Era final da década de 1960, provavelmente mais um dia quente de verão em Joinville, quando um grupo de cerca de 15 amigos resolveu pegar seus instrumentos e batucar na rua. Eles não imaginavam, porém, que aquela batucada improvisada daria início às escolas de samba e ao Carnaval de rua joinvilense como é conhecido hoje.
Ao lado de seus instrumentos inseparáveis, Adelmo Braz relembra os primeiros desfiles em Joinville – Foto: Carlos Jr/NDQuem conta a história é Adelmo Braz, considerado o fundador da Escola de Samba Amigos do Kênia – atualmente Príncipes do Samba – e do Carnaval de rua da cidade. Aos 79 anos, ele não precisa forçar muito a memória para relembrar os momentos que marcaram a sua vida.
Tudo começou quando ele e mais alguns amigos que se reuniam no Kênia, único clube negro de Joinville, tiveram uma ideia. “Um dia estávamos conversando e pensamos ‘vamos fazer uma batucada?’, ‘vamos!’, e saímos do Kênia a pé para a rua. Passamos na rua do Príncipe batucando e o pessoal todo espantando, ninguém sabia de nada. Nos bares e lanchonetes, todo mundo saiu na rua”, relembra.
Sem muita harmonia, nem fantasias e muito menos carros alegóricos, aquele foi o início tímido, mas importante dos desfiles em Joinville. Isso porque, logo depois Adelmo ficou um tempo longe da cidade e, quando voltou, os companheiros já sabiam que a batucada havia voltado também.
Adelmo e os amigos deram início às escolas de samba em Joinville – Vídeo: Carlos Jr/ND
A folia passou a contar com apoio da prefeitura depois que o secretário de Turismo procurou Adelmo para planejar o Carnaval. Naquela época, outras escolas já haviam se juntado à celebração: a Acadêmicos do Serrinha e a Unidos do Boa Vista.
O Serrinha, aliás, nasceu de “conversa de boteco”, como conta Marlene Carvalho. Ela era casada com João Luiz de Oliveira, conhecido como Charuto, que tinha um bar no bairro Saguaçu e foi o fundador da escola. “A concentração era na minha casa. Era uma escola de samba pequena, tipo um bloco hoje em dia, 120 pessoas. Mas era bonitinha, bem feitinha, com carinho”, conta.
Em uma das épocas de ouro do Carnaval joinvilense, as escolas se apresentavam na rua do Príncipe. “Era lindo chegar e ver a rua cheinha, fechada. Lindo ver aquilo, é uma coisa indescritível. Só quem estava envolvido é que pode saber disso aí”, se emociona Adelmo.
Muito trabalho para colocar as escolas na “avenida”
No Serrinha, onde Charuto e Marlene “comandavam” a escola, a casa do casal era tomada durante os preparativos. Ela, aliás, pegava férias do trabalho para se dedicar à festa.
“Era literalmente uma invasão, tudo era feito lá em casa. Eu perdia a casa, ela era pequena e eles tomavam conta”, brinca. Enquanto Charuto dava ritmo à bateria no desfile, Marlene se destacava como porta-bandeira, função na qual estreou quase de improviso.
“No terceiro ano, bem no dia do desfile, a porta-bandeira disse ‘não vou mais’. Aí um olhou para o outro e disseram ‘vai tu’. E eu coloquei a roupa dela, um salto bem altão e lá fui”, relembra aos risos.
Como porta-bandeira, Marlene conta que ganhou prêmios e estampou capa de jornal. “A primeira armação também foi a minha. Saí na primeira página numa roupa cor de rosa bem bonita”, destaca.
Marlene foi esposa de Charuto, fundador da Serrinha, e porta-bandeira da escola – Foto: Carlos Jr/NDNo bairro Floresta, os amigos do Kênia também se desdobravam para colocar a escola na “avenida”. “Eu era o diretor de bateria, o presidente, o tesoureiro, consertava os instrumentos, tudo passava na minha mão. Na época, tinha um livro ouro e, com esse livro, eu corria nos comércios e indústrias porque é caro fazer escola de samba e dar tudo de graça”, relembra Adelmo.
