Conheça detalhes da passagem da estrela Liza Minnelli na Ilha de SC

Em 1979, a atriz e cantora americana e o namorado milionário passaram uma semana em Florianópolis, sempre acompanhados de perto pelo seu afilhado artístico, o cantor manezinho Luiz Henrique Rosa

Paulo Clóvis Schmitz (Especial para o ND) Florianópolis

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Quem acompanhou a última cerimônia de entrega do Oscar, em 27 de março deste ano, deve ter se surpreendido com a cena da atriz e cantora Liza Minnelli numa cadeira de rodas, ao lado de Lady Gaga, anunciando o ganhador do prêmio de melhor filme.

A dona da voz que ajudou a imortalizar a canção “New York, New York” e que foi premiada com a estatueta de melhor atriz por “Cabaret”, de 1972, em nada lembrava aquele furacão dos palcos dos anos 1970 e 1980. Onde estava a show-woman, a estrela internacional, a filha prodígio do diretor Vincente Minnelli e da atriz Judy Garland?

Lady Gaga recebe Liza Minnelli na cadeira de rodas, em Hollywood, na cerimônia de entrega do Oscar 2022, no dia 27 de março deste ano. Foto: Getty Images/Reprodução/NDLady Gaga recebe Liza Minnelli na cadeira de rodas, em Hollywood, na cerimônia de entrega do Oscar 2022, no dia 27 de março deste ano. Foto: Getty Images/Reprodução/ND

A atriz, hoje com 76 anos, foi diagnosticada ainda no ano 2000 com encefalite, uma inflamação no cérebro, e também relata ter problemas de coluna e sofrido uma queda grave – condições que minaram sua mobilidade. Mas, para muitos brasileiros, a lembrança de Liza Minnelli tem relação com suas visitas ao país.

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E Florianópolis, que nunca havia recebido uma celebridade, foi contemplada com a sua presença no Carnaval de 1979. Até hoje há quem lembre do que ela fez nos seis dias em que permaneceu na Ilha, no semianonimato, a convite do cantor e compositor Luiz Henrique Rosa, seu amigo e, dizem, ex-namorado.

Liza, de maiô preto, e o namorado Mark Gero, flagrados em Cacupé, sempre sob a vigilância de Luiz Henrique Rosa (à dir.), com a irmã dele e duas pessoas não identificadas, na foto que estampou a capa de “O Estado” de 25 de fevereiro de 1979 – Foto: Sérgio Rosário/Reprodução/NDLiza, de maiô preto, e o namorado Mark Gero, flagrados em Cacupé, sempre sob a vigilância de Luiz Henrique Rosa (à dir.), com a irmã dele e duas pessoas não identificadas, na foto que estampou a capa de “O Estado” de 25 de fevereiro de 1979 – Foto: Sérgio Rosário/Reprodução/ND

Em Floripa, na flor de seus 33 anos, Liza foi hospedada na casa do empresário Armando Gonzaga, no Cacupé, tomou tímidos banhos de mar (aquela foi uma das semanas de Carnaval mais chuvosas da história da Capital), conheceu de barco algumas praias do Norte da Ilha, visitou a Lagoa da Conceição e a praia Mole, acompanhou os desfiles das escolas na passarela do samba e circulou por lugares como a Praça 15 de Novembro e o Mercado Público.

“Ela adorou a cidade”, recorda o jornalista Laudelino José Sardá, então editor-chefe do jornal “O Estado”, em cujo hall a atriz recebeu uma caixa com rendas da fábrica de bordados Hoepcke e deu uma entrevista coletiva no dia 28 de fevereiro, pouco antes de embarcar para o Rio de Janeiro. “Gostou tanto da Ilha que disse que moraria aqui, se pudesse”, completa Sardá, que a achou tímida e reservada na visita ao periódico, ao lado de Luiz Henrique Rosa e do namorado Mark Gero, milionário filho de um produtor de cinema de Hollywood.

Sem aparatos de segurança ou muito alarde, a estrela de 1,56 m chega à Capital na tarde chuvosa de 23 de fevereiro, vestindo jeans e uma camiseta com a estampa Rio de Janeiro – Brasil – Foto: Reprodução O Estado/NDSem aparatos de segurança ou muito alarde, a estrela de 1,56 m chega à Capital na tarde chuvosa de 23 de fevereiro, vestindo jeans e uma camiseta com a estampa Rio de Janeiro – Brasil – Foto: Reprodução O Estado/ND

Liza chegou no aeroporto Hercílio Luz num jatinho do empresário Realdo Guglielmi, na tarde de 23 de fevereiro, mostrou-se mal humorada com o tempo instável e não foi, a princípio, muito simpática com repórteres e jornalistas. O que Luiz Henrique planejou para ser um período de descanso e isolamento foi água abaixo porque o colunista Beto Stodieck noticiou, em “O Estado”, que a atriz viria para Florianópolis naqueles dias. “Ela vem descansar e apreciar as belezas da Ilha”, repetia o músico, também irritado com o assédio à estrela.

