Como se divertir sem internet

O que fazia o ilhéu para “não pentear macacos” na época dita “bela”, segunda metade do século 19? Bizarrices é que não faltavam

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É preciso virar o disco, mudar de assunto. Ninguém aguenta mais ouvir falar de tanta roubalheira. Ou são os “malfeitos”, ou as doenças. Mas para mudar de assunto talvez seja necessário mudar de século. E para trás.

Teletrabalho, home office ou trabalho remoto. – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/NDTeletrabalho, home office ou trabalho remoto. – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/ND

Que tal ficar sabendo como se divertiam os ilhéus antes da tevê, do Facebook, do Twitter e da internet, mágicas modernas que mudaram o mundo? O que fazia o ilhéu para “não pentear macacos” na época dita “bela”, segunda metade do século 19? Bizarrices é que não faltavam.

Circos de pulgas amestradas, por exemplo, eram programas de grande apelo popular, instalados na varanda de alguma casa da rua “do Senado”, ou “Moinhos de Vento”, hoje Felipe Schmidt.

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Outras atrações, sempre variadas: prestidigitadores, encantadores de lesmas, um “árabe-serpente”, várias “mulheres-aranha”, um “homem de borracha”, de nome Azif Cherife – e até uma grande estrela, o mágico Hermann, que se anunciava como “magnetizador e prestidigitador”, coadjuvado pela “mulher-sonâmbula Lucrécia”…Um século depois, anos 1950, outro mágico, Karmaya, haveria de hipnotizar toda a plateia do Teatro Álvaro de Carvalho.

Todos tocando um imaginário piano, inclusive o cronista que batuca estas hesitantes teclas…Em “O Povo se distrai, mas nem sempre se diverte”, capítulo de suas magníficas “Memórias do Desterro”, Oswaldo Cabral sobrevoa com graça e bom humor a sortida ribalta ilhoa, que se esforçava para divertir o povo – numa época em que, no verão, sequer havia o hábito da praia para o refrigério dos viventes.

Não faltavam os variados espetáculos, “a preços vis para a arraia miúda”, como o apresentado em 1862 pelo italiano Pacozzi Stephano no seu “Salão Paradiso” – “O Mágico e seus Ratos Amestrados”. Duas sessões por dia, cada uma durando uma hora.

O amestrador comandava os seus “40 roedores inteligentes, de procedência indiana, japonesa, americana e brasileira, sucesso estrondoso em todas as capitais da Europa e do Brasil, tendo sido apreciados inclusive pelos reis Vitor Emanuelle, da Itália, e Sua Alteza o Imperador D. Pedro II”…

Todo mundo sabe que boa parte dos nossos atuais roedores inteligentes – aqueles de terno e gravata – já estão, neste momento, inteiramente dedicados a outras atividades “cívicas”, igualmente lúdicas e lucrativas.

Assaltar o Brasil tem sido o seu esporte predileto. Com o seguinte agravo: agora estão avançando até no dinheiro da saúde. Virou moda impune comprar respiradores, pagá-los antecipadamente e não recebê-los.É a nova modalidade de crime que, estranhamente, não figura no Código Penal.