Os instrumentos, que hoje são de nylon, à época eram feitos de couro, dando trabalho extra. “À noite sempre furava dois ou três porque o verão era muito brabo. Então eu chegava no Kênia pelas 17h e as peças tinham que ser molhadas para amolecer e manusear. Aí colocava nos tamborins, deixava arrumadinho e colocava no telhado para pegar sol. Chegava a noite e estava tudo sequinho”, explica.
Embora Charuto e Adelmo não tivessem sido exatamente “criados” no samba, a bateria das escolas era o grande destaque. “A nossa bateria era um samba mais surrado, tipo o do Rio de Janeiro, bem batucado. Já a escola do Serrinha e do Boa Vista eram mais ritmadas. Só que a nossa é que fazia aquele volume grande e o xodó do pessoal era isso”, se exibe Adelmo.
Adelmo fala sobre a bateria da escola e momentos marcantes do início do Carnaval de rua em Joinville – Vídeo: Carlos Jr/ND
Nem todos os desfiles daquela época foram competitivos. É por isso que Adelmo lembra com tristeza da única vez que competiu com a Amigos do Kênia e acabou perdendo, segundo ele, por causa da chuva que prejudicou principalmente a bateria. Na ocasião, foram dois desfiles e justamente naquele que valia para a competição o tempo atrapalhou a escola.
“Todo mundo sabia que era para nós termos sido campeões, mas no dia estava chovendo, então ficou uma coisa feia. No outro desfile, com o couro recuperado e todo mundo firme, aí a coisa foi diferente, mas já estava feito”, lamenta.
Já Marlene conta que a Serrinha foi muitas vezes vice-campeã, acumulando troféus em várias categorias, e conta com saudade dos prêmios de porta-bandeira que ganhou.
Aliás, lembra também das “encrencas” que a competição provocava. Um registro de um jornal de 1981, por exemplo, mostra Marlene indignada com a vitória da Fúria Tricolor, escola fundada pouco depois das demais.
Jornal de 1981 mostra reclamação de Marlene sobre o resultado do Carnaval – Foto: Jornal Hora H/Reprodução/AHJ“Eu brigava muito com o Alegria (integrante do Kênia) e hoje tenho uma saudade dele. Ele sempre muito educado e eu ‘metia a boca nele’. Já meu marido não, gostava de todos eles, da turma do Boa Vista e do Kênia. No final das contas, eram todos amigos. A briguinha era só ali mesmo”, lembra Marlene.
Fato é que o que nasceu só como uma batucada entre amigos na rua, ou ainda como “conversa de boteco”, tornou-se o abre-alas para um enredo de muitas histórias, motivo de orgulho e saudade para quem fez parte daquele tempo.
Adelmo relembra com carinho a época em que a rua do Príncipe ficava cheia para ver os foliões – Vídeo: Carlos Jr/ND
“Carnaval para tirar o povo do tédio”: primeiro registro da festa em Joinville é de 1865
Embora o Carnaval dos desfiles de escola de samba tenha tido início na década de 1960, os primeiros registros da folia em Joinville vêm de muito antes. Era 1865, apenas 14 anos após a chegada dos primeiros imigrantes germânicos à cidade, quando o jornal Kolonie-Zeitung trouxe, em alemão, detalhes sobre uma festa como essa na cidade, embora ainda mais elitizada e restrita a clubes.
Primeiro registro da festa em Joinville, em 1865, ainda em alemão – Foto: Kolonie-Zeitung/Reprodução/AHJO pesquisador e professor Joceli Fabrício Coutinho, que estudou grande parte da história do Carnaval em Joinville, revela que a trajetória da festa na cidade é longa. Joinville teve, inclusive, a tradição do entrudo.
“Era um tipo de Carnaval que havia em todo o Brasil. Era uma ‘guerra’ que se tinha na rua, com uns jogando baldes de água nos outros. Havia também os limõezinhos de cheiro, que eram limões de cera com perfume. Porém, para se vingar de alguém, colocava-se ali água de lodo ou esgoto e jogava”, conta. Algumas vezes a “brincadeira” chegou a virar caso de polícia.
