Foi no casarão de nº 50 da rua Henrique Veras do Nascimento, na Lagoa da Conceição, que a história da comunicação no interior da Ilha de Santa Catarina começou a ser construída. Isso porque o prédio abrigou a primeira estação radiotelegráfica da região.
Casarão que abriga o Centro Cultural Bento Silvério passa por restauração – Foto: Anderson Coelho/NDAnexo ao edifício principal, há outro, um pouco menor, que sediou a Casa de Máquinas, onde ficava instalado o maquinário da estação.
Situados no centro de um dos bairros mais turísticos da Capital catarinense, o conjunto de casarões foi inaugurado em 1912, mas a antiga estação funcionou só até 1914.
SeguirAtualmente o casarão abriga o Centro Cultural Bento Silvério. No início de outubro deste ano, tiveram início as obras de restauração do edifício principal.
Segundo a Secretaria de Infraestrutura de Florianópolis, a expectativa é de que os trabalhos fiquem prontos em seis meses. A obra é orçada em R$ 1 milhão.
Uma das mais modernas do mundo
De acordo com o historiador Rodrigo Rosa, a instalação do serviço telegráfico em Florianópolis – na época, Desterro – ocorreu após a passagem do cabo submarino em 1871. A construção da primeira estação no interior da Ilha acompanhou o processo de expansão da rede radiotelegráfica brasileira.
O livro Política Cultural de Florianópolis, realizado pelo Conselho Municipal de Política Cultural, descreve que, na época da inauguração, a estação radiotelegráfica da Lagoa da Conceição foi considerada uma das mais modernas do mundo.
A principal função era apoiar a navegação, tanto costeira, quanto transatlântica, nacional e internacional.
Para o historiador, tamanha potência e modernidade acabaram sendo pontos negativos para a estação quando ocorre o início da Primeira Guerra Mundial, em julho de 1914.
Com a vinda de imigrantes europeus para Santa Catarina, no final do século 19 e início do século 20, incluindo alemães, o governo federal temia que uma estação tão moderna caísse nas mãos de estrangeiros. Por esse motivo, foi dada a ordem para desativá-la.
Três anos depois, em 1917, as máquinas foram desmontadas e levadas para o Rio de Janeiro, sede do governo federal na época. Com o fechamento da estação, a edificação funcionou como residência para os funcionários dos Correios e Telégrafos.
Estilo arquitetônico único na Ilha
A Capital de Santa Catarina atravessa um período de modernização durante o início do século 20, inspirado, principalmente, pelo discurso higienista da então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro.
É neste contexto que ocorre uma série de desapropriações para a construção de edifícios mais modernos e o alargamento de avenidas como a do Saneamento, atual avenida Hercílio Luz, no Centro.
O padrão estético português das construções cai em desuso e as antigas casas e cortiços acabam demolidos dando lugar a outros estilos arquitetônicos.
Neste sentido, o casarão onde funciona a estação radiotelegráfica apresenta uma arquitetura típica do período pós-revolução industrial, o qual caracteriza as edificações de acordo com a sua utilização. O edifício é o único exemplar deste tipo de arquitetura em Florianópolis.
Casarão é o único da Ilha com arquitetura típica do período pós-revolução industrial – Foto: Anderson Coelho/NDPatrimônio arquitetônico
O conjunto de casarões foi tombado como patrimônio arquitetônico de Florianópolis em 1985, pela sua expressividade e relevância histórica.
Neste mesmo período, o imóvel, que era propriedade do governo federal, foi transferido para a prefeitura. Desde então, está sob administração da Fundação Cultural Franklin Cascaes.
Em 1985, o imóvel foi restaurado para sediar o Centro Cultural Bento Silvério, com o objetivo de oferecer cursos e oficinas, além de propiciar a apresentação de manifestações artísticas e culturais de vários gêneros. O local abriga também um teatro, uma biblioteca e um espaço para exposições de arte.
Antes de ser repassado para a prefeitura, o imóvel teria passado por diversos usos e permanecido fechado por cerca de 20 anos.
Volta das atividades culturais
Após o processo de restauração total, a ideia é que o Centro Cultural Bento Silvério volte a ser o principal ponto de resguardo da cultura açoriana na Lagoa da Conceição. Durante o período em que estiver em obras, somente atividades administrativas funcionarão no local.
Renda de bilro – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDSegundo Anderson Carlos Santos de Abreu, coordenador do Centro de Documentação e Pesquisa, da Casa da Memória, até o início das obras, o casarão abrigava alguns grupos de cultura popular como as rendeiras da região Leste da Ilha e outros tipos de artesanato típico.
Por conta da degradação do edifício, as exposições artísticas, apresentações teatrais e oficinas não são realizadas há cerca de dois anos. Após a restauração, o plano é que sejam retomadas as atividades do Centro Cultural.
“Queremos voltar com as apresentações no teatro da Casa das Máquinas. Espaço para ensaios dos grupos de teatro e grupos musicais da cidade. Retomar a galeria de arte, não só popular, mas de arte contemporânea e as oficinas. A ideia é também ampliar a biblioteca com o acervo voltado para livros de arte e história da arte”, disse o coordenador.
Preservar a originalidade do casarão
A obra de reparo no casarão histórico quer preservar a originalidade do imóvel. Fábio Elias Araújo, proprietário da empresa Planalto Engenharia, responsável pela obra, diz que o trabalho é complexo e requer cuidado.
“Tem que entender os materiais que são precisos e a estrutura atual da construção, que está com nível alto de degradação. O telhado já foi reformado e há dois tipos de telha diferentes. A restauração tenta preservar ao máximo a obra original e respeitar o que consta no projeto da prefeitura.”, informou Araújo.
Segundo ele, será feita uma restauração geral da edificação, com a troca do telhado, das partes de alvenaria e das esquadrias.
Ponto de referência para a comunidade
Nativo e morador da Lagoa da Conceição, Alesio dos Passos Santos, de 70 anos, conta com orgulho que o avô ajudou a construir a primeira estação radiotelegráfica da região.
Alecio dos Passos Santos – Foto: Reprodução/Facebook/NDPara o aposentado, o casarão histórico é um ponto de referência para a comunidade e um marco na história da região.
“O Centro Cultural deve valorizar as manifestações culturais da região. O bairro não pode só atrair o turista por causa da beleza natural. Tem que atrair por causa da cultura também, que é diversa. Há uma carência cultural na comunidade”, defende Alesio.
Mas quem foi Bento Silvério?
Quem dá nome ao Centro Cultural é o jornalista Bento Silvério, nascido no dia 5 de março de 1951, no Distrito da Lagoa da Conceição.
Silvério se destacou como literário em concursos de contos na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Uma de suas obras é “Entropia e Evasão: Contos”, livro publicado pela UFSC, em 1980. O Centro Cultural foi batizado de Bento Silvério como uma homenagem ao jornalista após sua morte em 1987.
Da esquerda para a direita, o cineasta Armando Carreirão e os jornalistas e escritores Bento Silvério, Salim Miguel e Carlos Damião. Foto de 5 de maio de 1980, na Capital – Foto: Acervo/Carlos Damião/Divulgação/ND