Aulas, ateliês e encomendas: como o cancelamento do Carnaval prejudicou renda dos envolvidos

Prefeito de Florianópolis Gean Loureiro anunciou a decisão pelas redes sociais; Liesf condena falta de diálogo com as escolas e artistas

Redação ND Florianópolis

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Quando as fantasias e os carros alegóricos passavam por ajustes finais, os instrumentos eram afinados e a letra do samba-enredo já estava ‘fresquinha’ na cabeça, veio a notícia. A bateria, mais uma vez, não entrará na avenida, e o público de Florianópolis não verá o show das suas escolas de samba em 2022.

Produção foi planejada já considerando a possibilidade de cancelamento do Carnaval 2022 em Florianópolis, diz Liesf – Foto: Gabriel Lain/Arquivo/NDProdução foi planejada já considerando a possibilidade de cancelamento do Carnaval 2022 em Florianópolis, diz Liesf – Foto: Gabriel Lain/Arquivo/ND

Tendo como base a situação sanitária de Florianópolis, que registra aumento no número de casos de infecção por Covid-19 e H3N2, a prefeitura optou, pelo segundo ano consecutivo, por não realizar o tradicional desfile das escolas de samba da cidade.

No entanto, além das preocupações com a saúde, alguns moradores também enfrentam problemas financeiros decorrente da decisão das autoridades.

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É o caso do carnavalesco Raphael Soares, que, mais uma vez, não poderá contar com a renda do desfile para ajudar nas contas de casa. Readaptando os projetos desde 2021, Raphael esperava que, seguindo os protocolos sanitários, seria possível retomar as tradições na passarela.

“Quem trabalha diretamente com o Carnaval vai sofrer mais um ano pela ausência da festa, que não é só uma festa. O desfile, diferente da festa de rua, movimenta trabalho para todas as comunidades. Pessoas que trabalhavam só para o Carnaval tiveram que mudar seu norte para poder se manter durante toda essa crise. Não existe um auxílio emergencial exclusivo para o povo do samba”.

Crianças também utilizavam de fantasias específicas para a ala infantil do desfile – Foto: GRES Consulado/Divulgação/NDCrianças também utilizavam de fantasias específicas para a ala infantil do desfile – Foto: GRES Consulado/Divulgação/ND

Ele trabalha fazendo a criação do Carnaval para a escola Consulado do Samba, um projeto que exige pesquisa de materiais e análise de preços dos produtos, muitas vezes importados e inflacionados por conta da crise. Durante a pandemia, Raphael seguiu dando aulas para crianças.

“Durante o ano eu trabalho com teatro, faço parte do programa ‘Bairro Educador’, e dou aula de desenho e teatro para crianças. Não só eu, mas como todos os outros artistas do carnaval, – diferente de Rio de Janeiro e São Paulo, que podem trabalhar só com a festa – temos que ter outro trabalho para ter uma renda. O carnaval daqui não paga nossa conta durante todo ano, é só por um período”.

Em geral, o salário dos envolvidos no Carnaval de Florianópolis é pago em três parcelas. “Recebemos através das parcelas que as escolas ganham. Por meio ano, [o valor] me daria tranquilidade, mas o que paga, realmente, as contas do mês são os trabalhos extras que temos que fazer”.

Novas rotas

Se reinventar não foi algo exclusivo para o carnavalesco Raphael. Para o figurinista Marco Toscaro, que já passou por escolas tradicionais da Ilha como União da Ilha da Magia, Consulado do Samba, Dascuia e Jardim das Palmeiras, o trabalho de criação das fantasias ganhou novos rumos.

“Trabalho no Carnaval há 32 anos, sendo que, no Carnaval de Florianópolis estou há 16 anos. Nesse período de pandemia tive que trabalhar com artes e artesanato para conseguir me manter”.

Ele conta que a decisão veio logo que o cancelamento do Carnaval 2021 foi anunciado. “Aconteceu a partir do momento que soube que não haveria mais o Carnaval, tive que me reinventar, e, como trabalho com artes, comecei a fazer os artesanatos, para que tivesse uma forma de me manter”.

