Ler Cruz e Sousa, atualmente, 125 anos após a morte do poeta, é um prazer sempre renovado para quem aprecia seus versos refinados, musicais, bem urdidos, de pulsante sensualidade e doses ainda maiores de dor que refletem a inadequação do gênio simbolista a um mundo que excluía quem não era bem nascido.
Com obras esgotadas e raras reedições, consola saber que é possível encontrar a métrica do grande autor nas bibliotecas, escolas e academias. E mais, descobrir coisas que ele escreveu que permanecem inéditas, em antigos álbuns de família ou em coleções ainda não inventariadas oficialmente.
Poema inédito de Cruz e Sousa está no Museu Histórico de Santa Catarina – Foto: Leo Munhoz/NDEste é o caso de um poema de Cruz e Sousa (1861-1898), que faz parte do acervo do Museu Histórico de Santa Catarina, em Florianópolis. É uma sequência de seis estrofes escrita em 1880, quando o autor era pouco mais que um adolescente. Incluída em um caderno dedicado a uma criança de três anos chamada Olga Natividade, ali há também textos de Santos Lostada, Virgílio Várzea, Carlos de Farias, Francisco de Paulicéia Marques de Carvalho, Alfredo Albuquerque e Ernesto Nunes Pires.
SeguirO álbum é uma das preciosidades guardadas no museu, criado em 1978 e localizado num prédio de arquitetura eclética que ganhou o nome de Palácio Cruz e Sousa. Ali, há pelo menos 3 mil peças como moedas, medalhas, móveis e objetos de cerâmica aguardando catalogação.
O livro com os poemas é uma delas e desafia o esforço e o talento da estagiária Letícia Pontes, do curso de Museologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), cedida à Fundação Catarinense de Cultura (à qual o Museu Histórico é subordinado), e de Ado Câmara, funcionário terceirizado da casa.
O poema inédito do Diamante Negro simbolista Cruz e Sousa
No Museu Histórico de Santa Catarina, em Florianópolis, há um acervo grande de obras do poeta simbolista – Foto: Leo Munhoz/NDA primeira estrofe do poema de Cruz e Sousa, intitulado “Beijos”, mostra um autor ainda imaturo, talvez não disposto a ceder seu gênio a uma causa menor, diante da glória que imaginava um dia alcançar no panteão dos grandes da literatura. É composta pelos seguintes versos:
“Nesta thebraide (sic) infinita
de vida, na sombra oculto,
eu gosto de olhar o vulto
de uma criança bonita”.
O restante dos versos os setores de museologia, conservação e restauro do museu preferem manter anônimos até que, devidamente inventariados, possam ser mostrados ao público, num evento especial, talvez ainda este ano. Também incompleto, o poema “Beijos” ornamenta uma parede da Casa da Literatura Catarinense, no Centro da Capital.
Inventário vai abrir espaço para novas pesquisas sobre o poeta simbolista Cruz e Sousa
O livro em forma de caderno manuscrito teria sido dado como presente de aniversário a Olga Natividade em 19 de dezembro de 1880, e até os dias atuais ninguém sabe como foi parar no acervo do Museu Histórico de Santa Catarina.
Depois do inventário, este material será objeto de pesquisas para saber quem foi a homenageada e em que circunstâncias o álbum foi feito, no final do século 19.
Cristiane Pedrini Ugolini, funcionária da Fundação Catarinense de Cultura lotada no museu, diz que normalmente há um termo que oficializa a doação, mas já foi muito comum famílias deixarem parte de seus espólios ali sem atentar para esse cuidado.
“Pode ser que com o inventário pronto se encontre uma certidão de nascimento de Olga em alguma igreja antiga da cidade”, afirma ela.
Também há os arquivos públicos do Estado e do município que guardam registros históricos e documentos de séculos passados. O Museu Histórico só tem 45 anos e nem sempre funcionou ao lado da praça 15 de Novembro – após a criação, sua sede era na atual Casa da Alfândega, próximo ao Mercado Público de Florianópolis.
Entre as peças que o Museu Histórico guarda estão presentes doados por governos estrangeiros ou diplomatas que visitaram o Estado. Há, por exemplo, gravuras japonesas e um samovar, utensílio culinário de origem russa usado para aquecer água e servir chá. Numa urna colocada no piso térreo do museu estão os restos mortais de Cruz e Sousa.
Fábio Garcia, históriador e escritor renomado de Florianópolis – Foto: Divulgação/NDO historiador e editor Fábio Garcia, autor de livros sobre personalidades negras em Santa Catarina, acredita que há mais poemas inéditos do autor de “Missais” e “Broquéis” e de outros autores dos séculos 19 e 20 que precisam vir à torna e ser publicados.
Eles poderiam estar em acervos de obras raras de bibliotecas, à espera de catalogação. “Cruz e Sousa é sempre atual”, diz Garcia, ressaltando o próprio mural que homenageia o poeta ao lado do palácio que leva o seu nome e o aumento do interesse sobre a sua obra, na esteira do crescimento do movimento negro em todo o país.
