Clube do Livro: leitura se fortalece e cria comunidades em Santa Catarina

Ponto de encontro dos amantes da literatura, clubes de leitura proporcionam conexões humanas e fortalecem o tecido cultural de Florianópolis

Paulo Clóvis Schmitz, Especial para o ND Florianópolis

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O advogado Cesar Marin Vargas, 45 anos, se mudou de Porto Alegre para Florianópolis um pouco antes da pandemia de Covid-19 e ficou em isolamento até surgirem as primeiras vacinas. Ainda sem amigos na cidade, em séria reclusão por decisão própria e da família, descobriu o Nosso Clube do Livro e se chegou, juntando a vontade de estabelecer relações que ainda não tinha com a oportunidade de conversar com outras pessoas sobre as obras que lera ou estava lendo, algo que sempre fora difícil fazer na capital gaúcha.

No clube, Cesar Vargas fala sobre literatura e encontrou amigos – Foto: Germano Rorato/NDNo clube, Cesar Vargas fala sobre literatura e encontrou amigos – Foto: Germano Rorato/ND

Clubes do Livro

Amante dos clássicos, que abandonava quando o livro não lhe satisfazia, viu no novo grupo a oportunidade de levar as leituras até o fim e conhecer autores jovens ou em fase de consolidação da carreira literária.

O caso dele é mais um que ilustra a relevância dos clubes de leitura, que vêm se multiplicando em todo o país e abalam a convicção de que os livros estão em baixa, reprimidos pela avalanche da internet e pelo empobrecimento da cultura da população. O Nosso Clube do Livro fez dez anos em maio e tem fila de espera de interessados para entrar.

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Em média, 70 pessoas participam dos encontros, realizados a cada 30 ou 40 dias, e encontram ali a possibilidade de trocar impressões sobre obras de diferentes autores, aprender, compartilhar emoções e ideias e, em alguns casos, espantar as ameaças de depressão quando chega a idade e o trabalho regular deixa de ser uma obrigação.

De Sartre a Erico Verissimo e Yuval Harari

Amanda Lima sempre foi uma leitora voraz, mas tinha dificuldades para encontrar com quem trocar ideias sobre livros e autores de sua predileção. Por sugestão de sua mãe, passou a juntar pessoas que tinham o mesmo anseio – e deu certo!

Amanda foi pioneira ao criar o Nosso Clube do Livro, em 2014 – Foto: Divulgação/NDAmanda foi pioneira ao criar o Nosso Clube do Livro, em 2014 – Foto: Divulgação/ND

No Nosso Clube do Livro, por onde já passaram mais de cem pessoas, uma obra é eleita como tema para a reunião seguinte. Os participantes leem o livro e aparecem no dia marcado, onde sempre há música e algo para comer e beber, criando um ambiente propício para o debate e o compartilhamento.

Obras de autores tão díspares como Jean Paul Sartre e Yuval Harari, Erico Verissimo e Erasmo de Roterdã, Isabel Allende e a jovem escritora brasileira Carla Madeira já entraram na lista dos livros. No encontro do dia 8 de maio, na casa de Amanda, no Campeche, as conversas giraram em torno de “A Insustentável Leveza do Ser”, livro do tcheco Milan Kundera (1929-2023) que fez muito sucesso quando foi lançado, em 1994, falando de destino, amor e liberdade. O evento marcou o 10º aniversário do Nosso Clube do Livro.

Caminho sem volta

Interessante é que dessas sessões costumam surgir subgrupos de pessoas com afinidades e gostos comuns que passam a ir juntas ao cinema ou formam pequenas confrarias para almoçar ou jogar baralho. A maioria entra porque gosta de ler e quer compartilhar as impressões. “Tudo é muito informal e há respeito pelas opiniões alheias”, diz Amanda. Os membros do grupo têm idades de cerca de 20 a mais de 70 anos e distintas origens, ou seja, podem ter vindo de outras cidades e Estados. Alguns frequentadores, mais tímidos, apenas escutam, mas a troca é sempre proveitosa. “Quem se envolve com os livros entra num caminho sem volta”, garante a fundadora.

O primeiro clube do livro da Capital

Há outros clubes de leitura na cidade, mas o pioneirismo de Amanda Lima, dentista que criou o Nosso Clube em 2014, merece ser destacado. Ela festeja proezas como afastar pessoas da solidão, estimular novas amizades e promover debates que jamais iriam além da intenção sem um grupo que provocasse o intercâmbio de opiniões entre indivíduos de diferentes profissões, faixas etárias e níveis de instrução.

“Resolvi retomar a leitura com mais afinco para ter um envelhecimento cheio de novos aprendizados, melhorar o vocabulário e abrir a mente, aceitando melhor as opiniões alheias”, diz Miriam Dalcanale, 57 anos, integrante do grupo.

