Cortejo do Grande Baile Místico, que celebra o legado folclórico e fantástico de Florianópolis, tomou as ruas do Centro no último domingo de outubro – Foto: Marcos Espíndola/NDNa luta entre bruxas e as (piores) previsões do tempo, venceu a magia! Se ainda havia dúvidas das suas existências, no meu caso, elas evaporam neste domingo, 29 de outubro. E outra: quem tem o Grande Baile Místico não precisa de halloween e abóbora.
Entre as atrações as mais esperadas da multicultural Feira do Cascaes, o cortejo do Grande Baile Místico enfim conseguiu descer as ruas do Centro, após três adiamentos por conta das chuvas.
Foi lindo, um ato digno do peculiar sincretismo cultural e fantástico de Floripa e da sua gente.
SeguirTinha que ser neste domingo, o último do mês do celebrado outubro místico, também do aniversário do artista e folclorista Franklin Cascaes (1908-1983).
Tinha bruxas de todas os tipos e origens no Grande Baile Místico – Foto: Marcos Espíndola/NDPelas previsões do tempo não era para ser. A semana inteira os serviços de meteorologia alertavam para mais água e até ciclone, principalmente a partir da sexta-feira.
Eis que em questão de horas tudo mudou. O tempo sorriu, o céu se abriu e até o sol deu o ar da graça. As bruxas trabalharam bem, tão bem que até deu praia no domingo.
A tarde chegou e com ela as bruxas desceram no Largo da Catedral. Chegaram de todos os cantos e meios: carro, ônibus, a pé, de bicicleta, até de prancha de “morey boogie”. Voando em vassouras eu não vi, mas nem precisava.
3ª Edição do Grande Baile Místico ocorreu após três adiamentos – Vídeo: Marcos Espíndola/Divulgação
Tinha bruxa ciclista, bruxa rendeira, bruxa benzedeira, bruxa artista, bruxa cantora, bruxa comediante, bruxa fantasma e bruxa à paisana (muitas!).
A elas se juntaram os seres místicos do mundo fantástico da Ilha de Santa Catarina: alas de fantasmas, lobisomens, boitatás. E também as baterias e os bonecos do Berbigão do Boca, do Baiacú de Alguém, a quase bicentenária Banda Amor à Arte e a falange sonora da Cores de Aidê.
Grupo Cores de Aidê entre as atrações do cortejo do Grande Baile Místico – Foto: Marcos Espíndola/NDO cortejo desceu a Rua Tenente Silveira arrastando a sua pequena multidão naquele clima de Carnaval da Ilha.
Do trio elétrico, cantores e cantoras entoavam alternadamente as marchinhas do Berbirgão, o hino tema do Baile místico, o repertório de Cores de Aidê e o Rancho de Amor à Ilha. Samba, marcha, samba-reggae e poesia.
Grande Baile Místico levou música, misticismo e folclore para o Centro de Floripa – Vídeo: Marcos Espíndola/ND
Força negra e feminina
Dos momentos mais marcantes, a cantora Dandara Manoela (que havia se apresentado na noite anterior em um grande festival na cidade) sobe ao palco para convocar o batuque da Cores de Aidê.
O local não poderia ser mais simbólico: no calçadão da Deodoro em frente ao mural que retrata a gigante Antonieta de Barros. A ancestralidade negra e a presença da mulher também têm espaço no sincretismo do Baile Místico. Confesso que eu me emocionei.
Nesse cortejo bruxólico seguiu o povo, jovens e idosos, famílias, crianças e adultos junto com personagens carismáticos da cidade, como Dona Bilica (atriz Vanderléia Will), Darcy Manezinho (músico Moriel Costa) e Valdir Agostinho – que encerrou o Baile com show no Largo a Alfândega.
Personalidades da cidade, como Dona Bilica (atriz Vanderléia Will) e a professora Sandra Meyer, filha do artista Meyer Filho, participaram do 3º Baile Místico – Foto: Marcos Espíndola/NDOs seres fantásticos do Baile Místico são reais
O grande barato dessa história toda é que os “seres fantásticos” são reais. São artistas, professores, escritores, pesquisadores, escritores, enfim, pessoas de verdade que se uniram para enaltecer e homenagear o mito e folclore da Ilha de Santa Catarina.
Estandartes e bonecos também reverenciaram as personalidades que contribuíram para a construção desse legado fantástico e cultural da cidade: o próprio Franklin Cascaes, o museólogo Gelci José Coelho, o “Peninha”, o artista Meyer Filho, a sambista Nega Tide, o jornalista Aldírio Simões e outros mais.
Para próxima edição, já está sacramentada também a entrada da artista plástica Eli Heil (1929-2017) no panteão Místico.
Aqui é preciso fazer uma reverência à jornalista e escritora Bebel Orofino, figura sempre lembrada (e com justiça) por tornar realidade o Baile Místico.
Museu para Franklin Cascaes
Mas não foi só cantoria, teve posicionamento também. Uma das bandeiras do projeto é lutar pela criação de um museu para difundir o legado de Franklin Cascaes e a pesquisa sobre a sua seminal obra. “A cidade precisa da obra de Franklin Cascaes. Exigimos um museu para Cascaes já”, bradava o público.
Se esse povo fez parar de chover, quem seria louco de contrariá-lo?
“Santa Catarina de Alexandria.
Protegei o Baile Místico,
A festa linda a Ilha da Magia” (trecho do hino do Baile Místico)
Amém!