O hábito de publicar versos em álbuns ou diários de poesia
Na época de Cruz e Sousa, era comum inserir versos em álbuns ou diários de poesias. “Era uma prática corriqueira escrever em cadernos literários de outros autores”, diz Fábio Garcia.
“Eram textos trocados entre colegas, que dedicavam poesias uns aos outros”, explica. Em 2022, foi realizada na UFSC uma pequena exposição que incluía um cartão assinado pelo poeta simbolista. Garcia desconfia que ainda há triolés (pequenos poemas com rima e forma fixa que eram muito populares à época) e fragmentos dispersos que nunca foram para as gráficas.
Garcia cita Trajano Margarida (1889-1946), outro poeta catarinense que deixou vários álbuns do tipo que está no Museu Histórico. “Pode haver muita coisa ainda em poder de familiares, que ficaram no fundo de gavetas”, diz o editor. São fontes não oficiais, nas mãos de pessoas que nem sempre conhecem o valor desse material.
Casa da Literatura Catarinense Poeta Cruz e Sousa quatra pintura do ícone do simbolismo brasileiro – Foto: Divulgação/NDAntes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1890, atrás de oportunidades para mostrar seu talento, Cruz e Sousa cultivou amigos como Horácio de Carvalho, Oscar Rosas e os jornalistas e poetas da família Nunes, ativos como ele na imprensa local. Esses literatos escreviam cartas, artigos e textos em prosa, que eram compartilhados entre eles. Também Gustavo de Lacerda, jornalista catarinense que atuou no Rio e fundou a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), dedicou uma carta ao poeta. Uma curiosidade é que o avô de Lacerda era senhor de escravos e dono do avô de Cruz e Sousa.
“Há semelhanças na trajetória de vida dos dois”, destaca Garcia. Eles estudaram juntos, aprenderam piano clássico e depois Lacerda foi encaminhado para o Exército.
O historiador especula que se o marechal Guilherme Xavier de Souza, que foi seu tutor, tivesse sobrevivido à guerra do Paraguai é possível que também Cruz e Sousa entrasse para o Exército. Muito discriminado, a ponto de conseguir apenas empregos de baixa remuneração, o poeta teve seu nome recuperado após a morte, pelo valor inigualável de sua obra.
“Ele foi um ponta de lança do movimento negro no final do século 19 e início do 20 no Brasil, e passou a ser nome de rua, de jornal, de clube, de time de futebol”, ressalta Garcia.
Em 1923, por iniciativa de intelectuais negros, um busto em sua homenagem foi colocado na atual praça 15 de Novembro, onde se encontra até os dias atuais. Agora, o painel em homenagem ao Cisne Negro, na área central de Florianópolis, chama a atenção do público para um catarinense que se coloca entre os maiores simbolistas da literatura.
Uma vida atribulada e a morte na pobreza
Falar de Cruz e Sousa impõe a necessidade de citar as atribulações que o grande poeta teve em vida. Na província, não encontrou respaldo para sua obra.
No Rio de Janeiro, em vista da cor e do caráter revolucionário da poesia simbolista, foi mal recebido pela intelectualidade que circulava à sombra do poder, leia-se a corte imperial, incluindo o parnasiano Olavo Bilac. Nesse ponto, as trajetórias de Cruz e Sousa e Lima Barreto se aproximam, ainda que o autor de “O triste fim de Policarpo Quaresma” tenha vivido um pouco depois.
Insubmisso aos cânones de seu tempo, Cruz e Sousa viveu na miséria, viu a mulher Gavita enlouquecer e foi transportado, após a morte, num vagão de trem de gado do interior de Minas Gerais, onde fora se tratar, para o Rio de Janeiro.
Se na província ele foi vítima de uma sociedade racista e oligárquica, na corte sentiu o desprezo daqueles que não viram sua obra preceder e preparar o cenário para o modernismo literário do século seguinte.
Painel gigante mostra Cruz e Sousa, no pátio do Museu Histórico de Santa Catarina – Foto: Leo Munhoz/NDLuiz Alberto de Souza, na alentada tese “Os desclassificados do destino: Cruz e Sousa e os primeiros simbolistas”, escreveu:
“Em Cruz e Sousa, assim como em outros escritores da sua geração, a linguagem tornou-se uma alternativa para os problemas sociais que os pressionavam. Sua obra simbolista, por conseguinte, parece renunciar à ideia de que o autor é aquele que escreve algo para alguém. Assim, no limite, o que o poeta passou a realizar, depois de anos atuando como escritor ‘militante’, empenhado num esforço coletivo de transformação social do país, foi, gradualmente, converter a própria linguagem – e não mais a história – no seu objeto de desejo. Uma postura que, aliás, o difere bem pouco dos seus modelos europeus”.