Ela admite que sempre foi controladora e extremamente crítica em relação às ideias dos outros, e dentro do clube, com os debates que se sucedem, tornou-se mais maleável.“Aprendo muito em cada encontro, posso ser eu mesma, sem medo de expor minhas opiniões”, afirma Miriam.

Assim, ouvindo relatos pessoais intercalados com a análise de uma ou outra obra, se identificou com alguns membros da confraria. E mais: passou a não descartar nenhum livro ou autor e até flerta com obras para adolescentes e jovens, coisa que nunca havia passado pela sua cabeça.

Novos olhares sobre obras, autores e a escrita de cada época

Sem as curiosidades e os desafios criados pelo grupo, a empresária Hellen Macarini, 52 anos, não teria descoberto obras e autores que hoje fazem parte de suas leituras. Há seis anos no Nosso Clube do Livro, ela já mudou de opinião acerca de determinados livros após participar das discussões – a percepção alheia mostrou aspectos que Hellen não havia considerado importantes.

Percepções de outros membros do grupo permitiram Hellen Macarini mudar de opinião sobre obras – Foto: Germano Rorato/NDPercepções de outros membros do grupo permitiram Hellen Macarini mudar de opinião sobre obras – Foto: Germano Rorato/ND

Como há uma mescla de clássicos com a literatura contemporânea, ela percebeu nuances que caracterizam a escrita de cada época, permitindo, por exemplo, entender o tempo presente a partir do olhar de um autor da nova geração. Um subgrupo do qual faz parte estuda a obra de Marcel Proust e outro discute séries e filmes.

Baiano que mora há seis anos na Capital, o estudante de História André Silva, 25 anos, é o mais novo integrante do Nosso Clube do Livro. Com dificuldades para fazer amizades na cidade, viu nos encontros uma maneira de trocar impressões sobre literatura e cinema e vê na “obrigação” de ler a obra escolhida para a reunião seguinte um pretexto para driblar a falta de tempo (ele também faz estágio quando não está em sala de aula) e ler pelo menos um livro por mês.

Terapia Coletiva

Líder do grupo, Amanda Lima diz que há encontros temáticos, como o que falou de Dostoiévski, abrilhantado por uma “noite russa”. Se a pandemia forçou encontros online, também estimulou a procura por livros, por causa do isolamento. “As reuniões são uma terapia coletiva e revelam novos títulos e autores”, ressalta.

As obras escolhidas são de literatura, história e biografias, e houve casos em que autores ou descendentes foram informados e deram retorno ao grupo. Foi o caso de Pedro Verissimo, neto de Erico Verissimo, que elogiou a iniciativa após a escolha do livro “Incidente em Antares”. Em um vídeo, ele mostrou o escritório com a poltrona onde o avô revisava os textos. Também a escritora chilena Isabel Allende enviou email ao grupo.

Escritora do Ribeirão criou projetos que difundem livros a todas as idades

A escritora Marina Hadlich, 38 anos, trocou a carreira jurídica pelo culto das palavras e pode ser vista dando palestras, participando de debates sobre literatura ou escrevendo nas calçadas da cidade. Ali, munida de uma máquina de escrever portátil, conversa e cria mensagens para as pessoas que passam e param, numa troca que vai multiplicando seus leitores e admiradores dos livros que já lançou.

Nas ruas, Marina conversa com quem passa, e cria mensagens em sua máquina de escrever portátil – Foto: Divulgação/NDNas ruas, Marina conversa com quem passa, e cria mensagens em sua máquina de escrever portátil – Foto: Divulgação/ND

Além disso, abre bibliotecas comunitárias, faz campanhas de arrecadação de livros, integra e media clubes de leitura e escrita. O Clube de Leitura Ribeirão, criado por ela, faz encontros periódicos e tem atraído pessoas de fora do bairro e até de outros municípios.

Nas reuniões, os debates giram em torno de autores catarinenses, prioritariamente, incluindo os da nova geração. O grupo é pequeno, reúne de dez a 12 pessoas, mas desde setembro de 2023 vem discutindo romances cujos títulos são escolhidos um mês antes de cada reunião.

Também ali não há limites de idade ou de nível de instrução dos participantes. Marina mantém ainda o projeto Casinha de Livros do Ribeirão e faz parte do clube Leia Mulheres Floripa, que integra um projeto nacional que incentiva a leitura de mulheres escritoras.

O último livro dela é “Mulheres Mofadas nas Entranhas e nas Memórias”, de 2023. Antes, ela havia lançado “100 mulheres”, “Até Essa Comédia se Tornar Romântica” e “O Menino que se Escondia”, além de ter participado de antologias e concursos literários. O próximo encontro do Clube de Leitura Ribeirão será neste sábado (15), às 10h, no Laboratório Cultural, situado à rodovia Beldicero Filomeno, 7.891, no Ribeirão da Ilha.

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