuidados, o diagnóstico dela veio mais cedo. Alice tem o transtorno do tipo moderado, que impacta na fala e no comportamento social.
O diagnóstico dela foi tardio, com quinze anos de idade. Bianca, a irmã mais velha, possui o tipo leve, ela só teve seu diagnóstico em 2010, aos 23 anos de idade. Ela é a guardiã legal das gêmeas Alice e Aline desde que a mãe faleceu.
Alice não escrevia e nem lia bem, estando na 6ª série. Bianca conta que só foi atrás de um diagnóstico para si quando foi investigar o da Alice, quando já tinha a guarda dela.
“Autismo não pega, não é doença. Achei que eu podia estar pegando manias, por convivência. Achei que era a maneira delas, e não autismo. Nunca passou pela minha cabeça que eu poderia ser autista.”
Para ela, o cuidado com o autista começa na mãe, precisa haver suporte para a família que é responsável por um ente que possui o TEA – bem como para quaisquer deficiências.
Antes mesmo de existir os diagnósticos de Bianca e Alice, a mãe das meninas entrou em depressão pelo falecimento do marido. Bianca explica que cuidar dos filhos sozinha se tornou uma preocupação muito forte para a mãe: “o que vai ser das meninas sem mim?”, ela dizia.
Bianca conta que muitas pessoas a questionam como é possível ela dar conta de tudo isso. Ela diz que não mudaria nada de lugar, que é feliz e está satisfeita com a vida em todos os desafios.
Por isso, dá um recado para as mães: devem se cuidar e não esquecer de si mesmas. “Um dia de cada vez, o amanhã a Deus pertence”.
Para conhecer a história das duas e saber mais sobre as corridas que elas participaram, confira no episódio completo do podcast. A corrida também é uma mensagem.