Cerco, tiroteio e sangue marcam história do Palácio Cruz e Sousa em Florianópolis

Desde a construção na década de 1740, um dos mais belos edifícios do Centro de Capital, coleciona histórias

Bruna Stroisch Florianópolis

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Desde a construção na década de 1740, um dos mais belos edifícios do Centro de Florianópolis, o Palácio Cruz e Sousa, coleciona histórias. A edificação foi projetada em estilo luso-brasileiro pelo brigadeiro José da Silva Paes.

Cerco, tiroteio e sangue marcam história do Palácio Cruz e Sousa em Florianópolis- Foto: Leo Munhoz/NDCerco, tiroteio e sangue marcam história do Palácio Cruz e Sousa em Florianópolis- Foto: Leo Munhoz/ND

O prédio já abrigou dezenas de presidentes da então província de Santa Catarina, além de governadores, viajantes internacionais e até mesmo o imperador Dom Pedro II.

Um dos casos ocorridos no Palácio remete ao ano de 1893, quando foi alvo de um cerco e tomado de assalto por revoltosos comandados por Hercílio Pedro da Luz (1860-1924).

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A narrativa sangrenta foi contada pelo projeto “Histórias do Patrimônio” produzido pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura). A iniciativa traz histórias e curiosidades sobre os patrimônios que abrigam os espaços culturais administrados pela fundação.

Tiroteio na madrugada

O final do século 19 era um momento de ebulição em todo o Brasil, com a eclosão de diversas revoltas que tinham como objetivo descentralizar o poder da região Sudeste e tirá-lo das mãos do Exército.

Durante toda a noite do dia 30 de julho, os revoltosos já estavam à espreita. Por volta das 2h do dia seguinte, o centro da cidade foi palco de um grande tiroteio envolvendo centenas de homens e causando a morte de várias pessoas. O Palácio foi o epicentro desse violento combate.

O governador em exercício naquele dia era Eliseu Guilherme (1843-1928), que foi surpreendido por uma tropa que chegara à Ilha de Santa Catarina liderada por Hercílio Luz.

Prédio do Palácio do governo em 1892 – Foto: Acervo Casa da Memória de FlorianópolisPrédio do Palácio do governo em 1892 – Foto: Acervo Casa da Memória de Florianópolis

Cerca de 130 homens a cavalo e armados com espingardas e pistolas atacaram a guarda do Palácio, enfrentando a resistência de poucos dispostos a barrar os revoltosos.

Na Praça 15 de Novembro, em frente ao prédio, dois canhões trazidos da Fortaleza de Santana, no Estreito, foram usados para tentar amedrontar os invasores – em vão.

“Fogo por todos os lados”

Dezenas de tiros de carabina romperam as vidraças e deixaram marcas nas paredes do Palácio. No mesmo dia, Hercílio Luz fez sua entrada triunfal na sede do governo.

Pessoas que estavam dentro do prédio, nas ruas do entorno e na Praça 15 foram atingidas e morreram. Entre elas estão militares, civis e médicos.

Na manhã seguinte ao embate, Eliseu Guilherme desocupou o prédio e foi se abrigar no Forte de Santa Bárbara, no Centro, que na época era banhado pelo mar.

Jornal Cidade do Rio do dia 1º de agosto de 1893 – Foto: Hemeroteca Digital Brasileira/NDJornal Cidade do Rio do dia 1º de agosto de 1893 – Foto: Hemeroteca Digital Brasileira/ND

A edição nº 207 do jornal Cidade do Rio, publicada no dia 1º de agosto de 1893, traz telegramas vindos de Desterro, como era chamada Florianópolis naquela época. Os documentos descrevem o acontecimento na Capital catarinense.

“Ontem às 2h da madrugada os cívicos de Blumenau saindo do quartel do 25º batalhão, onde se achavam aquartelados, atacaram de emboscada o palácio da presidência fazendo fogo por todos os lados com as armas Comblain do 25º. Foram vigorosamente repelidos”, diz um trecho.

O texto acrescenta que “morreram em palácio, Berlinck e João Póvoas, na rua o doutor Cordeiro, um guarda policial e feridos diversos.” Outro trecho fala que o palácio “está crivado de balas por todos os lados”.

A sensação de vitória de Hercílio Luz não durou muito. Logo, ele foi convencido a devolver o poder a quem era de direito. No ano seguinte, em setembro de 1894, o próprio Hercílio Luz voltou ao poder. Desta vez, assumindo legitimamente o governo do Estado.

Entre suas primeiras ações, esteve a reforma do Palácio, que passou a ter a suntuosa aparência que tem nos dias atuais.

Revista O Malho de 3 de janeiro de 1920 traz imagem de Hercílio Luz e do Palácio Cruz e Sousa – Foto: Hemeroteca Digital Brasileira/NDRevista O Malho de 3 de janeiro de 1920 traz imagem de Hercílio Luz e do Palácio Cruz e Sousa – Foto: Hemeroteca Digital Brasileira/ND

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