Durante o lançamento do livro “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, em 2007, a escritora da série, J.K. Rowling, confirmou em uma sessão de autógrafos que o diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore, era gay.
Na época, a informação pegou os leitores de surpresa, visto que em nenhum momento dos sete livros a autora escreveu sobre a homossexualidade do personagem, considerado como o “bruxo mais poderoso de todos os tempos”.
O tópico também não deu as caras, de nenhuma forma, nos oito filmes derivados da história de fantasia, já que não constava em nenhum dos sete romances. Dessa forma, muitos questionaram as intenção de Joanne com o anúncio.
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Homossexualidade do personagem Alvo Dumbledore não dá sinais nos livros da franquia Harry Potter e quase passou despercebida nos filmes da saga Animais Fantásticos – Foto: Divulgação/NDPara o jornalista Matheus Faisting, de 27 anos, a fala de J.K. era clara: tratava-se de queerbating.
Queerbating e indústria cultural: um tóxico case de sucesso
Há anos, diversas produtoras da indústria cultural, bem como autores famosos, utilizam a técnica do queerbating em seus produtos. Mas o que é de fato esse termo e por que a prática é tão utilizada “por debaixo dos panos” na mídia?
Christian Gonzatti, doutor em comunicação, explica que trata-se de um artifício que atrai o interesse do público pertencente à comunidade LGBTQIA+, e que, ao mesmo tempo, segura a atenção do público conservador no livro, filme, série ou documentário em questão.
“As empresas brincam com determinados códigos em suas narrativas, sejam eles relacionados à performance do personagem ou aos seus relacionamentos, que deixam brechas para que eles sejam interpretados como LGBTQIA+”, diz Christian.
“Nos últimos anos o mercado do entretenimento se atentou para a comunidade LGBT como nicho de consumo”, acrescenta Faisting.
O apontamento do jornalista pode ser facilmente exemplificado por um dos mais recentes casos de queerbating no audiovisual: o do personagem Will Bayers, do seriado “Stranger Things”. A situação ficou tão em alta nas redes sociais que virou até trending topic no Twitter.
Personagem envolveu-se em diversas polêmicas após produtores utilizarem do queerbating no seriado estadunidense – Foto: Divulgação/NDDono de uma página no Instagram que trata sobre a comunidade LGBT em produções culturais, Christian publicou um vídeo em que fala sobre isso. Ele deixa evidente o quanto a comunidade queer está incomodada com as frustradas promessas de representatividade do vale na produção.
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Ele ainda comenta que, caso a produção não tenha vontade de “tirar o Will do armário”, ela poderia ao menos expôr mais os conflitos internos do adolescente referentes a sua sexualidade, mas de maneira explícita, para todos os que estão assistindo tenham uma resposta efetiva quanto a isso.
“Deixar subentendido ou aberto a interpretações que um personagem é LGBT é covarde e muito angustiante. Ainda mais atualmente”, comenta. A estratégia, é claro, é um case de sucesso dentro do ramo, pois atrai diferentes públicos e dá ainda mais visibilidade e dinheiro às produções.
“Mas isso é prejudicial, porque mantém a população LGBT em um espaço de invisibilidade, por esse medo de se comprometer com o público, de ter boicote, gerar desconforto”, reitera Gonzatti.
Diferentes décadas, diferentes olhares
Apesar de hoje em dia o termo afetar diretamente as pessoas que integram a comunidade, a origem desse movimento foi, na verdade, algo positivo.
“Na década de 1930 nós tivemos o Hays Code, um código de moralidade que os setores religiosos impuseram nas produções hollywoodianas“, explica Faisting. “Ele ditava o que podia ou não ter nos filmes produzidos. Entre as proibições estava a representatividade de homossexuais”.
Para driblar a censura, sutis referências à comunidade LGBT eram postas nas produções da época. “Isso se assemelha muito com a ditadura militar do Brasil. Trabalhávamos com o implícito para explicitar as representatividades”, pondera o jornalista.
Em “Festim Diabólico” (1948), de Alfred Hitchcock, a dupla de assassinos criava constantemente uma tensão homossexual entre si – Foto: Divulgação/NDUm exemplo de como isso funcionava na prática é o filme “Festim Diabólico”, de Alfred Hitchcock, lançado em 1948. O thriller psicológico e criminal traz Brandon e Philip (imagem acima), que formam uma dupla de amigos que pretende colocar em prática um crime perfeito – ou seja, realizar a ação sem serem pegos. O objetivo é ter a sensação de como é cometer um assassinato e, por isso, eles matam um colega da escola preparatória que frequentam.
O filme é considerado uma obra-prima de Hitchcock e flerta diretamente com a tensão homossexual da dupla. É claro que, pela época, o longa trata a questão de forma bastante amena.
