Uma das manifestações mais belas e autênticas da cultura popular catarinense, a brincadeira do boi de mamão tem agora uma trincheira que a defenda e lute por sua preservação e reafirmação como elemento da cultura imaterial dos municípios do litoral.
O que surgiu com força em Florianópolis, tentando abrir espaços e buscar apoios junto ao poder público local, ganha amplitude com a recente criação do Conselho do Boi de Mamão do Estado de Santa Catarina.
Sérgio Antônio de Souza, o Marreba, 56 anos. Ele e a mulher mantêm um galpão anexo à sua casa onde guardam e cultuam os personagens do folguedo – Foto: Léo Munhoz/NDOs benefícios que essa iniciativa pode gerar serão atestados no próximo sábado (25), quando um grupo de Araranguá fará apresentações no Engenho dos Andrade, em Santo Antônio de Lisboa, e depois em Sambaqui. Mais tarde, a visita será retribuída, marcando o início do intercâmbio entre “bois” de diferentes cidades do Estado.
SeguirEssa boa nova chega num momento em que os grupos tentam retomar o ritmo das atividades pré-pandemia e, ao mesmo tempo, pressionam as autoridades do município e do Estado para que enxerguem a cultura popular em toda a sua riqueza e diversidade.
De modo geral, esta área merece menos respeito dos poderes constituídos do que o cinema e as artes em geral, objetos de editais e leis de incentivo baseados nos mecanismos de renúncia fiscal. “É quase um milagre que os grupos de boi de mamão ainda estejam vivos e se apresentando em eventos e escolas”, diz o presidente do Conselho, Cláudio Andrade.
Na Ilha de Santa Catarina, há pelo menos 11 bois em atividades, vinculados a um conselho municipal de grupos que foi o embrião do conselho estadual. O boi de mamão do Pantanal existe desde 1982, mas suas origens podem ser buscadas na década de 1960. Já o boi do Itacorubi, um dos mais conhecidos da região, tem 33 anos de estrada.
E há grupos no Ribeirão da Ilha, na Barra da Lagoa, no Sambaqui, em Santo Antônio de Lisboa, em Jurerê, nos Ingleses, no Campeche e na Vargem Grande.
Todos eles sobrevivem graças à obstinação de lideranças locais, pessoas anônimas que agregam algumas dezenas de integrantes, fazem ensaios, consertam instrumentos e a vestimenta dos personagens, agendam apresentações, enfim, mantêm a tradição na base da força de vontade.
Um dos exemplos disso é a Associação Boi de Mamão de Jurerê, coordenada pelo ilhéu Sérgio Antônio de Souza, o Marreba, 56 anos. Ele e a mulher mantêm um galpão anexo à sua casa onde guardam e cultuam os personagens do folguedo – o Boi, a Cabra, o Cavalo, a Maricota, a Bernunça, o Jaraguá, o Doutor, a Benzedeira, o Laçador.
Sérgio é um entusiasta das tradições locais – Foto: Léo Munhoz/NDRecém-aposentado, Sérgio é um entusiasta das tradições locais e consegue agregar mais de 20 componentes para apresentações em escolas, creches, asilos e, quando chamado, em hotéis e eventos que querem mostrar o boi de mamão a hóspedes e turistas.
Uma festa para as crianças
Em seu galpão, Sérgio de Souza mantém objetos e apetrechos que são caros à cultura e aos afazeres locais, como a pomboca (nome dado à lamparina), tamancos, redes, tarrafas, antigos ferros de passar roupa, máquina de costura, serrote, enxó para fazer a canoa de garapuvu, instrumentos da farinhada, maquetes, carro de boi e engenho em miniatura.
Ele ainda pesca e gasta o que pode para conservar seus bonecos. Uns dos bois que confeccionou usa uma cabeça bovina, que ele cobriu com fibra e espuma e que faz sucesso nas apresentações. Também promove encontros na comunidade com a farinha que produz, misturada com linguiça, atraindo antigos moradores e gente de fora que aprecia a cultura da Ilha.
Na infância, Sérgio assistia aos trejeitos do ancestral do boi de mamão, o boi de pano, que as crianças passaram a usar quando faltava uma cabeça de boi de verdade para iniciar a brincadeira. Nela, o momento mais dramático é quando o boi morre, deixando o vaqueiro, que depende dele para a sobrevivência, desesperado.
Sérgio Antônio de Souza é conhecido como Marreba – Foto: Léo Munhoz/NDUm médico é chamado, e o animal “ressuscita”, para a alegria geral – tudo regado a danças e cantorias. Há explicações distintas para a origem de cada personagem. O termo mamão, por exemplo, teria entrado na tradição porque alguém usou a fruta no lugar do pano, o que assustou ainda mais a criançada.
Sérgio defende a criação de um programa que mostre o boi de mamão nas escolas e chame estudantes para passar um dia na sede dos grupos – levando para sempre, na memória, aqueles elementos da cultura do litoral que a urbanização e os novos hábitos e costumes tendem a esconder. E há razões para isso: “Quando chegam aqui, as crianças não querem mais ir embora”, conta ele.
