Carnaval com regras

Com o Carnaval deste ano cancelado pelo nosso drama sanitário, vale relembrar os Carnavais do passado remoto

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Redação ND Florianópolis

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No Brasil, tudo começa só depois do Carnaval. A primeira prestação do carnê, um emprego novo ou a campanha eleitoral . Com o Carnaval deste ano cancelado pelo nosso drama sanitário, vale relembrar os Carnavais do passado remoto, os quais, surpreendentemente, tinham regras.

Sendo o regime anárquico por excelência, chama a atenção que o Carnaval de Floripa, na época da Desterro do século 19, era todo regulamentado, obedecia a“posturas” e era representado por “Sociedades” como a dos “Bons Arcanjos” e a dos “Diabos a Quatro”.

Desfile do Carnaval de Joaçaba e Herval – Foto: Divulgação/NDDesfile do Carnaval de Joaçaba e Herval – Foto: Divulgação/ND

Os sócios formavam grupos e préstitos, saíam às ruas “soltando fogos de bengala” e compareciam fantasiados e mascarados aos clubes sociais,como o Doze de Agosto, nos idos de 1884. O jornal “O Argos” publicou, no mesmo ano,uma relação das fantasias mais usadas pelos foliões da cidade, as “roupas” que vestiam os ricos, os “classe média” e até os destituídos.“Do que se fantasiavam os desterrenses”?– perguntou o jornal.

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E informou:- A gente fina dessas sociedades se fantasiava de conde,príncipe e duque – todas as figuras da nobreza – e também de mouros, pierrots e dominós.

Para tanto, faziam fantasias de seda, de veludo e de outros tecidos pesados e caros, enfeitando-as com lantejoulas, vidrilhos e outros adornos. Proliferavam cabeleiras,pretas ou brancas, lisas ou cacheadas.Bigodes e barbas postiços – e até calvas, igualmente falsas.

Na rua da Constituição n. 4 (a atual Felipe Schmidt), o barbeiro João Machado Coelho tinha esses“adereços” à venda. Em sua vitrine anunciava-se chapéus, uniformes, dragonas e quepes (a fantasia de “militar” era permitida), cartolas e smokings. Mais modelos de mouros, cavaleiros e beduínos.

A fantasia de “dominó” era a mais popular e a mais barata, sendo apenas uma longa batina, enfeitada.Uma certa Sociedade Carnaval Desterrense exagerou no ano de 1861, como nos conta o extraordinário historiador de “Nossa Senhora do Desterro –Memória e Notícia”, Oswaldo Rodrigues Cabral:- Tantas foram as regras que até os mascarados acabaram identificados nas ruas – mesmo os encapuzados!

Nas noites de bailes, as regras eram rígidas, como a do artigo 8.:- No baile noturno haverá um sócio“reconhecedor”, a quem os senhores sócios que forem mascarados serão obrigados a se apresentar; com o fim de reconhecimento de identidade.

Então, eles receberão um cartão de entrada para apresentá-lo ao porteiro, o qual lhe entregará uma senha, no caso de desejarem sair do recinto para alguma necessidade premente…

Para o cúmulo da bizarrice, a mesma Sociedade pedia que os mascarados “Não fossem identificados pelos foliões nas ruas”, em razão de “algum tique, hábito ou vício”. E que não tivessem seus nomes apontado sou proferidos “em voz alta”. E se explicava:- Não deixa de ser ridículo um mascara do que todo mundo sabe quem é.

O “folguedo” perde instantaneamente a sua “graça”…O carnaval, com toda essa burocracia, definhou –até ser quase que formalmente extinto pela virada do século 19, para ressurgir somente lá pelos anos 1920.Hoje, é uma pena, está cancelado por causa da atual atmosfera insalubre. Esperamos que, mesmo que com outros mascarados, a festa retome um dia o seu vigor.