Amor pela música e pelas baleeiras: o legado do manezinho Alécio Heidenreich

Manezinho de sobrenome alemão, viveu a maior parte de seus 93 anos em prol das causas do bairro do Ribeirão da Ilha

Foto de Paulo Clóvis Schmitz, ESPECIAL PARA O ND

Paulo Clóvis Schmitz, ESPECIAL PARA O ND Florianópolis

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Florianópolis tem perdido figuras importantes, algumas apontadas nas ruas, conhecidas pela maioria, outras anônimas ou celebradas apenas em suas comunidades.

Alécio Heidenreich durante apresentação – Foto: Reprodução/NDAlécio Heidenreich durante apresentação – Foto: Reprodução/ND

No dia 18 de março, morreu um personagem crucial para os moradores do Ribeirão da Ilha, mas também para a cultura da cidade, na medida em que formou uma legião de músicos e construiu baleeiras que ainda singram as baías e o mar aberto no entorno da Ilha de Santa Catarina.

Alécio Heidenreich, manezinho de sobrenome alemão, viveu a maior parte de seus 93 anos em prol das causas do bairro – que, pelo peso do legado dos colonizadores açorianos, é uma miniatura da Floripa mais autêntica e fiel ao passado.

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O reconhecimento a um dos últimos construtores de embarcações da Ilha está no projeto do vereador Afrânio Boppré (PSOL) que propõe a criação do Dia Municipal da Baleeira, a ser comemorado anualmente em 18 de dezembro, data em que Alécio nasceu, em 1928.

A intenção é homenagear o artífice e a baleeira – nobre como nenhum outro barco de pesca, célebre por sua agilidade, leveza e segurança. O rebento derradeiro do construtor foi comprado pelo navegador Amyr Klink e faz parte do acervo do Museu Nacional do Mar, em São Francisco do Sul.

Alécio Heidenreich é lembrado também pelo entusiasmo com que se envolveu em projetos da comunidade e em vista do gosto pelas histórias e pelas brincadeiras com quem o rodeava. O depoimento dos familiares dá conta de um homem espirituoso, alegre e muito apegado aos amigos e aos seis filhos e cinco netos que deixou.

Funcionário público federal, era o líder natural da banda Nossa Senhora da Lapa, que ajudou a salvar em 1952, depois de um ano sem música na festa da padroeira porque os instrumentos estavam se deteriorando. Foi numa reunião na casa do sogro, na via principal do bairro, que surgiu a decisão de preservar a banda, a qualquer custo.

O encontro foi até as 2h da manhã, mas resultou na determinação de retomar os ensaios e melhorar o instrumental, na medida do possível. Alécio conseguiu que músicos da cidade, alguns vinculados à banda da Polícia Militar, fossem uma vez por semana para o Ribeirão e recrutou jovens locais para complementar o conjunto.

As famílias dariam hospedagem e alimentação – e uma pequena gratificação aumentaria o entusiasmo dos artistas. “Num tempo em que só uma linha de ônibus por dia servia à comunidade, ele usava seu Fusca para levar e trazer os instrumentistas”, conta o filho João Paulo Heidenreich.

Assim, a banda fundada em agosto de 1896 ressurgiu forte e ganhou até um novo dobrado, batizado de “Ressurgimento”, composto pelo maestro Basilio Machado.

Quando a banda não podia faltar

A Sociedade Musical e Recreativa Lapa existe há mais de 125 anos porque arregimentou e treinou seus músicos na própria comunidade. Neste sentido, o trabalho de Alécio Heidenreich foi fundamental.

Além de ajudar a salvar a banda em 1952, ele repassou o que sabia aos jovens e com o tempo foi agregando novos ritmos (rock e reggae, por exemplo) aos tradicionais boleros, valsas e dobrados que o conjunto executava nas festas, no Ribeirão e em outros pontos da cidade e da região.

A banda se locomovia até de barco para localidades da Ilha e chegou a tocar em Biguaçu, Governador Celso Ramos, Enseada do Brito (Palhoça) e Garopaba. Até Urubici, na Serra catarinense, ouviu os acordes do grupo.

Momentos da vida de Alécio Heidenreich – Foto: ReproduçãoMomentos da vida de Alécio Heidenreich – Foto: Reprodução

Assim como Manoel Feliciano, o seu Dedinha, um dos mais antigos instrumentistas da comunidade, Alécio citava nas entrevistas que concedia o prazer de tocar e o medo de tolher o Ribeirão da Ilha, por alguma razão, da convivência com a música.

Quando a pioneira Amantes do Progresso, criada em 1870, chegou ao fim, em 1920, seus músicos migraram para a banda concorrente (Lapa) criada no final do século anterior, garantindo o lazer dos moradores.

Os instrumentos mais antigos vieram da Alemanha em um navio da Cia. Hoepcke, no final do século 19, e não tinham como ser consertados por falta de especialistas no Brasil. Por isso, a Amantes do Progresso era também chamada de Banda de Cera – tudo era “remendado” com cera de abelha para continuar em uso.

