É tradição dos itajaienses aguardarem, ansiosos, pelo mês de outubro. Além das festas regionais, como a Oktoberfest, em Blumenau, e a Fenarreco, em Brusque, Itajaí vira palco do resgate da cultura portuguesa. O som da música, o cheiro das comidas – em especial do peixe – e a cerveja embalam a Marejada, tradicional festa de tradição portuguesa e do pescado, que, este ano, será retomada após dois anos suspensa em função da pandemia de Covid-19.
Maior festa do pescado do Brasil, última edição da Marejada foi em 2019 – Foto: Prefeitura de Itajaí/DivulgaçãoPara Beto Cadore, é mais que uma simples festa: é reunião de amigos, é ganha-pão e muita história. Ele participa da festa em todas as edições, desde 1988. Começou em uma barraquinha, quando elas ainda eram dentro de barquinhos, feitos com madeira nos pontos de ônibus do antigo terminal rodoviário, onde hoje fica o Centreventos e que ainda recebe a Marejada.
“Em 1988 nos chamaram para trabalhar na festa, éramos o único restaurante da Marejada. Tínhamos buffet e no primeiro ano não tinha ainda a sardinha na brasa”, relembra Beto. Era tudo no improviso: desde a lona de circo que cobra o espaço da festa, até o restaurante. “A estrutura inicialmente eram os barquinhos que tinham nos pontos de ônibus da Coletivo. O local era cercado também com madeirite, era tudo bem rústico”, conta Beto.
SeguirNa segunda edição, de 1989, Beto e os parceiros de restaurante decidiram montar, com “sete, oito tijolos”, no chão de lajotas da festa, uma churrasqueira improvisada para assar sardinhas, prato comum em Portugal.
Beto Cadore trabalha com sardinha na brasa desde a primeira edição da Marejada – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND“A gente assava ali e levávamos para dentro do restaurante, naquela lona de circo que tinha. E a coisa colou, o pessoal gostou”, conta. Foi nesse leva e trás de peixe assado que a sardinha na brasa se popularizou como um dos pratos principais da festa. “No ano seguinte aumentamos a estrutura, e a sardinha na brasa virou a “vedete” (atriz principal) da Marejada”.
Os anos passaram, a festa cresceu e tomou proporções gigantescas. A estrutura para quem dedicava os dias à festa também melhorou. De sete ou oito tijolos e uma grelha improvisada, a festa passou a ter uma churrasqueira maior, construída em um galpão ao lado de antigo restaurante na Beira Rio. Ali, quem passava pela Marejada podia ver Beto e outros vendedores assando a sardinha. “Era bem interessante, o pessoal gostava muito de ver isso”.
Cresceu tanto que, nas últimas edições, Beto estima ter vendido mais de duas toneladas de sardinha durante a festa. Ele também reforça que a sardinha da Marejada não é igual ao prato tradicional português. “Lá ela é inteira, com vísceras e cabeça, e o nosso pessoal não está acostumado com isso; aqui fazemos limpa, sem vísceras e sem cabeça”, garante.
A sardinha sai do freezer congelada, ali na festa mesmo, e vai para uma caixa de tempero, onde é temperada com sal grosso, óleo e pimenta. Ainda congelada, vai para a grelha, onde vai assando e descongelando; é isso que faz o pescado soltar todos os aromas que já são tão tradicionais da festa e de Itajaí. O cheiro do peixe, o converseiro dos amigos, o sotaque peixeiro que ecoa pelas ruas.
Os amigos que nem precisam ser amizades de longa data. Na Marejada, amigos se conhecem, brincam, cantam e dançam; e só vão se reencontrar no próximo outubro, na próxima festa. “A gente fez muitos amigos em todos esses anos, mas a gente só os via uma vez por ano, somente durante a Marejada”, conta Beto. “Muitas pessoas de várias cidades, Estados, vêm para a festa. Gente do Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná, que vinham somente pra comer a sardinha na brasa”.
Não é só para Beto que a festa significa tanto. Ela faz parte do calendário dos itajaienses, que esperam ansiosamente pelo evento. “A Marejada tem uma ligação importante com a população de Itajaí, ela é uma festa popular, que celebra nosso rio, o mar, o pescado”, conta o secretário de Turismo e Eventos de Itajaí, Evandro Neiva. “A Marejada, sem dúvida nenhuma, é a festa mais tradicional de Itajaí”.
Sardinha na brasa é tradição na Marejada – Foto: 48927014712_8f641f43f7_oRetorno tão esperado
A edição de 2022, marcada para acontecer do dia 6 a 23 de outubro, está confirmada. São 18 dias de evento com muita música, gastronomia típica e diversão. “Eu sempre falo que a gente espera ansiosamente e que é um prazer muito grande pra gente trabalhar na Marejada”, comenta Beto. “Eu sempre gostei muito disso; é cansativo, trabalhoso, mas realmente é gratificante”.
Estes dois anos sem festa foram, para Beto e para quem conta com a Marejada para ganhar o pão de cada dia, difíceis e tristes. Mas, passado o sufoco e com a esperança do retorno no horizonte, as expectativas são altas para a próxima edição.
“A gente espera com muita ansiedade por essa festa e me sinto muito honrado de participar, é uma felicidade muito grande. A gente trabalha com um produto que é o carro chefe da Marejada, apesar da gastronomia diversificada, a sardinha é a estrela da festa”.
Para o secretário municipal de Turismo e Eventos, a expectativa para o retorno da festa “não poderia ser melhor”. “Estamos fazendo tudo com muito carinho”, afirma Neiva.
Esta edição da festa deve acontecer com todo o carinho e resgate da história que já é tradição da Marejada, além do anseio pela retomada dos grandes eventos presenciais.