Catarinense e ‘filha de Papai Noel’ escreve livro inspirado na vida do pai

Tatiana Lazzarotto é natural de São Lourenço do Oeste e atualmente mora em São Paulo

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Redação ND Chapecó

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Barba e cabelos branquinhos, roupa e gorro vermelho e o famoso “ho-ho-ho”. Essas são características de uma das figuras mais aguardadas pelas crianças no Natal: o bom velhinho, Papai Noel. Mas e quando o Papai Noel vive na mesma casa que você o ano todo? Assim foi com a escritora catarinense, natural de São Lourenço do Oeste, no Oeste do Estado, Tatiana Lazzarotto, que por anos conviveu com um Papai Noel profissional.

filha do papai noel Tatiana é filha do Papai Noel do Brasil e escreveu livro inspirado – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Por trás da roupa vermelha e da barba branca estava Elio Lazzarotto, o famoso “Papai Noel do Brasil”, mas para Tatiana era muito além do bom velhinho, mas sim, o seu pai, com quem aprendeu tudo sobre a vida. Durante sua trajetória de 36 anos como Papai Noel, Lazzarotto recebeu mais de 1,5 milhão de correspondências e participou de eventos em que fez o Natal de centenas de crianças mais feliz.

Após anos vivendo o personagem mais querido do Natal, Elio morreu em 2018, aos 64 anos, vítima de um infarto. Apesar da partida, o pai da Tatiana, e Papai Noel de milhares de crianças, teve a memória eternizada ao servir de inspiração para o primeiro livro da filha.

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Um pai peculiar

O romance “Quando as árvores morrem”  conta a história de um pai peculiar e pouco visto na literatura: um Papai Noel profissional. A história, contada em prosa poética, acompanha o luto da personagem principal e as memórias que atravessam o corpo de quem fica.

A narrativa se passa em dezembro, dias antes do Natal, quando o Papai Noel (pai da protagonista) morre repentinamente. A partir daí, ela passa a renunciar à morte, recuperando as memórias de uma família que se sustentou por meio da imaginação.

O livro foi um dos vencedores do edital ProAC de obras de ficção, promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. Na história, após perder o pai de forma repentina, a personagem principal retorna a Província – cidade fictícia inspirada em um vilarejo de fronteira no Sul do Brasil –, para atender aos desejos deixados por ele: recuperar a casa da família e garantir que a velha árvore do quintal, já condenada, não seja derrubada.

Tatiana com o Papai Noel e seu pai, Elio Lazzarotto. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDTatiana com o Papai Noel e seu pai, Elio Lazzarotto. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Ao mesclar a experiência do luto com as memórias de infância, a narradora relembra a trajetória do pai, que deixou a profissão de comerciante quando ela e os irmãos eram crianças, para se transformar em Papai Noel profissional.

O romance busca esmiuçar um personagem pouco visível na literatura, além de lançar um olhar sobre os milhares de homens que encarnam o personagem mítico no final do ano: de que maneira esses profissionais se relacionam na intimidade, com suas famílias?

“Minha intenção foi contar essa história ‘da porta para dentro’. Quem são esses homens que se dedicam a ouvir sonhos de desconhecidos e encarnar um mito na época de Natal?”, conta a autora.

Memórias

É a partir das memórias, suscitadas pela casa vazia e pelo próprio estar de abandono, que a narradora, já adulta, desconstrói o pai morto. “A autora nos prende nessa jornada em busca da permanência. ‘Quando as árvores morrem’ não é apenas um livro sobre luto, mas um desejo de memória potente”, afirma a poeta e doutoranda em Teoria Literária pela Unicamp, Pilar Bu. A cidade e a casa da família tornam-se personagens da trama, assim como a árvore condenada.

Para produzir o romance, a autora dedicou-se à pesquisa sobre o desenvolvimento e a inteligência das árvores, a fim de entender a dinâmica das florestas e como isso se mescla com o cotidiano de uma família. O livro também é uma experiência ficcional a partir de uma vivência de luto da escritora.

Elio Lazzarotto, quebrou recordes nacionais como Papai Noel, durante sua trajetória. “Se a matéria da perda é dura, o livro nos faz entrar nesse clã de mulheres que perderam o pai, mas conservaram o afeto, pela partilha de uma linguagem sensível, poética, instigante”, conclui Pilar. Além de celebrar a memória do seu pai, grande incentivador da sua escrita, o livro tem como missão poder abraçar quem fica.

“Especialmente num luto coletivo como este que vivemos, acredito que este abraço, que eu busco com o livro, não se estende apenas aos que perderam alguém. Mas a todos nós”, aponta Tatiana. “Também é um livro sobre pessoas que não cabem, pessoas que transbordam. As duas experiências se confundem. Perder alguém também é não caber.” Ficcionalização da memória ou autoficção?

Tatiana lança seu primeiro livro. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDTatiana lança seu primeiro livro. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

O desejo de criar uma personagem inspirada em seu próprio pai existe desde antes de Tatiana perdê-lo. “Trata-se de uma obra de ficção, com muitas memórias: emprestadas, ressignificadas e, sobretudo, ficcionalizadas”, frisa a autora. “Não há nenhum compromisso de registro biográfico ou histórico.

O pai da história é um personagem ficcional – embora seja inspirado e criado à memória de meu próprio pai – por isso, é um homem com suas próprias nuances, memórias e escolhas.”

Insipirações

Para Tatiana, é preciso não somente ler mais mulheres, mas também aprender a ler mulheres, sem reduzi-las à autobiografia. “É preciso entender que as mulheres são capazes sim de criar personagens e enredos ficcionais, que não estamos falando sempre sobre nós mesmas. Essa licença poética, concedida de forma mais fluida e orgânica aos homens escritores, precisa fazer parte do repertório de leitores de mulheres”, crava.

Entre Elena Ferrante, Rosa Montero e Conceição Evaristo Gabriel García Márquez e seu realismo fantástico, escritoras contemporâneas como Conceição Evaristo, Rosa Montero e Elena Ferrante estão entre as principais influências literárias de Tatiana Lazzarotto, que é natural de São Lourenço do Oeste (SC) e radicada em São Paulo desde 2011.

Quando as árvores morrem bebeu de muitos outros nomes da literatura contemporânea, entre eles, Ana Martins Marques e José Luís Peixoto.

“A vontade de contar histórias veio da infância, dentro de casa: meu pai, que na época era viajante, e minha mãe, uma pernambucana radicada em Santa Catarina, me rechearam de causos, o que me deu consciência desde cedo de que havia outros mundos. Essas são minhas memórias mais antigas e ainda hoje elas atravessam qualquer coisa que eu escreva”, conta.

Formada em Jornalismo e em Letras-Português pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro-PR), Tatiana atualmente é mestranda em Estudos Culturais pela Universidade de São Paulo (USP), onde estuda coletivos de mulheres escritoras.

É uma das organizadoras do livro Cartas de uma pandemia: testemunhos de um ano de quarentena (Editora Claraboia, 2021) e integra o Clube da Escrita para Mulheres, fundado pela escritora, poeta e cordelista cearense Jarid Arraes. Publicou em revistas literárias como: gueto, cassandra, Ruído Manifesto e Desvario.