Batalhas de rap em Joinville destacam o hip hop na cidade: ‘a cultura de rua me salvou’

06/04/2023 às 17h01

Ainda carentes de incentivo público, as batalhas de rap são uma das vertentes da cultura hip hop e reúnem jovens todas as semanas em Joinville

Juliane Guerreiro Joinville

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É 20h30 na zona Sul de Joinville. Da ponte pra cá, enquanto algumas pessoas andam de skate, outras são atraídas pelo barulho da caixa de som: vai começar mais uma edição da Rimas do Ghetto, uma das batalhas de rap que destacam a cultura hip hop na cidade do Norte de Santa Catarina.

As batalhas de rima, também chamadas de batalhas de MCs, são uma das vertentes do rap. Nesse formato freestyle é preciso um bom repertório e raciocínio rápido para, além de rimar na batida, não ceder à pressão do oponente à sua frente. O termo batalha não é à toa.

MCs se enfrentam na Rimas do Ghetto, zona Sul de Joinville – Foto: Carlos Jr/NDMCs se enfrentam na Rimas do Ghetto, zona Sul de Joinville – Foto: Carlos Jr/ND

Quem rima está aqui, quem não rima…

Quando chega a noite de quarta-feira é no Parque da Cidade que os MCs se reúnem. Já conhecido por receber skatistas, o espaço no lado Sul do mapa foi ideal para atrair também outras pessoas ligadas à cultura de rua, o que fez com que a Rimas do Ghetto, batalha criada em janeiro de 2022, fizesse sucesso em pouco tempo.

“A gente foi bem abraçado porque aqui já é um pico underground, de grafite, skate, já é da cultura hip hop. Incluir uma batalha nisso, numa quarta-feira, quando as pessoas geralmente estão em casa, é algo que abre espaço para os jovens que poderiam estar fazendo alguma coisa errada”.

Quem conta a história é Erik Matheus, ou Mazinho. Aos 20 anos, ele é um dos organizadores da batalha e se divide entre os papéis de apresentador e de MC. “Quando eu apresento, só conduzo o evento, eles rimam, eu faço meu papel e assisto de camarote. Mas batalhando sou uma pessoa mais agressiva, quieta, o ambiente pra mim muda”, fala.

Batalhas de rima destacam a cultura hip hop em Joinville – Vídeo: Carlos Jr/ND

Além de Mazinho, três mulheres fazem parte da organização da batalha: uma delas Vitória Araújo, de 22 anos. “Hoje é um misto de felicidade ver o pessoal aqui toda quarta. A gente sabe o perrengue que passa, a gente se vira com o que tem. Às vezes não tem caixa de som, não tem microfone, se vira com a voz. Mas ver o pessoal, os MCs que vêm agradecer a oportunidade de batalhar, é muito gratificante”, conta.

A organização, aliás, envolve muito mais do que a quarta-feira. “É como se aqui fosse o show principal, mas as coisas acontecem nos bastidores. Tem todo um trabalho de planejamento, redes sociais para cuidar, contratos com patrocinadores e eventos que a gente tem que trabalhar. A batalha é quarta-feira, mas ela acontece todos os dias para os organizadores”, diz Mazinho.

Ele conta que a Rimas do Ghetto é conhecida pelo alto nível. “A gente brinca que só batalham os melhores. Se a gente colocar MCs que não estão com um nível de preparo grande, a batalha terá um nível inferior. E para MCs que estão iniciando tem batalhas que a gente incentiva nos bairros mais periféricos, onde o índice de criminalidade é maior. Usamos como um treinamento e, aqui, como um ringue mesmo”, fala.

De espectador a referência nas batalhas

Quem já se tornou referência nesse ringue, aliás, é Victor Martins, ou DMartins, de 20 anos. Ele sempre gostou de música, influenciado principalmente pelo pai, e a partir do gosto pela MPB acabou descobrindo o rap e todo o universo da cultura hip hop. Depois, não demorou muito para ser atraído pelas batalhas.

DMartins (de vermelho) foi campeão da seletiva de Joinville para o Duelo de MCs Nacional – Foto: Carlos Jr/NDDMartins (de vermelho) foi campeão da seletiva de Joinville para o Duelo de MCs Nacional – Foto: Carlos Jr/ND

“Comecei a frequentar só assistindo e treinando em casa para começar a batalhar. A Rimas do Ghetto foi uma virada de chave dessa parada de passar de um hobby para uma forma de seguir uma carreira em batalha ou música”, conta DMartins. Hoje ele é um dos maiores campeões da batalha, uma referência para quem, como ele na adolescência, começa a se interessar pelo rap.

“A cultura de rua me salvou de muitos aspectos, de estar em lugares errados, fez pensar de outra forma, ter mais empatia. E conseguir socializar também porque eu, por natureza, era uma pessoa muito tímida e hoje consigo conversar com mais tranquilidade. Para mim, é muito gratificante fazer parte do time e da cultura hip hop”, fala.

O caminho de espectador a referência, mas exigiu treino. “Não é tanto o raciocínio em si, mas fazer a poesia dentro do tempo da batida. Quanto mais você batalha, mais experiência adquire. Mas quando comecei treinava coisas específicas, assistia a batalhas e ia agregando tudo isso aos poucos, aperfeiçoando e lapidando cada parâmetro”, lembra DMartins.

MCs falam sobre a preparação para as batalhas e como se aperfeiçoar – Vídeo: Carlos Jr/ND

Existem diversas modalidades de batalha, mas uma das mais tradicionais é aquela em que cada MC rima duas vezes por 45 segundos de forma alternada, frente a frente, e o público decide quem foi o melhor. Em caso de empate, os dois voltam a se enfrentar em um terceiro round.