Desta forma, “o uso do queerbating no início foi positivo. Já hoje devemos tomar partido. A sutilidade tornou-se uma prática que agora tira vantagem do movimento, mas que não contribui para a causa”, argumenta Matheus.
O termo na prática
“A indústria cultural flerta muito com esse imaginário queer”, afirma Chistian. Um exemplo utilizado pelo doutor em comunicação é a franquia Star Wars. “Tinha toda uma possibilidade de o Finn e o Poe terem um envolvimento amoroso”, começa o doutor.
Comunidade LGBT esperava por algum desenvolvimento amoroso entre personagens de Star Wars – Foto: Divulgação/ND“A Disney flertou com isso, deixou o fandom na expectativa, prometendo momentos LGBTs que iriam chocar todo mundo”, diz Gonzatti. Aborrecido, ele comenta que, “no fim foi só um selinho entre dois personagens secundários por alguns segundos”.
Beijo homossexual foi “escondido” em filme de Star Wars, mas mesmo assim, em seu lançamento, muitos fãs comemoraram a “representatividade” que ele trouxe para a franquia – Foto: Divulgação/NDNa época, o ator Oscar Isaac, que interpretava Paul, veio a público esclarecer que ele queria que a representatividade tivesse sido maior.
Entretanto, por disputas internas do setor, a Disney cortou a cena, dando em resposta um parecer de que ainda não estaria pronta para se posicionar desta forma. Essa, infelizmente, não foi a única vez que a empresa emitiu uma nota deste cunho.
Produtora de filmes animados foi censurada pela Walt Disney – Foto: Divulgação/NDRecentemente, uma problemática envolvendo a produtora de filmes estadunidense Pixar, que faz parte do império da Disney, foi pauta de diversos noticiários, conforme relembra Christian.
Por pressões industrias da empresa-mãe, o estúdio de animação, que tinha interesse em lançar personagens do vale (uma gíria que remete aos integrantes da comunidade LGBTQIA+), foi censurado.
A prática também ocorreu durante a montagem final do filme “Lightyear”, uma sequência da franquia Toy Story que conta mais sobre a história de Buzz. O longa conta com uma cena em que as personagens Alisha Hawthorne, comandante do astronauta, e sua esposa protagonizam um beijo lésbico.
Entretanto, a Disney havia requisitado que o momento fosse removido da versão que iria para os cinemas de todo o mundo. Foi somente após muitos protestos por parte dos funcionários da empresa que a cena foi realocada no filme. Ainda assim, o longa-metragem foi banido de 14 países do Oriente Médio.
Matheus relembra ainda outras produções que chegaram no limiar da comunidade LGBT, mas que preferiram não revelar a identificação sexual de seus personagens. Um exemplo mais recente, conforme ele comenta, foi a série “Loki“, do universo cinematográfico da Marvel Studios.
“Começaram o seriado dizendo que ele era não-binário, mas durante a temporada nada foi explorado nesse sentido”, frisa o jornalista.
Além disso tudo, em 2016, uma nova franquia do Wizarding World foi lançada. “Animais Fantásticos e Onde Habitam” chegava com a premissa de acompanhar as aventuras do magizoologista Newt Scamander ao redor do mundo. No entanto, ficou claro que somente a história do personagem interpretado por Eddie Redmayne, não seria suficiente para preencher os cinco filmes previstos pela Warner Bros..
A partir do segundo filme, “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, os já então fãs de Harry Potter passariam a acompanhar a dualidade política do mundo bruxo após a década de 1920.
Com a mudança, novas escolhas narrativas foram tomadas. Para fomentar os contos, ficou perceptível que a companhia teria, por fim, que abordar o então romance do professor Alvo Dumbledore com Gerardo Grindelwald, visto que o conflito da época ocorreu a partir deles.
O público, apensar disso, continuou recebendo pouco respaldo disso. A temática foi abordada da maneira mais enraizada possível, e apenas uma cena no terceiro longa-metragem, “Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore” fez referência ao romance.
Roteiro tímido prejudica relação amorosa entre personagens em tela – Foto: Divulgação/NDOutra série que sofreu respaldos do queerbating e que deixou muitos fãs chateados foi “Sherlock”, estrelada por Benedict Cumberbatch.
O professor de inglês Igor Fernandes, que faz parte do vale, foi um deles. “Durante quatro temporadas quem assistia a série criou muita expectativa para a materialização de um possível romance entre o próprio Sherlock e seu assistente Watson, já que o roteiro sempre sugeria o mesmo”.
Seriado de 2010 tem quatro temporadas e está disponível na Amazon Prime – Foto: Divulgação/ND“Confesso que fiquei decepcionado com o final da série nesse sentido, pois me senti enganado por todo o decorrer da trama, que ficava sempre em um eterno ‘vem aí’. A série, é claro, deixa em aberto a sexualidade do detetive”, finaliza.
