Conheça o trabalho dos carnavalescos, as mentes que dão vida aos enredos, em Florianópolis

Com muita imaginação e disposição, carnavalescos sãos a mentes criativas por trás dos enredos das escolas de samba no Carnaval de Florianópolis

Foto de Valeska Loureiro

Valeska Loureiro Florianópolis

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No brilhante universo criativo e lúdico do Carnaval, uma figura assume o papel central na concepção do enredo da escola de samba: o carnavalesco. É a partir de sua mente criativa que um tema aparentemente simples se transforma em uma narrativa cativante e verdadeiramente carnavalesca. O artista é responsável por conduzir todo o processo, desde a concepção até o desenvolvimento, a construção das alegorias e a elaboração das fantasias alinhadas ao enredo proposto.

Com 42 anos de experiência em Carnaval, carnavalesco José Alfredo Beirão representa a Acadêmicos do Sul da Ilha -Com 42 anos de experiência em Carnaval, carnavalesco José Alfredo Beirão representa a Acadêmicos do Sul da Ilha – Foto: Leo Munhoz/ND

Segundo André Calibrina, maestro e um dos comentaristas oficiais da transmissão de Carnaval da NDTV Record, o carnavalesco pode desenvolver o conceito a partir de um enredo proposto pela direção da escola de samba, mas “em alguns casos, é ele quem sugere o tema a partir de uma ideia original”.

Com 42 anos de experiência em Carnaval, José Alfredo Beirão representa a Acadêmicos do Sul da Ilha, uma das dez escolas de samba da Grande Florianópolis. Ele conta que trabalhar na função é trabalhar com a criatividade. “O que me levou a ser carnavalesco foi o gosto pela folia. O Carnaval é um grande exercício de criatividade e acredito que isso despertou meu interesse pelas escolas de samba”, diz, ao relatar experiências com quase todas as agremiações de Florianópolis.

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Conexão Rio-Floripa

Reconhecido mundialmente por sua grandiosidade e exuberância, o Carnaval do Rio de Janeiro costuma ser inspiração e referência por todos os cantos do Brasil. E foi pensando em buscar essa intensidade que a União da Ilha da Magia, agremiação da Lagoa da Conceição, foi buscar o carnavalesco Jaime Cezário. Com 30 anos de experiência, o arquiteto, natural de Niterói, já atuou em diversas escolas de samba do Rio, incluindo a tradicional Estação Primeira de Mangueira.

Jaime Cezário e o presidente da União da Ilha da Magia, Rafael Braz; carnavalesco veio do Rio de Janeiro para comandar a escola – Foto: LEO MUNHOZ/NDJaime Cezário e o presidente da União da Ilha da Magia, Rafael Braz; carnavalesco veio do Rio de Janeiro para comandar a escola – Foto: LEO MUNHOZ/ND

Sua história com a União da Ilha da Magia começou em 2010, mesmo ano em que realizou seu trabalho como carnavalesco na escola carioca. Com o enredo “A magia dos deuses”, já idealizado anteriormente por ele, foi vice-campeão em Florianópolis. No ano seguinte, chegou ao tão sonhado primeiro lugar com o enredo “Cuba sim! Em nome da verdade”. À frente da agremiação da Lagoa da Conceição, possui três títulos: dois gerais, em 2011 e 2023, e um do grupo de acesso, em 2019.

Com tanta experiência, Cezário conta um pouco como foi o processo criativo para tornar o tema skate em um enredo para a Verde, Branco e Ouro. “A diretoria tinha algumas ideias para esse ano e uma delas era o skate. Só que eles não achavam que esse tema daria enredo. Ter um tema é uma coisa, mas tirar um Carnaval disso é mais complicado”, relembra.

“Mas eles justificaram a escolha, pois Florianópolis caminha para ser a capital do skate e tem o medalhista olímpico Pedro Barros, que é manezinho. Na hora eu falei: ‘fantástico’. Eles ficaram surpresos e eu disse: ‘adorei, vamos embora fazer uma viagem carnavalesca no mundo do skate’”, conta.

