A dança das cadeiras dentro da Fundação Catarinense de Cultura (FCC) mostra um pouco da confusão que se instalou dentro do órgão nos últimos meses.
Eram correntes as informações sobre mudanças de cargos dentro da fundação nas últimas semanas. Algumas já aconteceram, como da Diretoria de Arte e Cultura, mas sem a repercussão das ocorridas nesta semana, em especial no “pacote” desta sexta-feira.
A surpresa foi a exoneração do presidente Rafael Nogueira e a nomeação de Sergio Ricardo Fraga Ricardo Costa para o seu lugar. Horas depois, o ato foi anulado pelo governador Jorginho Mello.
SeguirO Governo alegou erro de edição na publicação do ato no Diário Oficial do Estado na sexta-feira – e retificada em edição especial no sábado. Porém, em pelo menos oito cargos houve substituições, a maioria por servidores da casa que já estavam em outras funções.
O CIC, que abriga a Fundação Catarinense de Cultura e museus, como o da Imagem e do Som (MIS-SC) vive dias agitados por mudanças – Foto: Divulgação/Arquivo/FCCJá uma outra mexida, fora do pacote da sexta, repercutiu muito nas últimas horas: a exoneração da servidora Ana Lígia Becker da administração do Museu da Imagem e do Som (MIS/SC).
A saída foi oficializada no Diário Oficial no dia 10 de dezembro, mas a própria Ana Lígia já havia anunciado o seu desligamento há quase duas semanas nas redes sociais.
A exoneração, segundo relatos de dentro da própria FCC, estaria atrelada ao episódio da retirada de uma faixa com linguagem neutra (“bem-vindes”) da fachada do Centro Integrado de Cultura durante a realização o Transforma, o Festival de Cinema da Diversidade de Santa Catarina ocorrido em novembro.
A retirada da faixa foi determinada pelo próprio presidente da FCC e depois recolocada por determinação da Justiça.
Já relatamos aqui no blog que o caso da faixa deixou o presidente da FCC em pelo menos duas “saias-justas”: primeiro pela colocação da faixa com linguagem neutra o que gerou pressão por parte de “parlamentares” e lideranças políticas conservadoras. Depois pela própria reação no meio cultural e o revés na Justiça.
Ana Lígia teria se posicionado contra a retirada da faixa e a sua exoneração teria sido uma “retaliação”. Tanto que, uma semana após o evento, ela anunciou nas redes a sua saída do MIS, mas só oficializada no último dia 10.
O blog já naquela ocasião questionou a FCC sobre a confirmação da exoneração, mas a entidade não se manifestou.
Pressão por troca do comando da FCC agita bastidores
O fato também teria esquentado o debate pela troca de comando na FCC. Há relatos sobre uma pressão pela saída de Rafael para uma acomodação mais “politica” para atender as demandas do PL, partido do governador Jorgino Mello.
Há quem diga que Rafael não resistirá a uma possível reforma no secretariado de Jorginho Mello, embora o Gabinete do Governador tenha descartado na manhã deste sábado qualquer intenção de substituí-lo, reafirmando que o ato de exoneração foi um “engano”.
Nogueira seria uma indicação da deputada estadual Ana Campagnolo.
Setor do Cinema protesta contra saída da administrador do MIS-SC
Ana Lígia Becker esteve à frente do MIS nos últimos nove anos, onde atuou ativamente na organização e execução do edital do Prêmio Catarinense de Cinema. Atuação essa muito elogiada dentro do segmento da cultura, em especial do Audiovisual.
Ana não só teve a habilidade de garantir uma periodicidade anual da premiação nas suas últimas edições, como também atuou em parceria com junto às instâncias federais garantindo aportes consideráveis nos valores das premiações.
Na última edição do Prêmio Catarinense de Cinema foram distribuídos R$ 38,7 milhões, contemplado mais de 50 produções, além de festivais, mostras, projetos, cineclubes.
Neste montante, a proporção foi de quase 1 para 5 – ou seja, para cada R$ 1,00 aportado pelo governo catarinense, a união colocou cerca de R$ 5,00 por meio da Lei Paulo Gustavo.
A saída de Ana Lígia causou reações. Entidades como o Santcine (Sindicato da Indústria Audiovisual de Santa Catarina) e a Cinemateca Catarinense, além de produtores, diretores e artistas, se manifestaram durante e sexta-feira questionando o governador Jorginho pela exoneração.
É importante frisar que Ana Lígia Becker é servidora de carreira da FCC. A sua exoneração foi da administração do Museu da Imagem e do Som, mas ela segue nos quadros da FCC.
O setor também está preocupado com o futuro do MIS e, principalmente, da condução da política estadual para a área do audiovisual em Santa Catarina.
Agora que permanece no cargo, Rafael Nogueira precisa dar uma resposta imediata sobre quem assumirá o MIS e qual o compromisso da sua gestão com a política de estado para o fomento do audiovisual catarinense.
Outras áreas da FCC também angustiam o setor cultural. São muitas mudanças em meio ao processo de editais em curso, além da falta de servidores no órgão – também em função do “êxodo” destes profissionais para outras secretarias por conta da baixa remuneração.
São poucos funcionários para equipes enxutas e muitas demandas para organizar, executar e acompanhar os editais (Elisabete Anderle, Prêmio Catarinense de Cinema, Lei Paulo Gustavo) e programas como o PIC (Programa de Incentivo à Cultura).
Ainda assim, não houve cancelamentos ou suspensão de nenhum destes principais editais e programas durante o primeiro ano da gestão Rafael Nogueira na FCC.