No Mercado Público, um papo inusitado em inglês 

Na edição do dia seguinte à chegada, “O Estado” deu fotos do desembarque no aeroporto, dividindo a capa com chamadas sobre as chuvas que desabrigavam famílias na cidade e os conflitos entre China e Vietnã, na Ásia. Liza Minnelli havia feito shows (“Liza in Concert”) em São Paulo e no Rio de Janeiro e chegou a ser criticada pelo colunista Zózimo Barroso do Amaral, do “Jornal do Brasil”, porque trocou a folia carioca pela “pasmaceira” de Florianópolis.

Liza visita a sede do jornal “O Estado”, onde conhece as dependências, dá entrevista coletiva e usa o boné do veículo  – Foto: Reprodução O Estado/NDLiza visita a sede do jornal “O Estado”, onde conhece as dependências, dá entrevista coletiva e usa o boné do veículo  – Foto: Reprodução O Estado/ND

Ela ficou incomodada com a cobrança e respondeu assim ao jornalista: “Eu conheço o belíssimo Carnaval do Rio e gosto tanto do Brasil que quero conhecer o Carnaval de uma cidade diferente a cada ano e aprender sobre esse maravilhoso país”. Explique-se: ela já estivera no Rio em 1974 e disse que depois de Florianópolis queria conferir o Carnaval de Salvador. Depois, a estrela de 1,56 m, um tanto insegura porque desconhecia a língua e os hábitos do Brasil, acabou distribuindo sorrisos por onde passava. Comeu arroz e feijão, camarão, farofa, pitanga, mamão e goiaba – fruta que definiu com uma palavra: “wonderful”.

No Mercado Público, Liza e Luiz Henrique toparam com o ex-funcionário da casa Athos Jacinto, que o jornalista Raul Caldas Fº definiu como “uma figura sensacional, professor, homem inteligentíssimo, mulato benquisto por todos, que falava muito bem o inglês”.

Quando o cantor o apresentou a Liza, ele beijou a mão da atriz e disse, com o sotaque sulista de New Orleans: “Madame, não vou lavar esta mão até o dia em que eu morrer!” Ela, incrédula, perguntou: “O que esse cara está fazendo aqui?”, acreditando que ele fosse um autêntico negro do Mississipi.

Em fotos divulgadas como exclusivas os fotógrafos Paulo Dutra e Sérgio Rosário registraram Liza namorando, assistindo ao Carnaval e dando entrevista – Fotos Sérgio Rosário e Paulo Dutra – Reprodução/NDEm fotos divulgadas como exclusivas os fotógrafos Paulo Dutra e Sérgio Rosário registraram Liza namorando, assistindo ao Carnaval e dando entrevista – Fotos Sérgio Rosário e Paulo Dutra – Reprodução/ND

“Não é bela, mas carismática”, registra jornal a respeito da estrela

Nos dias em que passou na Ilha, Liza Minnelli usou roupas simples, quase não se maquiou e nem tirou as havaianas dos pés. Como um repórter escreveu à época, seria tomada por uma turista comum, graças à pele branquíssima e uma aparência que em nada lembrava as divas da música e do cinema internacional. Tanto que poucos a aplaudiram quando o alto-falante da passarela, na avenida Paulo Fontes, anunciou sua presença. Ela não se incomodou e ensaiou uns passos de samba no ritmo da Embaixada Copa Lord – num ano em que a vitória nos desfiles coube à Protegidos da Princesa.

Na edição de 25 de fevereiro, “O Estado” abriu a capa com uma foto de Liza no chalé do Cacupé, numa cena descontraída em que também apareciam Mark Gero, Luiz Henrique, uma irmã do cantor e mais duas pessoas que o jornal não identificou. É que na véspera, o assédio dos fotógrafos já fustigava o grupo, a ponto de um deles, Sérgio Rosário (que também fazia fotos para o “Jornal da Semana”), ter alugado um barco de pesca para se aproximar a registrar o banho da atriz nas águas da baía Norte.