“As pessoas que olham à primeira vista pensam que é algo muito sujo. E a gente tecnicamente usa isso, mas é um sujo bom. A gente usa muita agressividade, brincadeiras e ofensas, mas de uma forma saudável. A gente é adversário, não inimigo”, destaca Mazinho.

Como DMartins, ele também se dedicava aos treinos. “Eu via vídeo, treinava vocabulário, lia, rimava contra a parede para estimular a criatividade. A própria escola ajuda muito, os conteúdos que você está vendo no dia a dia, tanto as palavras quanto o próprio estudo, são coisas que influenciam bastante a melhorar a cada dia”, destaca.

“A gente é adversário, não inimigo”, diz Mazinho – Foto: Carlos Jr/ND“A gente é adversário, não inimigo”, diz Mazinho – Foto: Carlos Jr/ND

Central das Rimas comandada por uma mina

Outra batalha de rap tradicional em Joinville é a Central das Rimas, comandada por Gabriela dos Santos Batista, a Amazona MC. Ela assumiu a organização da batalha em 2019, mas antes disso já havia ficado à frente da Batalha do Adhemar Garcia, que acontecia na associação de moradores do bairro de mesmo nome e agregava MCs e b-boys.

Hoje MC, Amazona foi descobrindo o rap aos poucos, quase escondida. “Meu irmão, três anos mais velho, tinha fácil acesso. Já eu não poderia escutar, rap para mulher jamais. Então, meio que ouvia escondido e fui conhecendo, aperfeiçoando, até que em 2016 tive a oportunidade de conhecer o rap pessoalmente através da batalha de rima”, conta.

A Central das Rimas nasceu há cerca de seis anos e acontecia na Praça Nereu Ramos, no Centro da cidade, até que a pandemia do coronavírus chegou. As batalhas, então, passaram a ser feitas online e, à medida em que as liberações de público ocorriam, foram se mudando para a Brixton, loja também na área central, onde Amazona trabalha como vendedora.

Amazona (de vermelho) é a única apresentadora de batalhas em Joinville – Foto: Carlos Jr/NDAmazona (de vermelho) é a única apresentadora de batalhas em Joinville – Foto: Carlos Jr/ND

Ela é a única mulher a apresentar uma batalha de rap em Joinville e, embora se sinta abraçada no meio, teve receio. “Como todo mundo fala, é um ambiente masculino, tem mulheres, mas são poucas que a gente pode se espelhar e falar ‘ela está ali e eu vou conseguir também'”, comenta.

Apesar disso, Amazona entende que o acolhimento às mulheres cresce na cultura hip hop, assim como o interesse feminino. “É uma barreira que a gente está quebrando aos pouquinhos. Vemos as meninas com interesse e tentamos abraçar, trazer para mais perto, porque ter esse acolhimento é fundamental para se sentir confortável nesse ambiente masculino”, diz.

Vitória, uma das três mulheres organizadoras da Rimas do Ghetto, concorda. “O ambiente do hip hop é muito machista, então ver mulheres participando, fazendo o negócio acontecer, deixa os homens receosos. Mas aqui não tem o que falar, em Joinville o pessoal respeita muito a cena local e, principalmente, as mulheres”, ressalta.

Mulheres têm conquistado espaço no rap em Joinville – Vídeo: Carlos Jr/ND

Os desafios de fazer cultura de rua em Joinville

Como é fazer parte da cultura de rua em Joinville? Quem organiza as batalhas vê desafios como a falta de apoio financeiro e o racismo, do qual a própria Amazona já foi alvo. Hoje conselheira de Patrimônio Imaterial na cidade, ela sofreu ataques de uma servidora pública ao ser eleita para o cargo de suplente em 2022.

“A gente não é reconhecido como cultura joinvilense, só que a gente faz batalha há mais de seis anos só na Central das Rimas. Existe o Encontro das Ruas desde 2012, existe a cultura afro, o hip hop. São quatro batalhas semanais em Joinville”, defende.

Joinville tem quatro batalhas de rap semanais – Foto: Carlos Jr/NDJoinville tem quatro batalhas de rap semanais – Foto: Carlos Jr/ND

Para ela, o apoio do poder público é importante. “Tem cidades que a prefeitura empresta estádio, libera banheiro químico. Se eu quiser fazer a batalha na Nereu Ramos tenho que ir atrás de alvará, banheiro químico, acessibilidade, como vou fazer tudo isso se não me ajudarem? Eu não ganho nada, mas também não tenho como dar”, argumenta.

Mazinho acrescenta, ainda, as dificuldades em se dedicar apenas ao rap. “A gente trabalha com as artimanhas que tem, mas ainda é pouco. A nossa equipe precisa trabalhar em outros empregos para se sustentar, pagar as contas. Então, a falta de tempo atrapalha um pouco”, lamenta.

MCs falam sobre as dificuldades em fazer cultura de rua em Joinville – Vídeo: Carlos Jr/ND

Além do incentivo público, Amazona cita a necessidade de apoio de quem se identifica com a cultura. “Se vem artista de fora, o ingresso é R$ 100 e a gente compra. Aqui às vezes é R$ 10 e muitas vezes a pessoa não vem. Falta compreensão para entenderem que um artista de fora que eles admiram já foi um artista local. O apoio das pessoas da cidade é muito importante para o desenvolvimento do trabalho do artista”, pontua.

Apesar das dificuldades, as batalhas seguem e veem bons resultados não só nos duelos, como conta Vitória. “Na Batalha dos Cria, que acontece no Boehmerwald, cola muita criança e é interessante pensar nisso porque é um escape, elas estão no movimento, brincando e isso vale muito. A gente vê que está rendendo e fazendo acontecer”. Afinal, rap também é compromisso.

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