‘Cura a alma’: rainha da Protegidos vê Carnaval como resistência e ‘manifestação pura’ do povo

12/01/2024 às 06h00

Maria Eduarda Gabriel tem uma forte relação com o Carnaval que remete à infância e à avó; jovem concilia preparo com graduação, curso técnico e dupla jornada

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Maria Eduarda Gabriel, jovem de 23 anos, se tornou Rainha da Protegidos da Princesa, a mais antiga escola de samba do Carnaval de Florianópolis, em 2023, quando a agremiação enveredou por um caminho ousado. Num mês em que o país ainda lidava com as feridas pós ataques de 8 de janeiro, o enredo resgatou a história de Carlos Marighella, por meio de um rap dedicado ao guerrilheiro resistente à Ditadura Militar.

O perfil faz parte de uma série de reportagens do ND Mais com as rainhas das escolas de samba de Florianópolis que vão desfilar no Carnaval 2024.

Maria Eduarda tem um vínculo especial com o Volta à Praça XV – Foto: Felipe Bottamedi/NDMaria Eduarda tem um vínculo especial com o Volta à Praça XV – Foto: Felipe Bottamedi/ND

Fantasias com marcas de sangue, simbolizando a morte de pessoas negras, africanos escravizados, o histórico embate da Novembrada, a Coluna Prestes – ala que incomodou os mais conservadores – foram episódios retratados visceralmente no desfile.

Vestindo uma faixa em que se lia “Sou a Voz das Que Lutaram Contra A Opressão”, Maria estreava no posto maior da realeza no Volta à Praça XV: ela era a Rainha do Quilombo da Princesa. “Prefiro que seja assim”, diz a jovem, que mora em São José.

“Tenho favoritismo por enredos de manifestação. O Carnaval é uma manifestação social pura”, enfatiza. “Estar na rua, clamando algo que o pessoal vive, que o povo sente, que é real – é valioso”.

A predileção da escola por tais temas é um dos motivos que a enraíza na agremiação desde 2015. Apesar de frequentar o Carnaval de Florianópolis desde os dois anos, na época frequentando o bloco Marisco da Maria, a estreia como passista se deu no Carnaval 2016, quando a Protegidos da Princesa trouxe retratou a Primavera Russa no Complexo Nego Quirido.

Em 2019, Maria Eduarda foi eleita Princesa, ocupando o posto de Rainha dois anos depois.

Maria Eduarda como Rainha do Quilombo da Princesa durante o Volta à Praça de 2023 – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDMaria Eduarda como Rainha do Quilombo da Princesa durante o Volta à Praça de 2023 – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Avô e neta, juntas

Quando Maria Eduarda fala sobre a experiência com o festejo, uma pessoa sempre surge no seu relato: a avó, Rosemary Batista Fernandes Silva. Sobrinha de Libânio da Silva Boaventura, um dos fundadores da agremiação, a progenitora fez questão de acompanhar a jovem pela mão no último desfile Volta à Praça XV – e deve repetir o feito neste ano.

“É uma briga dela com a harmonia. O pessoal pede para ela sair, mas ela não sai”, conta Maria, aos risos. “Como ela não está presente nos ensaios e no desfile, ela se entrega na praça. Ela vive isso comigo”.

Neste ano, a união neta-avó fará ainda mais sentido: o enredo da Protegidos da Princesa celebra os 75 anos da agremiação, enfatizando como temática o seguro e a segurança. “Quando li o que era, lembrei dela e das coisas que aprendi”, diz a jovem.

  • 1 de 2
    Rosemary Batista Fernandes Silva, Maria Euarda e o Avô, Paulo Dias da Natividade Silva, no Volta à Praça de 2020 - Arquivo Pessoal/ND
    Rosemary Batista Fernandes Silva, Maria Euarda e o Avô, Paulo Dias da Natividade Silva, no Volta à Praça de 2020 - Arquivo Pessoal/ND
  • 2 de 2
    Maria Eduarda aos dois anos, no Carnaval - Arquivo Pessoal/ND
    Maria Eduarda aos dois anos, no Carnaval - Arquivo Pessoal/ND

Graduação, curso, trabalho…

Maria Eduarda concilia o preparo para o Carnaval com uma graduação de biomedicina, um curso técnico em instrumentação cirúrgica e o trabalho como esteticista. Há três anos, a jovem atende em um estúdio de estética natural voltado à pele negra, no Centro de Florianópolis, onde ajuda as clientes a controlar manchas e remover acne.

Para dar conta da rotina, ela acorda diariamente às 5h40. “Quando chego em casa só tenho o tempo de tomar banho, comer e dormir”, conta. O que a motiva são os ensaios, que agora ocorrer duas vezes por semana.

“O meu pé precisa estar no Carnaval pro resto da minha vida fazer sentido. Como somos criados nesse mundo, ele se torna uma cura. Mesmo sendo corrido. É um remédio para o corpo e a alma”.