Cartas Catarinenses: três séculos de memórias reveladas

Livro de Luiz Henrique Tancredo, que continua cativando historiadores e pesquisadores pela sua abrangência, agora se candidata à distribuição nas escolas

Paulo Clóvis Schmitz, Especial para o ND Florianópolis

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É impossível evitar o nó na garganta com uma carta enviada pelo escritor Júlio de Queiroz à mãe, de uma ternura tocante, assim como ternas foram as palavras do poeta João da Cruz e Sousa para sua amada Gavita. Não menos comoventes eram as trocas de mensagens escritas à mão entre Anita e Giuseppe Garibaldi, na segunda metade do século 19.

Correspondências selecionadas por Tancredo contam um pouco da história catarinense – Foto: Germano Rorato/NDCorrespondências selecionadas por Tancredo contam um pouco da história catarinense – Foto: Germano Rorato/ND

E o que dizer da correspondência do ex-governador Jorge Lacerda para a filha Zoê, então com nove anos, que morava e estudava no Rio de Janeiro, longe dos pais? Ou de uma carta remetida pelo ex-governador Aderbal Ramos da Silva para a mulher, Ruth, em viagem pela Alemanha, em 1939, em tom mais formal, mas ainda assim carinhoso?

Em tempos de predomínio das mensagens eletrônicas, sucintas e superficiais, resgatar cartas manuscritas ou datilografadas – de meados do século 18 ao terceiro milênio – e reuni-las numa publicação foi o desafio a que se propôs Luiz Henrique Tancredo, jornalista e procurador do Estado aposentado.

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“Cartas catarinenses”: conhecidos e anônimos

“Cartas catarinenses” (editora Dois por Quatro, 2022) é uma obra que cativa, porque reproduz correspondências conhecidas ou anônimas (e até inéditas) e as insere e contextualiza na época em que foram escritas, com dados biográficos dos autores ou receptores e o cenário político e social em que vieram à tona.

“Nem todas as cartas podem ter a importância recomendada para fazer parte de um livro como este, mas foram selecionadas tanto pelo seu conteúdo, quanto para mostrar o relevo de quem as escreveu ou recebeu”, explica Tancredo.

Lançada há cerca de um ano e meio, a obra continua tendo repercussões, vem atraindo o interesse de pesquisadores e estudantes de história e, agora, se candidata a chegar às escolas por meio de um edital de aquisições do governo do Estado.

O italiano Giuseppe Garibaldi também escreveu à amada Anita – Foto: Cartas Catarinenses/Reprodução/NDO italiano Giuseppe Garibaldi também escreveu à amada Anita – Foto: Cartas Catarinenses/Reprodução/ND

De Victor Meirelles a Zilda Arns, e até Drummond

Há cartas dos pintores Victor Meirelles e Martinho de Haro, dos escritores Horácio de Carvalho, Othon Gama d’Eça e Delminda Silveira, dos jornalistas Altino Flores e Al Neto, do arquiteto Oscar Niemeyer (ao governador Aderbal Ramos da Silva), a última mensagem da médica Zilda Arns (vítima de terremoto em 2010, no Haiti) e da mulher de AlbertSabin (o criador da vacina oral contra a poliomielite), Heloisa, ao então senador Jorge Konder Bornhausen, em 2001.

Em linguagem acessível e mantendo, em muitos casos, a grafia original das cartas, o livro de Tancredo tem prefácio do amigo jornalista Marcílio Medeiros Filho (ambos trabalharam na mesma época do jornal “O Estado”) e a colaboração essencial de seu irmão César Tancredo, além do estímulo de Annita Hoepcke da Silva, que morreu em 2021 e a quem o volume é dedicado, além dos filhos da empresária.

As pesquisas foram feitas no Arquivo Público do Estado, no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, na Academia Catarinense de Letras, na Biblioteca Pública, na Cúria Metropolitana e em outros espaços de memória no Estado. Apenas o Museu Oswaldo Rodrigues Cabral, na UFSC, que guarda o grande acervo do folclorista Franklin Cascaes, não abriu as portas ao jornalista.

Os amores e dores do grande poeta

Para quem gosta de literatura, o começo do livro “Cartas catarinenses” é um prato cheio. Ali estão 15 cartas escritas por Cruz e Sousa e seus amigos, com destaque para Virgílio Várzea, Araújo Figueiredo e Oscar Rosas. Nesta série fica claro o suplício do poeta maior com a miséria, a discriminação por conta da cor e as máculas da escravidão. Em carta para a noiva Rosa Gonçalves, a Gavita (a quem tratava por Vivi), Cruz e Sousa se desfaz em louvores.

“Amo-te, amo-te muito, com todo o meu sangue e com todo o meu orgulho e o meu desejo poderoso e o meu desejo de unir-me a ti, viver nos teus braços, protegido pela tua bondade pura, pelas tuas graças que eu adoro, pelos teus olhos que eu beijo”, diz o vate em uma carta se estima ser de 20 de setembro de 1892. Em outra missiva, Cruz e Sousa conta que sente saudades da amada e que queria estar ao seu lado, “ao pé de ti, na alegria e na felicidade da tua presença querida, flor da minha vida, consolo do meu coração”.

