A pandemia e a “sociedade do cansaço”

Minha irmã que ama leitura falou comigo sobre um livro recém lido que está super em alta e quero dividir o que aprendi nesse papo filosófico

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Você se sente mais cansado que o normal durante a pandemia? Talvez a filosofia te dê uma resposta. O pensador coreano contemporâneo, Byung-Chul Han, propõe uma visão de sociedade intitulada “Sociedade do Cansaço”, em que o sintoma principal é a fadiga mental e física decorrente do excesso de positividade e cobrança de rendimento.

Com a Covid-19 e as consequências da crise sanitária, parece que esse estado se mostrou ainda mais evidente.

Livro a Sociedade do Cansaço que foi o tema da matéria Capa do livro a Sociedade do Cansaço do autor Byung-Chul Han – Foto: Divulgação/ND

Vivemos num momento em que o discurso imperador é “você pode ser e fazer o que quiser”, ou seja, a famosa meritocracia, que gerou a ideia de que até mesmo a felicidade é uma questão de merecimento e nos tornou senhores e escravos da própria vida.

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Isso fez com que as pessoas, enquanto “chefes de si mesmos”, trabalhem 12 horas por dia ou mais, se cobram em serem úteis o tempo inteiro. É a famosa frase “tempo é dinheiro”.

E nessa busca desesperada por produtividade, não se é mais permitido ficar triste, chorar ou se dar um dia de folga.

É permitido chorar SIM! Quando choramos estamos colocando para fora uma mágoa ou seja, uma “má água”. Estamos imersos nesse pensamento, intitulado por Han de “excesso de positividade”, que nos leva a um cansaço mental e físico.

O filósofo também menciona a “multitarefa” que diz respeito a fazermos diferentes coisas ao mesmo tempo, a qual agrava esse estado de fadiga. Neste contexto, perdeu-se a possibilidade de contemplação e o sujeito fechou-se em si mesmo, tendo dificuldade, inclusive, de lidar com o outro.

Essa forma de viver é decorrente da sociedade disciplinar de Foucault (percebida na forma de organização das escolas e dos quartéis, por exemplo) e da sociedade do controle de Deleuze (a qual refere-se às formas de controle, como por exemplo, os anúncios que aparecem no seu celular após você pesquisar sobre determinada coisa).

Embora ambas ainda se façam presentes no nosso dia a dia, Han percebe no cenário pós-moderno a “sociedade do cansaço”. Isso porque, essas sociedades de controle e disciplina nos tornaram cansados da grande quantidade de informação, da necessidade de desempenho e de atingir metas.

Num ritmo muito acelerado chegamos a um estado de colapso. Não é à toa que os transtornos mais comuns atualmente sejam de ansiedade e pânico.

Pensando no momento atual de pandemia, percebe-se ainda mais esse tipo de atitude, quando a casa virou o ambiente de trabalho e qualquer hora é o momento para cumprir funções. Confunde-se o espaço público com o privado, já que o lar se tornou o ambiente para as diferentes tarefas.

Ademais, a falta de empatia com o outro e a dificuldade de lidar com o diferente agravaram-se, visto que, além de estarem fechados em si mesmos, estão fechados nas paredes de casa, tornando ainda mais difícil o cuidado com o próximo.

Fonte de pesquisa: livro Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han

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