Passado o mal-estar do momento, no dia da entrevista coletiva Liza identificou o fotógrafo e disse, em inglês, como quem faz uma denúncia, que ele era o homem do bote que a flagrou na orla de Cacupé. Rosário explicou que estava apenas fazendo seu trabalho, e ela respondeu, concordando: “You’re right; everybody has a job”.

Na última noite na Ilha, a atriz participou de uma recepção na Lagoa da Conceição onde estavam nativos descolados que conheciam e admiravam seu trabalho, como Raul Caldas Fº, Armando Gonzaga, Túlio Carpes, Murilo Pirajá Martins, Fúlvio Vieira, Sandra Meyer e Dulce Buendgens.

Liza Minnelli dá entrevista ao colunista Beto Stodieck, para um programa jornalístico – Foto: Orestes Araújo – Reprodução/NDLiza Minnelli dá entrevista ao colunista Beto Stodieck, para um programa jornalístico – Foto: Orestes Araújo – Reprodução/ND

Ao ir embora, no dia 1º de março de 1979, Liza deixou a melhor das impressões e a certeza de que “não é bela, mas carismática”, como constou num texto de jornal não assinado, à época.

O colunista Beto Stodieck, que a entrevistou para um programa jornalístico da TV Globo, resumiu assim a visita: “Ganhamos nós que até então não tínhamos recebido a visita de uma estrela de tal porte mundial”.

Luiz Henrique Rosa, o amigo ilhéu da atriz, morreu em 1985, com menos de 47 anos, num acidente de carro em Florianópolis. Ele morou no Rio de Janeiro, onde fez amizade com os principais nomes da Bossa Nova e, como eles, tocou nos Estados Unidos, onde o gênero se tornou uma coqueluche na década de 1960. Foi num show em Chicago, ao lado do Oscar Brown Jr., que ele conheceu Liza, então em início de carreira, que se tornou sua admiradora e madrinha artística.

CURIOSIDADES

  • Uma questão curiosa em relação a Lady Gaga é que ela fez sucesso com o remake mais recente de “Nasce uma estrela” (2018), no mesmo papel que Judy Garland, mãe de Liza Minnelli, interpretou na versão de 1954, ao lado de James Mason. Antes disso, Garland fizera o clássico “O Mágico de Oz”.
  • Liza Minnelli, na adolescência, com a mãe, a estrela Judy Garland, que a criou nos sets de filmagem e com quem sempre teve uma relação conturbada – Foto: Getty Images – Reprodução – NDLiza Minnelli, na adolescência, com a mãe, a estrela Judy Garland, que a criou nos sets de filmagem e com quem sempre teve uma relação conturbada – Foto: Getty Images – Reprodução – ND
  • Com menos de três anos de idade, Liza fez uma ponta no cinema junto com a mãe – com quem sempre teve relação tempestuosa.
  • Enquanto esteve na Ilha, Liza fumou muitos cigarros Marlboro e, no chalé onde se hospedou, se assustou com uma lagartixa – animal que não conhecia – na parede.
  • Na entrevista no hall de “O Estado”, da qual participaram também correspondentes de “O Globo” e “Jornal do Brasil”, Liza agradeceu a caixa de bordados e reagiu ao presente com a frase “They are beautiful!”.
  • Na passagem pelo Mercado Público, elogiou a arquitetura do prédio e perguntou por peixes e frutas que desconhecia. Disse que o Carnaval “é a coisa mais cheia de sentido que já vi” e elogiou o entusiasmo do povo, “algo que no meu país não existe”.
  • Liza com o amigo Luiz Henrique Rosa, cantor que conheceu em Chicago, e a amiga Crenilde Campelli – Foto: Foto Édio Mello – Divulgação – NDLiza com o amigo Luiz Henrique Rosa, cantor que conheceu em Chicago, e a amiga Crenilde Campelli – Foto: Foto Édio Mello – Divulgação – ND
  • Sobre a música brasileira, conhecia pouco mais que as letras de Luiz Henrique, que chegou a gravar, e os sucessos da Bossa Nova. No entanto, no Rio de Janeiro, teve contatos com Ivan Lins, Edu Lobo e Luiz Carlos Vinhas, além de ter ouvido, numa recepção, a voz das cantoras Zezé Mota, Leni Andrade e Gal Costa.
  • Em Florianópolis, circularam boatos de que Liza havia comprado uma área de terra na praia da Galheta. Ela desmentiu. Era mais uma lenda que os manezinhos, de farta imaginação, criaram do nada.

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