Marco transformou seu espaço de produção em ateliê de fornecimento para lojas e encomendas – Foto: Marco Toscaro/Arquivo Pessoal/Divulgação/NDMarco transformou seu espaço de produção em ateliê de fornecimento para lojas e encomendas – Foto: Marco Toscaro/Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Hoje, Toscaro, que trabalhava somente confeccionando fantasias e adereços para os desfiles, aceita encomendas e é fornecedor de materiais de uma loja de decoração. Ele transformou o seu local de produção para o Carnaval em um ateliê.

Sem falar em números específicos, ele conta que mais de 90% da sua renda mensal foi comprometida após o cancelamento dos desfiles das escolas, tendo no seu companheiro um amparo para sustentar a casa.

Já em 2022, não foi muito diferente, uma vez que o artista iniciou o ano com prejuízos. “Já estava confeccionando as fantasias, investi em tecidos e materiais e, com o cancelamento do Carnaval, fiquei com um prejuízo em torno de R$ 5 mil reais. Os materiais serão aproveitados no próximo Carnaval, mas investi e receberei só no próximo ano. O prejuízo é meu, porque a escola que me contratou não recebeu da prefeitura”.

Falta de diálogo

Para a Liesf (Liga das Escolas de Samba de Florianópolis) e as escolas de samba, a decisão da Prefeitura de Florianópolis causou uma mistura de impressões, como respeito, surpresa e decepção, segundo o diretor jurídico Bernardo Pessi.

“A Liesf e escolas receberam a notícia com respeito, a gente entende o porquê, mas com bastante decepção, porque foi um cancelamento isolado, direcionado ao carnaval da passarela e de rua, não a todos os eventos da cidade”.

O representante ainda conta que não houve nenhum tipo de diálogo entre a prefeitura e as escolas, uma vez que era habitual entre as partes. A Liesf soube do cancelamento do Carnaval pelas redes sociais. “O diálogo com a prefeitura sempre foi bom, sempre tivemos acesso e fomos bem recebidos, mas houve essa ruptura, por conta do cancelamento via Twitter”.

“Houve a promessa de que haveria uma reunião para que se discutisse o cancelamento do carnaval, mas isso não partiu de uma reunião, foi uma surpresa. Agente esperava esse reunião, ainda que discordasse do cancelamento”

Casais de porta-bandeira e mestre sala eram destaques tanto pela coreografia quanto pelas vestimentas elaboradas para cada festa – Foto: GRES Consulado/Divulgação/NDCasais de porta-bandeira e mestre sala eram destaques tanto pela coreografia quanto pelas vestimentas elaboradas para cada festa – Foto: GRES Consulado/Divulgação/ND

“É uma decisão de porte, importa muito para muitas famílias, empresário e negócios. Mas não houve reunião, o cancelamento foi pela Twitter”. Pessi revela que a reunião estava programada para o dia 10 de janeiro. No dia 4, prefeito Gean Loureiro anunciou a decisão.

Com relação aos investimentos financeiros das escolas, a Liga explica que tudo foi planejado dentro da possibilidade cancelamento. “O investimento financeiro das escolas já foi feito de forma que previa a possibilidade de cancelamento, sendo feito em materiais que podem ser em reutilizados em carnavais futuros, em samba, ensaios material humano e etc”.

Alguma coisa foi investido em fantasia e carros, mas foi um percentual baixo, porque as escolas entediam a possibilidade, e elas já têm dividas antigas, seria um tiro no escuro, por isso o investimento em material reutilizável”.

Sobre a fiscalização, Bernardo admite que, além de cuidados sanitários habituais, seria desenvolvido, ainda, um protocolo específico para o desfile, feito para os integrantes das escolas. A Liga também elaborou um regulamento junto das escolas, prevendo cuidados a segurança sanitária, especialmente em relação ao uso de máscaras pelos artistas da passarela.

Em geral, Pessi definiu o entendimento dos representantes do Carnaval 2022. “A posição da liga e das escolas é essa: surpresa, decepção com a forma como o cancelamento se deu, havia um diálogo e a promessa de reunião, mas foi um cancelamento sem diálogo e seletivo”.

A Prefeitura de Florianópolis foi procurada para se manifestar sobre a situação, mas não forneceu posicionamento até o fechamento deste material. O espaço segue aberto para esclarecimentos e maiores informações.

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