“Obra de Cruz e Sousa é atemporal”, diz trineta do poeta
A equipe do Floripa 350 localizou a trineta do grande poeta simbolista João da Cruz e Sousa. Emilene Cruz e Sousa, 47 anos, falou como é ser descendente de um gênio literário e destacou a importância de manter o seu legado.
Ela mora no Rio de Janeiro, onde atua como funcionária concursada na área da saúde e divide seu tempo de trabalho com os estudos e a família. Emilene mantém contatos e amigos em Florianópolis, cidade que costuma visitar e admirar.
Cruz e Sousa é trisavô de Emilene , que explica assim o caminho do parentesco.
“Minha avó Ercy casou-se com um neto dele, Sylvio. Então minha mãe, Sylvia Alex, é bisneta, e eu, trineta”, conta.
Acompanhe a entrevista exclusiva:
Apesar de morar longe, você tem uma relação bastante próxima com Florianópolis, correto?
Emilene – Correto. Meu contato com Florianópolis começou na infância e se mantém até os dias atuais. É minha cidade do coração. Tenho amigos muito queridos na Ilha e no Continente. Sempre quando vou a Floripa, a vontade é ficar de vez (risos). Mas a volta é necessária, pois tenho minha vida sediada no Rio. Casamento, profissão, familiares… Então, procuro manter o contato com as amizades que Santa Catarina me presentou e visitar a cidade de vez em quando.
Cruz e Sousa sempre foi muito referenciado nacionalmente e internacionalmente. Mas, em Florianópolis, esta “popularização” é mais recente, como tema de pesquisas, livros, filmes, resgates históricos e algumas ações de governo. Como a família vê esta questão?
Emilene – A família vê esse movimento de pesquisas e resgates históricos há muito mais tempo, pois conhecemos pessoas notáveis e muito dedicadas ao nome do poeta. Poderia citar vários nomes que antecederam os que hoje estão em destaque. A família vê que há uma continuidade no trabalho dos professores, historiadores, ativistas e personalidades, homens e mulheres que já se dedicavam em tirar das sombras os nomes de negros fundamentais na história do Brasil, de Santa Catarina e de Florianópolis. Nosso sentimento é de gratidão, como familiares do poeta, e também como negros, como Cruz e Sousa e Antonieta de Barros.
Na sua opinião, qual é a importância de Cruz e Sousa para o Brasil?
Emilene – Cruz e Sousa representa muito mais do que o Simbolismo para o Brasil e sua história mais recente. Cruz e Sousa representa resistência e reflexão. Sua obra é atemporal.
Os restos mortais do Cruz e Sousa foram trazidos a Florianópolis e aqui estão no palácio que leva o seu nome. O memorial que foi construído carece de manutenção. Como e o que vocês têm feito neste sentido para cobrar mais atenção do Estado à memória do poeta?
Emilene – O poeta foi levado de volta à sua cidade natal em novembro de 2007. Os despojos seriam expostos numa sala do Palácio Cruz e Sousa até a construção de um memorial na área externa. Porém, em 2021 estivemos em Florianópolis (meu marido e eu) e o poeta permanece numa sala interna. Não sei informar o que ocorreu com o projeto anterior. Não temos contato ativo com o Estado e nem com a prefeitura. Nossos contatos estão na esfera pessoal e não na funcional. Como familiar, desejo que sejam tomadas medidas compatíveis à grandiosidade do nome de Cruz e Sousa, proporcionalmente ao que ele representa para o Estado de Santa Catarina.
Dentro do Museu Histórico de Santa Catarina há um memorial onde estão as cinzas do poeta Cruz e Sousa – Foto: Leo Munhoz/NDHá alguns anos os poemas de Cruz e Sousa não são relançados. As últimas obras estão esgotadas. Existe algum projeto para reeditar e republicar este material?
Emilene – A família Cruz e Sousa não tem gestão sobre esse assunto, já que as obras do poeta, conforme consta em registros do acervo da família, estão em domínio público desde 1969, seguindo a legislação brasileira. Então, acredito que os homens e mulheres dedicados a esse ramo da cultura nacional estão sempre escrevendo e lançando algo sobre o poeta.
Apesar de sua vasta cultura, Cruz e Sousa foi descriminado em Santa Catarina e no Rio de Janeiro por questões sociais e raciais. Mesmo assim, ele conseguiu derrubar barreiras. Como você analisa este protagonismo?
Emilene – Infelizmente, a discriminação racial continua a contaminar a humanidade. O caso recente ocorrido com o jogador de futebol Vinícius Junior é uma prova disso. Ser um jovem megatalentoso e atleta de um dos maiores clubes do mundo não impediu que sofresse racismo. É lamentável.
Floripa 350
O projeto Floripa 350 é uma iniciativa do Grupo ND em comemoração ao aniversário de 350 anos de Florianópolis. Ao longo de dez meses, reportagens especiais sobre a cultura, o desenvolvimento e personalidades da cidade serão publicadas e exibidas no jornal ND, no portal ND+ e na NDTV RecordTV.