“De manhã fazia o cafezinho no fogão a lenha. Se tu passasse com a família em frente à casa dela e ela tivesse na porta, já te chamava pra tomar um café. Era uma pessoa fantástica. Sem preconceito nenhum”.
“O fogão a lenha dela nunca apagava. Sempre com café e um bolinho. Acolhia todo mundo que aparecia, sem distinção. A mesa da cozinha não tinha cadeiras, mas sim, bancos. Daqueles bem grandes pra caber bastante gente e todo mundo comer junto”.
É assim que os irmãos Valmir Osmar Ferreira, de 57 anos, e Soeni Helena Pires, de 61 anos, lembram da avó paterna Rozália Paulina Ferreira. A história de dona Rozália é marcada pelo acolhimento, dedicação à comunidade e amparo à educação. Tais características renderam, inclusive, uma homenagem a ela.
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Rozália Paulina Ferreira dá nome a uma rodovia no Sul da Ilha de Santa Catarina – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDEm outubro de 1989, uma extensa estrada localizada no Sul da Ilha de Santa Catarina, mais precisamente na Armação do Pântano do Sul, foi batizada oficialmente de Rozália Paulina Ferreira.
A ação veio do projeto de lei municipal nº 4.052/88 de autoria do vereador Içuriti Pereira da Silva e sancionada pelo então prefeito Esperidião Amin.
O trecho da estrada da Costa de Dentro que ficou denominado como rodovia Rozália Paulina Ferreira parte da SC-403 – rodovia Francisco Thomaz dos Santos – até uma bifurcação que leva à rua Lauro Mendes e à estrada João Belarmino da Silva.
Segundo o projeto de lei que dá nome à rodovia, Rozália Paulina Ferreira nasceu no dia 12 de janeiro de 1906, em Florianópolis.
O neto Valmir conta que a família da avó possuía terras na região da Costa de Dentro. Ainda muito nova, dona Rozália perdeu os pais e foi morar com familiares no Ribeirão da Ilha.
Em 1927, aos 21 anos, Rozália se casou com Joaquim Felisbino Ferreira, também nativo do Sul da Ilha. Segundo a família, Joaquim era cerca de 10 anos mais velho do que a noiva. O casal foi morar na casa que fora dos pais de Rozália, na Costa de Dentro.
A casa de um pavimento construída com pedra bruta das encostas, areia da praia e óleo de baleia traz tantas lembranças aos familiares quanto a própria dona.
“Tinha uma horta enorme no terreno. A vó plantava rabanete, cenoura, repolho, beterraba. Tinham ainda as árvores atrás da casa, como pé de laranja, jabuticaba, goiaba, abacate. A alimentação deles vinha do que eles plantavam”, conta Soeni.
O primeiro filho do casal, chamado Osmar Joaquim Ferreira, nasceu no início da década de 1930. Rozália e o marido tiveram outros três filhos: Osvaldo Joaquim Ferreira, Orival Joaquim Ferreira e uma menina, que morreu ainda criança vítima de sarampo.
Longe do centro urbano, à época, o Pântano do Sul era uma pequena comunidade voltada à pesca e ocupada por roças e cafezais. A energia elétrica, por exemplo, só chegou à região no início da década de 1970.
“Antes disso, era tudo na lamparina, na pomboca”, relembra Valmir, que morou com a avó durante a infância e a adolescência.
O sustento da família de dona Rozália vinha da lavoura e do engenho de farinha. O filho Osmar – pai de Valmir e Soeni – abriu um pequeno comércio na frente da casa dos pais.
Foto da casa de Rozália Paulina Ferreira a cerca 40 anos atrás – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDO casal viveu junto por 19 anos até a morte de Joaquim, vítima de uma doença respiratória chamada crupe. O filho caçula, Orival, tinha apenas cinco anos quando o pai faleceu.
“Minha avó dizia que eles viveram em pleno amor. Ela contava que acompanhava o marido até o portão quando ele saía para trabalhar e que, na volta, ele trazia flores para ela. Quando ela via algum casal brigando dizia que tinha que tratar com carinho e conversar”, diz Soeni.
Casa foi hospital durante gripe espanhola
A família de dona Rozália conta que a casa dela serviu de hospital durante a gripe espanhola, pandemia que aconteceu entre 1918 e 1919, atingindo todos os continentes e deixando um saldo de, no mínimo, 50 milhões de mortos pelo mundo. À época, a casa estava desocupada após a morte dos pais de Rozália.
“O exército saiu em busca de casas que estivessem vazias para abrigar os doentes. Montaram uma espécie de hospital de campanha para ajudar a comunidade”, explica o neto Valmir.
