Carnaval já foi suspenso outras 5 vezes em Florianópolis; relembre os motivos

Em entrevista ao ND+, historiador explicou o que motivou a suspensão do desfile das escolas nos anos anteriores; prefeitura cancelou o evento no início de janeiro por causa da pandemia de Covid-19

Bruna Stroisch Florianópolis

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Pelo segundo ano consecutivo, as festividades do Carnaval em Florianópolis foram canceladas por causa da pandemia da Covid-19. Assim como em 2021, no lugar de carros alegóricos, sambas-enredo e o som das baterias, o silêncio vai tomar conta da passarela Nego Quirido neste Carnaval.

Desfiles de escola de samba em Florianópolis foram cancelados em 1988, 1994, 1997, 1998 e 2013 – Foto: Casa da Memória/Reprodução/NDDesfiles de escola de samba em Florianópolis foram cancelados em 1988, 1994, 1997, 1998 e 2013 – Foto: Casa da Memória/Reprodução/ND

Antes de decidir pelo cancelamento, a expectativa da prefeitura era de que o tradicional desfile das agremiações fosse realizado no dia 26 de fevereiro. Cerca de 25 mil pessoas presenciaram o último evento antes da pandemia, em 2020, segundo estimativa da prefeitura municipal.

Mas, de acordo com o historiador e carnavalesco Willian Tadeu, não se trata apenas da segunda vez em que a festividade é “riscada” do calendário da cidade.

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O palco do samba em Florianópolis já encarou o silêncio outras cinco vezes: em 1988, 1994, 1997, 1998 e 2013. Em entrevista ao ND+, o historiador explicou o que motivou a suspensão dos desfiles das escolas nessas ocasiões.

Willian Tadeu conta que os cancelamentos anteriores foram pautados pelo debate entre o investimento no Carnaval versus o investimento em outras áreas sociais, como saúde e educação. Segundo ele, essa é uma discussão que vai permear a data durante décadas.

“Se pegarmos jornais dos anos 1970 e 1980 vemos esse debate, mas não só envolvendo a questão do investimento público no Carnaval, mas a própria legitimidade do evento é colocada em xeque. Se discute sobre o que é legítimo estar nas ruas, o que é um Carnaval ‘puro’ e o que é ‘modificado. Existe um certo saudosismo”, explica o carnavalesco.

Construção do sambódromo

Em 1988, a construção do sambódromo de Florianópolis foi usada como justificativa pela prefeitura municipal para suspender o desfile na Capital catarinense, conforme conta Tadeu. À época, o Executivo teria argumentado que os recursos destinados para financiar o evento estavam sendo destinados ao sambódromo.

O historiador acrescenta que há uma movimentação de sambistas no sentido de destacar o Carnaval como uma prioridade social.

“Isso não significa que eles achavam que o desfile era mais importante do que a saúde ou a educação, mas existe uma tentativa de tornar público na época, que o Carnaval refletia no turismo e que o investimento era baixo comparado às outras áreas sociais. Além disso, o Carnaval traz a ideia de comunidade, de organização, arte, cultura e lazer ”, completa.

Década de 1990

Willian Tadeu diz que na década de 1990 o debate sobre o valor do Carnaval como investimento turístico estava em alta. E foi justamente essa discussão que levou ao cancelamento nos anos de 1994, 1997 e 1998.

“Afinal, o desfile das escolas de samba atrai ou não os turistas?”, era o questionamento. Conforme o historiador, o Estado promoveu pesquisas para avaliar o cenário. Considerou-se que a data não tinha impacto significativo no setor.

“A escola de samba é colocada no centro de uma discussão que não condiz com o objetivo para o qual foi criada. A princípio, ela não existe para ser um atrativo ao turismo. Isso foi fomentado pelo próprio poder público”, expõe Willian.

Nos anos 1960 e 1970, o Executivo criou regramentos que buscam transformar as escolas de samba em um produto que se assemelhava ao Carnaval do Rio de Janeiro- Foto: Casa da Memória/Reprodução/NDNos anos 1960 e 1970, o Executivo criou regramentos que buscam transformar as escolas de samba em um produto que se assemelhava ao Carnaval do Rio de Janeiro- Foto: Casa da Memória/Reprodução/ND

Ele explica que nos anos 1960 e 1970, o Executivo criou regramentos que buscam transformar as escolas de samba num produto que se assemelhava ao Carnaval do Rio de Janeiro.

“Isso gera um dilema. Porque se tem um modelo caro de Carnaval fomentado pelo governo e as escolas de samba não conseguem se financiar sozinhas porque são coordenadas pelas camadas mais pobres da população”, relata Tadeu.

2013

O ano de 2013 foi um ano de mudanças na prefeitura de Florianópolis. Uma chapa de oposição à anterior venceu as eleições de outubro de 2012. “O debate da vez é: a quem cabe financiar o Carnaval? Ao mandato atual ou ao anterior?”, diz o historiador.

Willian conta que as escolas de samba acabaram ficando à mercê dessa discussão. “Não se chega a um acordo e o desfile não acontece. Novamente, se tem o argumento de que o evento é caro e existem outras prioridades.”, aponta.

O historiador relata que o cancelamento dos desfiles nas décadas de 1980 e 1990 enfraqueceram o movimento em Florianópolis. “Fez com que as pessoas viajassem para fora da cidade”, revela.

Ele ressalta ainda que o Carnaval, para além do aspecto turístico, é também uma data de celebração das comunidades e dá sentido à cidade.

“Quando o Carnaval deixa de acontecer as pessoas têm um motivo a menos para ficar na cidade durante esse feriado. Elas acabam indo para outros centros e perdem o vínculo afetivo e de identidade com o Carnaval local”, conclui.

Início dos desfiles

Não há uma definição quanto à data de origem dos desfiles de escolas de samba em Florianópolis. Contudo, a primeira escola ainda em atividade, a Protegidos da Princesa, surgiu em 1948 para o Carnaval do ano seguinte.

De acordo com o historiador, no início dos anos 1940 já havia uma espécie de competição entre agremiações carnavalescas também chamadas de blocos e cordões. O desfile de Carnaval na Capital catarinense se consolida no final dos anos 1940 e início da década de 1950.

Antes da construção do sambódromo, as festividades de Carnaval eram realizadas no entorno da praça 15 de Novembro, no Centro. Em meados da década de 1970, os desfiles ocorrem na avenida Paulo Fontes, também na região Central. A partir de 1989, o evento passou para a Passarela Nego Quirido.

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