A inflação dos esganados

Esganados que têm memória de “rentista” sentem saudades da era da economia pluridigital

Receba as principais notícias no WhatsApp

Assim como o estudante Raskolnikoff vingou os devedores explorados pela agiota Alena Ivanovna, em “Crime e Castigo”, de Dostoievski, precisa-se, agora, de um novo romance que nos conte a saga da vingança do cidadão comum contra bancos e outros gananciosos que não sabem viver sem inflação.

Esganados que têm memória de “rentista” sentem saudades da era da economia pluridigital. Não se tratada mesma saudade que sentiriam da juventude perdida, de uma amante carinhosa, do verão, de tainha frita com pirão d’água ou de um trânsito mais civilizado. Nada disso. Sentem saudades é da inflação.

Inflação – Foto: Marcello Casal Jr./Agência BrasilInflação – Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Para combater esse vírus, sabe-se que o remédio é amargo: aumento dos juros. A Selic já está em dois dígitos e pode chegar a números que desestimulem o crescimento econômico e produzam mais… inflação. É a temida “estagflação”.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Mas até lá ainda veremos movimentos bizarros por parte de certos empresários que gostam de inflação – e até protestam contra a redução do IPI pelo governo federal, em nada menos que 25%.Vá se entender essa “esquisitice”.

O lugar do empresário brasileiro no mundo da economia nacional deveria ser no panteão dos heróis. Devemos a eles homenagem por sua perseverança e desempenho contra a burocracia infernal. Há, contudo, empresários que sempre reclamaram de alguma coisa, desde os tempos de Mem de Sá.

Mas o espantoso é que não reclamem tanto de outro tipo de empresário: o banqueiro. Que costuma decuplicar os juros e os chamados “spreads”, comparados com a taxa básica do BC. Enquanto a Selic ainda está em 10,75%, a taxa do cartão chega a 340% ao ano e ado cheque especial beira os 130%. Aí, …tudo bem?

No Brasil é assim: é só a economia dar um sinal devida, um “suspiro”, um alento, pronto: bate o olho grande naqueles que têm “alguma coisa pra vender”.De gasolina a brinquedos, de vestuário a alimentos.

Passam os planos econômicos e a mentalidade continua a mesma: aumentar as margens de lucro, aproveitar a“maré”, a pandemia ou a guerra, ganhar sobre a “unidade”e não sobre a “escala”, faturar “mais” sobre “menos”.

Se as doenças ficaram mais graves do que as dos tempos da “hiper-inflação”, os remédios perderam a relativa estabilidade do tempo do Implastro Sabiá, do Rhum Creosotado e da Pomada Minâncora.

O preço dos novos remédios anda no limite da vida e pela hora da morte. Alguns desses agentes econômicos estão faturando bem e se alimentam de uma antiga e ressuscitada febre: avelha e bem-amada inflação.

Doença que alguns “economistas”, que adoram anunciar o Apocalipse, “espalham” coma velocidade e uma tolerância muito parecida com a do usuário da “Cannabis Sativa”, a popular maconha. Um pouquinho só não vicia…Com a guerra na Europa – meu Deus!, está de volta essa insanidade, que não cessou nos anos 20 e 40 do século passado? – a inflação dos alimentos também disparou.

Ainda mais que os gêneros alimentícios hoje estão transformados em ações das bolsas “agrícolas”, cuja Meca é Chicago. No momento de uma epidemia de juros altíssimos, mesmo nas economias avançadas do hemisfério norte, os especuladores lançam-se como cupins nas bolsas mercantis e de “futuros”. Hoje, grão é moeda. O que fazer para alimentar um estômago de pobre,quando o feijão e o arroz estão cotados em Bolsa?

Tópicos relacionados