Reportagem do ND+ detalhou a situação da Capital catarinense nesse período. Em Florianópolis o primeiro diagnóstico de gripe espanhola foi dado em 23 de setembro de 1918.
Houve um pico de contágio de pelo menos 50 dias, em que aproximadamente 10 mil pessoas foram infectadas. Na época, Florianópolis tinha uma população estimada em quase 40 mil pessoas.
A doença infectou cerca de 30% da população da cidade e matou ao menos 126 pessoas. No Brasil, estima-se que foram 30 mil mortes oriundas da peste.
Primeira escola da região
Segundo a família, a casa de dona Rozália abrigou a primeira escola da região da Costa de Dentro, no Pântano do Sul. A escola teria iniciado as atividades por volta da década de 1940.
“A comunidade foi crescendo e necessitava de uma escola. Como era uma região distante, a ideia foi fundar uma escola lá mesmo. A vó cedeu uma parte da casa para que pudesse funcionar a escola”, revela Valmir.
O deslocamento era difícil por conta da distância e da estrada de chão. Por isso, alguns professores chegavam a passar a semana na casa de dona Rozália. A neta Soeni, que estudou na escola quando criança, relembra que, inicialmente, não havia divisão por anos. Os alunos compunham uma única turma.
Cerca de 30 crianças frequentaram a escola na casa de dona Rozália, incluindo, seus filhos e netos.
A família conta que Rozália era responsável pela merenda dos alunos e, por vezes, fazia até o papel de diretora orientando os meninos “travessos” a descerem das árvores e voltarem para a sala de aula.
Anos mais tarde, a escola passou a funcionar em outro local, no número 2550 da rodovia que leva o nome de Rozália Paulina Ferreira. Atualmente, a instituição se chama Escola Desdobrada Municipal Costa de Dentro.
Amparo à educação
Alana Ferreira, de 39 anos, bisneta de Rozália Paulina Ferreira, diz que o nome da bisavó costuma aparecer em festas de família. As conversas sobre ela são repletas de boas risadas e admiração.
A filha de Alana, Sophia, de 15 anos, também cresceu ouvindo histórias sobre a tataravó. Rozália morreu quando Alana tinha apenas três anos.
Sophia e a mãe, Alana Ferreira. Tataraneta e bisneta de Rozália Paulina Ferreira, respectivamente – Foto: Bruna Stroisch/NDDe acordo com Alana, o que mais chama a sua atenção é o interesse e a preocupação da bisavó com a educação.
“Ela não ficava esperando o município ou o Estado fazer as coisas. Ela ia lá e colocava a ‘mão na massa’. Fazia as coisas por conta própria, como é o caso da escola. Ela fazia o que achava certo e tentava ajudar a comunidade usando os meios que tinha que, no caso, era a casa, ou seja, a estrutura para abrigar a escola. Acho a criação da escola muito interessante e uma verdadeira inspiração”, considera Alana, que é empreendedora no ramo da educação.
A partida e a casa
Rozália Paulina Ferreira morreu de infarto no dia 30 de março de 1986, aos 80 anos. O sepultamento foi realizado no Cemitério do Itacorubi, em Florianópolis. Os imóveis da família na Costa de Dentro foram divididos entre os herdeiros.
A casa onde Rozália viveu foi deixada para um dos filhos, que chegou a morar no local com a família por alguns anos. O imóvel já deteriorado pelo tempo acabou sendo vendido.
A casa, que serviu de hospital durante a gripe espanhola e abrigou a primeira escola da região, foi então demolida. O filho caçula de dona Rozália, Orival Joaquim Ferreira, vive atualmente no bairro Saco dos Limões, em Florianópolis.
Casa de Rozália Paulina Ferreira em imagem de julho de 2011 – Foto: Google Street View/Reprodução/NDApesar da morte de dona Rozália e da demolição da casa, as lembranças de uma época de convívio continuam vivas na memória dos familiares. E as histórias da vida dessa mulher, que teve um papel tão relevante para a comunidade em que viveu, a ponto de se tornar nome de rua, atravessam gerações.
“A vó faz muita falta. Não era só uma avó, era uma verdadeira mãe. Acolhedora. Se a gente chegasse com amigos ou até mesmo pessoas que ela não conhecia, ela não fazia cara feia. Agradava como se fosse da família”, conta Soeni, que mora em frente ao terreno que era da avó.
“Ela era muito divertida. Fazia amizade fácil e não tinha maldade. Ajudava as pessoas da forma que podia. Todos da região gostavam muito dela”, relembra Valmir, que hoje mora na Armação.