“Meu pai teve um papel invejável na história da banda da Lapa”, ressalta João Paulo. “Mesmo quando a família se mudou para o centro da cidade, em 1978, vinha todas as quintas-feiras para os ensaios, trazendo os músicos com ele. Graças à banda, as festas da padroeira e do Divino Espírito Santo eram muito animadas no Ribeirão.”

Uma linhagem de construtores no Sul da Ilha

Um dos diferenciais de Alécio Heidenreich em relação a outros manezinhos apegados à história e à cultura da Ilha é que sempre gostou de deixar relatos escritos como herança para as novas gerações.

Um dos textos que compartilhou, datilografado há mais de 40 anos, fala da baleeira e sua relação com o Ribeirão da Ilha, uma história que começa por volta de 1780. Desconhecida por aqui, era a rainha das embarcações, porque se prestava à captura de todos os tipos de peixes e era “boa de vela, leve de remos, valente pro mar, cargueira”. Muito cara, era um sonho dos pescadores terem uma só para si.

Foi quando, reunidos num bar, todos ouviram de Ignácio Lopes, morador da freguesia, que construiria uma baleeira. Muitos não acreditaram, mas ele reafirmou sua intenção nos dias seguintes e, ao cabo de um tempo (usado para a compra da madeira e dos apetrechos), o barco Tira-Teima ficou pronto, para surpresa dos moradores.

Ignácio só não terminou a 150ª unidade porque morreu antes disso. Ela foi concluída por Hermínio Theófilo Heidenreich e Paulo Pedro Heidenreich (pai de Alécio), seus auxiliares. Além deles, o pioneiro ensinou a prática a outro nativo, Hermínio Silva.

Pela ordem, os três aprendizes transmitiram a arte de construir baleeiras para Alberto Cabalheiro, Alécio Heidenreich e Oscar Silva. Segundo o relato de Alécio, esses sete construtores foram responsáveis por mais de mil baleeiras que foram ao mar no litoral catarinense e brasileiro.

Banda da Lapa na década de 1960 – Foto: ReproduçãoBanda da Lapa na década de 1960 – Foto: Reprodução

As embarcações feitas no Ribeirão da Ilha (então freguesia de Nossa Senhora da Lapa) tinham a fama de serem as melhores e as preferidas pelos pequenos e médios pescadores.

O fim do ciclo veio com a queda dos estoques de peixe, mas principalmente com as exigências legais que incluíam a necessidade de uma planta para a fabricação de baleeiras. O pai do próprio Alécio Heidenreich foi visitado um dia por um engenheiro naval que lhe solicitou a planta da embarcação.

Ele respondeu que “a planta estava na cabeça”, para surpresa de seu interlocutor. Com mais de 80 baleeiras construídas, Alécio criticava a burocracia e contava que após voltarem da análise técnica, na antiga Sudepe, em Brasília, as plantas iam para o fundo das gavetas – e cada artesão construía o barco à sua maneira.

Relatos sobre o cerco às baleias

Num texto escrito em 2005, Alécio Heidenreich reproduz histórias que ouviu na infância sobre homens que matavam baleias na orla catarinense. Eles faziam o cerco, saltavam em cima do animal e fincavam um arpão nas suas costas, usando uma marreta.

Quando o arpão chegava à parte com carne, a baleia sentia a primeira reação, e então que era acendido o estopim. A dinamite que estava dentro do cano do arpão explodia e podia matar o cetáceo.

Quando isso ocorria, duas embarcações rebocavam o animal até a praia. Quando a baleia fugia, era quase certo que morreria em outro lugar, por força da explosão da dinamite.

Certa vez, uma baleia que foi arpoada em Imbituba veio parar no Morro das Pedras, no Sul da Ilha de Santa Catarina. “Foi uma festa para o povo ver aquela enorme baleia morta na praia”, contou ele, porque o óleo do animal era muito valioso à época.

As baleeiras têm características técnicas que as tornam únicas, e no Ribeirão da Ilha os construtores optavam por um modelo mais fino, que cortasse a água com mais velocidade.

“Assim seria mais veloz de vela e remos, porém muito peixe foi jogado fora quando as redes traziam uma quantidade de peixe superior à sua carga”, contou Alécio. Quando os motores foram acoplados às embarcações, elas passaram a ser mais altas e cheias, capazes de ir mais longe da costa, onde havia cardumes mais generosos, e trazer tudo o que fosse pescado.

No litoral catarinense, os principais pontos de captura da baleia foram as armações da Piedade (em Governador Celso Ramos), Itapocorói (em Penha), São Joaquim (em Garopaba), Santana (em Imbituba) e Pântano do Sul (também conhecida como armação da Lagoinha, hoje praia do Matadeiro), em Florianópolis.

O declínio da caça foi mais acentuado ao longo do século19. No Sul da Ilha de Santa Catarina, há relatos que dão conta do uso de mão de obra escrava na atividade.

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