É com emoção que a pesquisadora e professora aposentada Lélia Pereira Nunes descreve uma experiência recente, o contato com a ilha do Corvo, nos Açores, que ainda não conhecia.
Com apenas 17 quilômetros quadrados e pouco mais de 400 habitantes, essa minúscula ilha de origem vulcânica é a menor das nove que compõem o arquipélago português, mas ali é possível encontrar, entre outras preciosidades, uma improvável “Casa do Tempo”, que se propõe a refletir sobre o passado, o presente e o futuro da comunidade e que tem tal conexão com o mundo via internet que faria inveja aos maiores centros urbanos brasileiros.
Nesse paraíso verde situado no meio do Atlântico – que, apesar de pequeno, é cosmopolita, porque tem entre seus moradores vários cidadãos vindos do continente europeu – Lélia lançou em setembro seu mais recente livro, “Pedra de toque”, com crônicas que falam de personagens, lugares e afetos relacionados aos Açores e ao litoral catarinense.
Capa do livro “Pedra de Toque” foi produzida pelo artista Rodrigo de Haro. – Foto: Divulgação/NDEla fez eventos semelhantes em outras ilhas e cidades do arquipélago, aprofundando os laços que vem urdindo desde a década de 1980. Hoje, ao lado de outros pesquisadores, ajuda a promover a aproximação entre as que se convencionou chamar de “dez ilhas” açorianas, incluindo aquela onde está situada Florianópolis.
A partir do dia 19 de setembro o lançamento deste livro, e também da reedição de “Caminhos do Divino – Um olhar sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Santa Catarina”, foi realizado na Vila das Lajes/Museu do Pico; na Igreja São Mateus, na freguesia do mesmo nome, em Madalena, também na ilha do Pico; na Biblioteca Pública e Arquivo Regional dos Açores, na ilha do Faial; no salão nobre da prefeitura da Vila do Corvo; em Lajes das Flores, na ilha das Flores; no Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira; e na Associação de Emigrantes dos Açores, em Ribeira Grande, ilha de São Miguel.
Lélia Pereira Nunes durante evento de lançamento da obra “Pedra de Toque”. – Foto: Divulgação/NDLélia também participou do júri internacional do Prêmio Natalia Correa de Poesia 2021, que contemplou Pedro Leite, poeta da cidade do Porto, no continente português.
Uma atividade em curso é a participação na comissão de honra da candidatura de Ponta Delgada a Capital Europeia da Cultura em 2027, em comemoração aos 600 anos de descobrimento dos Açores pelo navegador lusitano Diogo de Silves, em 1427.
Em 29 de setembro, a professora recebeu uma placa da Associação de Emigrantes Açorianos, na Ribeira Grande, pela contribuição na promoção da história e da cultura açoriana no Brasil.
E, na última quarta-feira (6), participou do projeto Arquipélago de Conversas, cujo tema foi “A saudade não é um mercado”, ao lado de outras personalidades que falam a língua portuguesa.
Um intercâmbio de bons frutos
Foi na década de 1980 que Lélia Pereira Nunes, então professora do curso de Ciências Sociais da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), voltou seu foco para o estudo do legado dos imigrantes açorianos no litoral catarinense.
Até então, havia publicado dois livros sobre o pintor tubaronense Willy Zumblick e estudado outros grupos étnicos que fazem parte do mosaico cultural do Estado. “Sempre gostei de estudar a epopeia dos imigrantes e as imigrações”, afirma.
Bebeu na fonte de historiadores como Walter Piazza e Oswaldo Rodrigues Cabral, e faz questão de citar o ex-reitor Ernani Bayer e o pró-reitor Hamilton Savi como os que abriram as portas, há quase 40 anos, para um intercâmbio que deu muitos frutos para açorianos do arquipélago e para os descendentes das famílias que aqui chegaram a partir de 1748.
Lélia Nunes presidiu a FCC (Fundação Franklin Cascaes), braço cultural da prefeitura de Florianópolis, entre 1997 e 2004. Nesse período, diz ela, “houve muito apoio à cultura de nossa gente”.
A FFC realizada eventos importantes, como o Festival Isnard Azevedo de teatro e o Encontro das Nações, apoiava as bandas e oferecia cursos e oficinas em quase todos os bairros e balneários da cidade.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e da Academia Catarinense de Letras, Lélia publicou, entre outros, os livros “Zumblick, uma história de vida e de arte” (primeira edição em 1993), “Entre penas e pincéis” (org., 1998), “Os caminhos do Divino – Um olhar sobre a Festa do Espírito Santo em Santa Catarina” (primeira edição em 2007), “Na esquina das ilhas” (2011, com reedição em 2020), “Corpo de ilhas” (2018) e “Pedra de toque” (2019/2020), este em coedição da Dois Por Quatro (Florianópolis) e Letras Lavadas (Ponta Delgada, Açores, Portugal).