Para o jornalista, isso funcionava para ampliar a audiência dessas produções, visto que o marketing delas aproveitava o efeito que isso causava nos fãs. “Aquilo só frisava que quem era LGBT e estava assistindo não podia viver um romance”
“A gente já tinha o romance negado na vida real, então na minha série favorita eu também não podia ver isso acontecendo?”, questiona Faisting.
Quando em cena, viram estereótipos
Outra problemática da comunidade LGBTQIA+, citada tanto pelo jornalista quanto pelo doutor em comunicação, vai além do queerbating: é a representação estereotipada de personagens do vale. Muitas vezes, por exemplo, eles aparecem como “o melhor amigo gay da protagonista” ou o “alívio cômico” da produção.
Filmes dos anos 2000 utilizam deste artifício em cena, construindo personagens LGBTs engraçadinhos, mas que não são tão explorados como deveriam ou como seus equivalentes heterossexuais. Esse é o caso de Patrick, interpretado por Ezra Miller em “As Vantagens de Ser Invisível”.
Há ainda, como cita Matheus, um movimento chamado “Bury Your Gays” para definir alguns estereótipos de personagens queers na indústria cultural. Faisting explica que, nestes casos, os personagens gays precisam, sem exclusividade, morrer nos longas-metragens.
Com a prática, há a parcela representativa da comunidade nos filmes. O problema é que ela é facilmente descartada. “Nas séries dos anos 1990, por exemplo, os gays também iriam ter HVI ou ser apedrejados. Às vezes eles ocupavam o lugar dos vilões nas histórias”, reforça Matheus.
“As características eram sempre idênticas. Isso tem peso para a comunidade, principalmente para quem está na adolescência, pois fortalece imagens equivocadas sobre nós. Isso vai reforçando que aquele é o nosso destino”, frisa o jornalista.
O pensamento é compartilhado por Igor, que acredita que isso ocorria principalmente pela falta de conversa ou convivência com pessoas da comunidade LGBT. “Creio, porém, que aos poucos esses dogmas estão sendo quebrados”, diz.
“Diretores como Luca Guadagnino, por exemplo, um homem assumidamente gay, procuram sempre em suas equipes representar a comunidade com sensibilidade, focando no crescimento dos personagens e não em sua sexualidade”, reforça o professor.
Riqueza e profundidade nas narrativas
“Hoje já avançamos bastante neste sentido”, garante Matheus. “Apesar de ainda aportarmos coisas muito negativas em referência à representatividade LGBT no audiovisual, também estamos vendo coisas boas”.
Romance entre personagens de “Heartstopper” não é exagerado ou forçado, principalmente pelo casting da produção, que conseguiu, com muita representatividade, encenar a história – Foto: Divulgação/NDUm exemplo é a série “Heartstopper”, recém lançada pela plataforma de streaming Netflix e inspirada nos livros de Alice Oseman.
Com muita sutileza, a produção aborda a história de amor entre dois melhores amigos, Charlie e Nick. O primeiro é abertamente gay e o segundo está na fase da descoberta.
A narrativa não diminui seus personagens e nem sequer reduz eles às suas sexualidades, deixando subentendido que uma pessoa é o que ela é sem constantemente precisar ser lembrada de quem sente atração por.
“Não usar estereótipos é uma forma de trazer riqueza e inovação para a narrativa”, frisa Christian. O doutor em comunicação cita ainda a série “Euphoria”, da HBO Max. “Em ‘Euphoria’ temos uma menina transexual, a Jules, que não é reduzida a isso. Ela tem várias camadas e sua história trata sobre todas”, diz.
Ele ainda comenta que “precisamos estimular e visibilizar esses tipos de narrativas”.
Jules é uma das protagonistas de “Euphoria” – Foto: Divulgação/ND“O filme ‘Moonlight: Sob a Luz do Luar’ mostra, por exemplo várias facetas da personalidade do protagonista, e você não consegue entender se ele é só bom ou mal. Eles humanizam o personagem e não trabalham com dois polos extremos”, fala.
Combatendo o queerbating
Matheus ressalta que as produções audiovisuais ditam muito do que será visto, mas também respondem ao que o público está pedindo. “Elas não são as únicas responsáveis pelo preconceito no mundo e refletem o que a população diz e pensa atualmente”.
Por causa disso, Christian comenta que, a fim de dar maior visibilidade à causa, “a melhor forma de combater o queerbating é pressionando as indústrias culturais para que elas tenham noção de que estamos atentos ao uso dessa prática”.
Ele ainda ressalta que é importante que os fãs continuem construindo narrativas e se apropriando de personagens LGBTs por meio de fanfics e fanarts.
“Acho muito produtivo quando a cultura pop trata seus personagens LGBTs como ferramentas para impulsionar a criatividade”, conta o doutor em comunicação. “Assim, teremos mais pessoas da comunidade produzindo suas histórias, para além da cultura hegemônica”, finaliza.