Açores e Desterro

Desterro e Santa Catarina estariam perdidas para os espanhóis sem uma vila pulsante, habitada

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Depois da invasão espanhola de 1777 a matriz portuguesa sentiu que construir fortes nas ilhotas circundantes não era o bastante. Desterro e Santa Catarina estariam perdidas para os espanhóis sem uma vila pulsante, habitada.

Em 1748 a Coroa Portuguesa temeu perder as terras ao Sul e programou a emigração açoriana de 4.000 famílias. Esse número nunca foi atingido, mas milhares de açoritas desceram o Atlântico até 1753, povoando o litoral de Santa Catarina e Rio Grande.

Fotografia de 1939, avenida Hercílio luz, rio da bulha e o hoje Museu da Escola Catarinense ao fundo e ao alto. – Foto: Udesc/Divulgação/NDFotografia de 1939, avenida Hercílio luz, rio da bulha e o hoje Museu da Escola Catarinense ao fundo e ao alto. – Foto: Udesc/Divulgação/ND

Incentivou-se a “colonização por casais”, em núcleos de famílias camponesas que irrigaram o litoral Sul com seu sangue, seus hábitos, costumes e cultura.

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Com o Primeiro Império e a primeira Carta Magna(1824), Desterro foi crescendo aos poucos.Na virada do século 19 para o 20, o trânsito da Capital- rebatizada “Florianópolis” em 1894 – com seus mais de 30 mil habitantes (exatos 32.220), era tão manso e tranquilo que os bichos viviam espalhados pelas ruas.

Os primeiros ônibus surgiriam só lá por 1926, depois que a ponte já se erguia sobre as baías. Puxados por motores do tipo Ford-bigode, tinham uma única porta e não passavam de pretensiosas “Jardineiras”, aspirantes a se denominarem “coletivos”. Ônibus, charretes e tílburis não chegavam a formar um“engarrafamento”.

Se aglomeração havia, esta se dava no porto e nos trapiches, entre a Alfândega e a Praça XV. As telas de Eduardo Dias flagraram o fin-de-siècle na baía Sul, a enseada junto à Vila juncada de caravelas, lanchas, bergantins e baleeiras.

Com o Segundo Império e a imigração açoriana, a vila começou a ganhar ruase praças. A Praça XV ainda era o Largo da Matriz, antes da lamentável homenagem ao algoz da cidade, Floriano Peixoto.

A Conselheiro Mafra era a “Rua do Príncipe”; a Trajano a “Rua do Livramento”; a Fernando Machado a “Rua do Vigário”, a Álvaro de Carvalho a “Rua da Palma”, a Sete de Setembro a “Rua da Bragança”. Até os anos 1970 do século 20 a capital podia molhar os pés no oceano, o mar não ficava “longe”.

Na Floripa de hoje só se pode vê-lo de binóculo, através do aterro da baía Sul, transformado em repositório de ônibus e garagens. Fica bem longe da“Praça da Matriz”, em cujas bordas ancoravam osvelhos navegadores “daquele mar antigo, daquele maramigo”, como poetou o eterno Fernando Pessoa.