Por isso, ao longo do tempo, foi substituída por outras formas mais “delicadas” de celebrar a festa, como as serpentinas e os confetes. “Em 1896, antes da virada do século, Joinville já tinha guarnições de todas as qualidades à venda, enfeites para todas as classes sociais”, destaca Joceli.
Atenta às tradições dos grandes centros, Joinville teve também a comercialização de lança-perfume, além da tradição do Zé Pereira.
“Qualquer um que tocasse um tambor era chamado de Zé Pereira. Os tambores começaram a ser introduzidos nas ruas em 1882. Já os grupos de tangarás, que eram mais elitizados, saíam andando na rua para fazer algazarra. Encontramos um em 1911 saindo do Mercado Municipal e convidando todo mundo para passear ainda com lamparinas porque não havia luz em vários lugares”, diz o pesquisador.
Depois também houve os desfiles de carros, também chamados de corsos: “eram desfiles só de carros com pessoas fantasiadas e, quem não tinha dinheiro, ficava na calçada aplaudindo”.
Os bailes nos clubes também tiveram destaque, inclusive com bailes de máscara. “Aí começam as primeiras alegorias, já no início do século. Houve desfiles em 1914, um grande desfile em 1927. Joinville é uma terra que usou o Carnaval para tirar o povo do tédio”, comenta Joceli.
Carnaval na década de 1910, no Salão Berner, que ficava na rua 9 de Março – Foto: Foto Briese/Reprodução/AHJNas décadas de 60 a 90, são fundadas as escolas de samba e começam os desfiles. Os blocos também se destacavam. “Havia um bloco carnavalesco chamado As Depravadas, o maior que Joinville já teve. Eram homens vestidos de mulheres, o grupo se reunia no Centro e abria o Carnaval. Começou pequeno, mas chegou a 800 pessoas”, fala o pesquisador.
Período de silenciamento acabou “esvaziando” a festa
Embora a história do Carnaval em Joinville seja longa e animada, a festa sofreu um período de silenciamento entre 1994 e 2005, conta o pesquisador.
“Começou a baixar muito a verba que a prefeitura dava para as agremiações e elas acharam melhor ir para outras cidades. Algumas pessoas também dizem que a prefeitura, na época do Wittich Freitag, não era muito a favor do Carnaval e a população não questionou, não lutou por ele”, lamenta.
Carnavalescos da cidade chegaram a se vestir de preto e segurar um caixão simbolizando a morte do Carnaval. Nestor Padilha, da Príncipes do Samba, chegou a dizer: “se o baile do chopp fosse tradição da raça negra podem ter certeza que as posições oficiais também seriam invertidas”.
Foliões reclamavam da falta de incentivo ao Carnaval – Foto: Jornal de SC/Reprodução/AHJO racismo, aliás, é elencado por Joceli como um dos fatores que contribui para que muitas pessoas não queiram associar Joinville à cultura do Carnaval, além de uma ideia de que a festa vai contar os “bons costumes”.
“Temos um pessoal muito contra o Carnaval, que o atrela à bandalheira, pornografia e tudo mais. Somos uma sociedade muito tradicional, que zela pela família tradicional, que no ponto de vista deles não se encaixa com a cultura carnavalesca. Mas essa é uma das manifestações mais antigas não só do Brasil como do mundo”, argumenta.
Carnaval que se reinventa e mostra sua força
Fato é que, por muito tempo, Joinville ficou sem a festa, até que em 2006 ela voltou à cidade, inclusive com a eleição da primeira rainha do Carnaval. A partir daí, começaram as políticas públicas para custear a festa, como o Simdec (Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura), usado ainda hoje para colocar as escolas na avenida.
Em 2023, quatro escolas de samba desfilam em Joinville. Uma delas a Príncipes do Samba, nascida da batucada de Adelmo, acompanhada da Fusão do Samba, fundada em 2007, e da Unidos do Caldeirão e Unidos pela Diversidade, criadas em 2011.
Para Joceli, toda a história do Carnaval mostra que Joinville também é dona dessa cultura. “Ele foi implantado em Joinville para tirar o povo do tédio e depois fomos nos adaptando e nos inspirando nos grandes centros. Temos uma grande comunidade que respira e vive o Carnaval”.