“Minha ideia foi começar pelo ano olímpico, tudo a ver com a escola já que é a atual campeã. Vamos falar da origem das Olimpíadas, pedir a bênção dos deuses do Olimpo, que sempre abençoavam os grandes campeões das modalidades. A partir daí começou a criação até se tornar ‘Citius, Altius, Fortius: Os deuses do Olimpo abençoando o skate na Ilha da Magia’”, explica o carnavalesco.

Produções a todo vapor

É a partir do enredo pronto que o ordinário se torna extraordinário e os carnavalescos trabalham para que cada detalhe converse entre si e que, juntos, se tornem peças essenciais na Nego Quirido. Em época de Carnaval, a casa do artista José Alfredo Beirão se torna uma fábrica de fantasias. “Sou professor de moda da Udesc e também sou formado em arquitetura. Paralelo a isso, tinha como hobby montar figurinos e, agora, ter esse espaço para o Carnaval é unir o útil ao agradável”, conta o carnavalesco da Acadêmicos do Sul da Ilha.

A casa deixa de ser dele para se tornar parte essencial da escola, mas para Beirão isso está longe de ser um problema. “Trabalhamos das 7h às 22h. Trabalho contínuo, todos os dias, e vamos entregar tudo até dia 5 de fevereiro. É muita paixão e está sendo feito com muito carinho.”

Já na arena da Consulado, no Saco do Limões, a correria também tomou conta. O carnavalesco Raphael Soares cuida de todos os detalhes de perto para que nada passe despercebido. São 28 anos de carreira e quatro títulos à frente da Vermelho e Branco.

“A preparação é muito intensa. Nessa época, mesmo em casa, tenho que resolver as coisas pelo telefone, porque tenho que atender costura, coordenação da escola, os aderecistas, o pessoal das alegorias, do ateliê de destaques e comissão de frente. É uma vida muito louca, mas incrível”, garante.

Fora da vida agitada do Carnaval, Soares trabalha no programa Bairro Educador – Foto: Leo Munhoz/NDFora da vida agitada do Carnaval, Soares trabalha no programa Bairro Educador – Foto: Leo Munhoz/ND

Fora da vida agitada do Carnaval, Soares trabalha no programa Bairro Educador, da Secretaria Municipal de Educação. Mesmo assim, o Carnaval ainda faz parte do seu dia a dia.

“Eu ministro oficinas de arte para as crianças e, na metade do ano passado, começamos a focar no Carnaval. Este ano vamos estrear a primeira escola de samba mirim da cidade, a Unidos pelo Programa Bairro Educador. As crianças das doze sedes espalhadas pela cidade vão abrir o desfile das campeãs”, revela. A expectativa é que sua escola, a Consulado, também esteja no desfile de comemoração, que acontece na terça-feira de Carnaval, três dias depois do desfile marcado para começar às 17h30 do sábado (10).

Últimos ensaios técnicos

O Complexo Nego Quirido recebe, neste fim de semana, os últimos ensaios técnicos antes do desfile oficial de Carnaval. Sem alegoria e sem fantasia, seis escolas atravessarão os 400 metros da avenida – as demais agremiações realizaram seu ensaio técnico no último sábado. A entrada é gratuita, sendo permitido levar bebidas e alimentos.

Hoje, a palhocense Nação Guarani desfila entre as 20h e 21h10. Depois, é a vez da agremiação Copa Lord. Acadêmicos do Sul da Ilha e Protegidos da Princesa fecham a noite, com os desfiles invadindo a primeira hora da madrugada.

No domingo, a União da Ilha da Magia, atual campeã, abre os trabalhos. A escola da Lagoa da Conceição realiza seu ensaio técnico às 21h. O último teste é o da escola Consulado, que percorre a passarela a partir das 22h20.

O ensaio técnico é a última oportunidade das escolas de samba de ensaiarem na Nego Quirido – o mais perto possível da experiência do desfile oficial.

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