De onde veio a devoradora Bernunça?
O escritor, músico e pesquisador Adriano Besen, 43 anos, é nativo de Florianópolis e cresceu vendo a família participar do folguedo do boi de mamão. Um de seus tios, Alan Cardoso, confeccionava os personagens e hoje é quem fabrica os bonecos do Berbigão do Boca, que faz a alegria dos foliões nos dias que antecedem o Carnaval da cidade.
O que Besen nunca entendeu é de onde vem a Bernunça, personagem que “devora” crianças e adultos na brincadeira. Ele não acreditou que fosse, como diz o senso comum, um dragão ou outro monstro qualquer, e começou a pesquisar as origens dessa intrigante figura.
Há uma versão que dá conta de que foi em Itajaí que a Bernunça se agregou ao conjunto de personagens da brincadeira. Como isso não foi suficiente para aplacar sua curiosidade, o escritor mergulhou em livros e na internet e descobriu – ou deduziu – que a figura se assemelha com Ammit, uma temida deusa egípcia que devorava almas ou mortos, uma espécie de demônio fêmea, uma criatura híbrida “cujo corpo era composto por partes de três animais – cabeça de crocodilo, parte dianteira do corpo de leão e parte traseira de hipopótamo”. As ilustrações que encontrou sobre Ammit lembram a figura da Bernunça.
O escritor, músico e pesquisador Adriano Besen, 43 anos, é nativo de Florianópolis e cresceu vendo a família participar do folguedo do boi de mamão – Foto: Léo Munhoz/NDDiz Adriano Besen: “Na cultura religiosa do antigo Egito, acreditava-se que quando morria a pessoa era conduzida pelo deus Anúbis (o deus do submundo dos mortos) para ser julgado no Tribunal de Osíris. Lá, o coração do morto era pesado e comparado com a Pena da Verdade, na Balança do Julgamento. Se o morto, em vida, tivesse sido uma pessoa sem pecados, o coração seria mais leve do que a Pena da Verdade; nesse caso, poderia ressuscitar ou ir para o Paraíso. Mas, se tivesse cometido pecados, seu coração seria mais pesado que a Pena da Verdade e ele seria condenado e Ammit devoraria seu coração e sua alma, extinguindo para sempre a sua existência”.
Para convalidar sua tese, o escritor lembra que muito da cultura oriental foi transplantada para a Península Ibérica, por meio dos mouros e de outros povos que ocuparam a região. Além disso, assim como Ammit devorava os pecadores, a Bernunça “come” crianças levadas e adultos de mau comportamento.
Autor do livro infantil “A história de uma galinha” e de textos publicados em antologias, revistas, jornais, blogs e sites, Adriano acredita que as similaridades dos hieróglifos e do papel mitológico da deusa Ammit com a Bernunça explica, “de maneira plausível”, a inserção dessa personagem no folclore do boi de mamão catarinense, que difere do bumba meu boi e do boi bumbá no norte e nordeste do país.
Um museu para mostrar o boi aos turistas
A criação do Conselho do Boi de Mamão do Estado de Santa Catarina foi a saída vislumbrada para unificar as lutas de um segmento que não tem encontrado eco para seus pleitos junto às instituições públicas. Cláudio Andrade, o presidente, diz que não há uma política de incentivo para as manifestações da cultura popular, ao contrário do que acontece com os grupos que fazem a Festa do Divino, por exemplo.
Pelo perfil dos praticantes do folguedo do boi, também há dificuldades para se adequar às exigências burocráticas da Lei Aldir Blanc, que tentou amainar os impactos da perda de receitas dos artistas durante a pandemia de Covid-19.
Em agosto, no Dia do Folclore, a Fundação Franklin Cascaes promoveu a Feira de Cascaes na praça 15 de Novembro, no centro da Capital, que contou com a presença de vários grupos de boi de mamão.
Adriano acredita que as similaridades dos hieróglifos e do papel mitológico da deusa Ammit com a Bernunça explica, “de maneira plausível”, a inserção dessa personagem no folclore do boi de mamão catarinense – Foto: Léo Munhoz/NDNo entanto, se boa parte dos componentes tem suas próprias fontes de renda, os grupos dependem de recursos para administrar as sedes, consertar bonecos e equipamentos e pagar um contador, porque precisam ter CNPJ para receber seus cachês. Com a pandemia, a renda caiu a quase zero, e a recuperação em curso ainda não é garantia de folga financeira para os grupos.
O conselho reúne bois de vários municípios do litoral, de Bombinhas a Araranguá, e tende a aproximar grupos com características peculiares, a partir de influências que variam de uma região para outra. “Uma de nossas metas é criar o Museu do Boi de Mamão, que será uma atração para os turistas e ajudará os estudantes a conhecerem um pouco mais da nossa história”, diz Cláudio Andrade.
Ele também gostaria de oferecer oficinas para a formação de praticantes, em especial músicos para as cantorias do boi – cada vez mais raros na região.