Mais que a falta da companheira, que ficara no Desterro, o poeta escreve do Rio, onde fora atrás das oportunidades que lhe foram negadas na província, dando conta ao amigo Virgílio Várzea da penúria material e psicológica que lhe afligia.

“Não imaginas”, diz numa das cartas, “o que se tem passado por meu ser, vendo a dificuldade tremendíssima, formidável, em que está a vida no Rio de Janeiro. Perde-se em vão tempo e nada se consegue. (…) Não há por onde seguir”. Era o artista para quem todas as portas se fechavam, porque era “um triste negro odiado pelas castas cultas, (…) cuspido de todo o lar como um leproso sinistro”.

O bilhete suicida do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier, o Cau – Foto: Cartas Catarinenses/Reprodução/NDO bilhete suicida do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier, o Cau – Foto: Cartas Catarinenses/Reprodução/ND

Conversa com o boitatá, os conselhos de um pai ao filho distante e a chegada dos açorianos

Após um garimpo de três anos, Luiz Henrique Tancredo coletou cartas pitorescas, como a que o folclorista Franklin Cascaes imaginou e escreveu ao boitatá relatando um encontro na lagoa do Jacaré e de um diálogo “boitatariano” no qual perguntou à entidade se seria pai de “um bebê ou uma bebéa”.

Também se dirigindo a um ente fictício, o pintor Ernesto Meyer Filho teve um texto transformado em carta na qual narra uma de suas inúmeras viagens a Marte. Definindo-se como “esperto detetive sideral”, o irreverente artista, pródigo em pintar galos e marcianos, faz uma descrição dos “maravilhosos e sempre verdes e sempre floridos jardins” do Planeta Vermelho.

Impressiona muito ler a carta do empresário alemão Ferdinand Hackradt, então o homem mais rico de Santa Catarina, ao filho Fernando, que fora estudar na Alemanha, em 1869. No texto, em tom paternal, mas também severo, o industrial – que era tio de Carl Hoepcke e amigo de Hermann Blumenau – faz recomendações ao jovem acerca de cuidados e obrigações que deveria assumir. “São verdadeiras lições de caráter, honestidade, maneira de viver e outras receitas capazes de fazê-lo vencer com retidão”, afirma Tancredo. Anos depois, Fernando Hackradt se tornou comerciante e aderiu à carreira política, como deputado provincial em defesa da monarquia, até voltar à Alemanha e retomar suas raízes como empresário.

Entre as cartas escritas por personalidades de relevância em Santa Catarina estão a de Jorge Konder Bornhausen ao presidente Fernando Collor de Mello solicitando afastamento do ministério em vista da crise no governo da República, em 1992, e a de Esperidião Amin ao então presidente Aureliano Chaves pedindo ajuda federal para recuperar o Estado após as grandes enchentes de 1983. Muito mais antiga é a carta de um dos primeiros governadores da capitania de Santa Catarina, Manuel Escudeiro Ferreira de Souza, ao rei D. João V de Portugal, em 1749, dando conta da chegada das primeiras famílias de casais açorianos para colonizar o litoral do Estado.

O livro também dedica algumas páginas às correspondências trocadas entre Fritz Müller, naturalista alemão radicado em Santa Catarina, e Charles Darwin, o cientista britânico que publicou a revolucionária obra “A origem das espécies”. Eles nunca se conheceram pessoalmente, mas as colaborações de Müller ajudaram a convalidar as ideias de Darwin.

Um bilhete de Drummond

Para muitas pessoas, é fato desconhecido que o poeta Carlos Drummond de Andrade enviou ao professor e advogado Henrique da Silva Fontes, uma das grandes personalidades da história e da cultura de Santa Catarina, um bilhete no qual falava da publicação de um comentário sobre o catarinense (que chamou de “notinha”) no jornal carioca “Correio da Manhã”. Transcrito em “A Gazeta”, de Florianópolis, o texto se detém sobre um livro acerca da origem e do significado de alguns nomes próprios.

A crônica, de junho de 1954, foi localizada na seção de jornais antigos da Biblioteca Pública do Estado. Nela, Drummond revela ter conhecido Henrique Fontes no Rio de Janeiro e se deliciado com sua obra sobre digressões antroponímicas. “Fui tomado pela emoção ao encontrar tamanho tesouro”, diz Luiz Henrique Tancredo.

Pequenos trechos

“Suas cartas todas, até mesmo o bilhetinho que a senhora escreveu sobre o colchão, eu guardo e, sempre que o encontro, o beijo comovido; porque ali eu sinto o coração de minha mãe, puro, simples e belo como ele é!”

Júlio de Queiroz, escritor, em carta à mãe

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