Um casarão cor de rosa com detalhes em branco e aparência requintada chama atenção de quem passa pela rua Rui Barbosa, no bairro Agronômica, em Florianópolis. Bem preservada, a construção histórica ganha destaque em meio aos edifícios modernos que compõem a região hoje.
Casarão da rua Rui Barbosa, em Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDDe acordo com o histórico da edificação produzido pelo Ipuf (Instituto do Planejamento Urbano) de Florianópolis, a construção da casa principal data de 1879.
A planta original e os operários vieram do Uruguai contratados pelo proprietário e primeiro morador do casarão, o abastado comerciante português Joaquim Manoel da Silva, casado com Guilhermina Silva. A obra foi concluída em onze meses.
SeguirOs mesmos operários que trabalharam na construção do casarão também atuaram na reformulação, em 1895, da então sede do governo, Palácio Cruz e Sousa, no Centro, quando Hercílio Luz governava Santa Catarina.
Casarão localizado na rua Rui Barbosa, no bairro Agronômica foi construído em 1879 – Foto: Reprodução/Floripa Nazantigas/Internet/ND“Vizinhos” ilustres
Naquele período, o bairro Agronômica era denominado Pedra Grande e situava-se entre a Praça Governador Celso Ramos até a altura do casarão da rua Rui Barbosa, passando pela igreja de São Luiz.
No final do século 19 e até meados do século 20, o bairro era composto por chácaras de famílias da alta sociedade. Na continuidade da rua Rui Barbosa, em direção ao Centro está a rua Frei Caneca.
Nessa via, um imóvel datado do mesmo período abrigou moradores ilustres como o ex-presidente do Brasil – por dois meses – e ex-governador de Santa Catarina, Nereu Ramos, os também ex-governadores Vidal Ramos e Celso Ramos, além do ex-prefeito da Capital Mauro Ramos.
Para se ter uma ideia do que era a região no final do século 19, um dos serventes de pedreiro que trabalhava na obra do casarão na Rui Barbosa, ia a nado da Pedra Grande até a Caieira pelos lados da Costeira, encomendar cal para a construção. Isso porque era mais fácil ir a nado do que por terra.
Casarão na rua Frei Caneca abrigou moradores ilustres – Foto: Leo Munhoz/NDVenda da propriedade
Em 1907, Joaquim Manoel da Silva, também conhecido como Quinca Manoel, vendeu a propriedade na rua Rui Barbosa por motivos particulares. O imóvel foi vendido ao comerciante Luiz Carvalho por 12 contos de réis, o equivalente a R$ 1.476.000 na conversão atual.
O novo proprietário concluiu a construção da casa, pois a família de Manoel da Silva havia ocupado somente uma parte da propriedade. A família Carvalho vendeu a casa e parte do terreno para servir de sede ao Santa Catarina Country Club em 1965.
A diretoria do Clube fez algumas mudanças na casa, como o fechamento da grande varanda situada aos fundos e uma entrada secundária.
De acordo com o historiador Rodrigo Rosa, da FCC, nos anos 1960 e 1970, o Country Club sediou eventos e festas da alta sociedade. Contudo, com o surgimento do LIC (Lagoa Iate Clube) em 1969, o Country Club vai, aos poucos, perdendo força.
Da esq. para dir.: Atíla Tolentino de Souza (Tilinha Vieira da Rosa), ex-primeira-dama de Florianópolis, Marilia Aragão e Sônia Moellmann Consoni, em noite de gala no Santa Catarina Country Club, em 7 de setembro 1973 – Foto: Lazaro Bartolomeu/Grande Gala/Divulgação/NDEm 1979, a sede do Santa Catarina Country Club foi tombada pelo SEPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico, Artístico e Natural) através de um decreto municipal emitido em 23 de março, dia do aniversário de Florianópolis.
Salão de festas
No início dos anos 1980, a região passou por intensas transformações urbanas e especulação imobiliária. Os edifícios ganharam espaço e as chácaras características da localidade ficaram para trás.
Por volta dos anos 2000, o casarão da Rui Barbosa é incorporado a um condomínio denominado Edifício Residencial Country Club e se torna o salão de festas. Antes disso, em 1996, a lei municipal nº 4870 concedeu anistia de taxa e impostos ao imóvel pelo valor cultural
Em contrapartida à anistia concedida, o proprietário do imóvel firmou o compromisso de construir no terreno um ponto de ônibus voltado para a rua Rui Barbosa – que existe até hoje -, bem como restaurar o imóvel tombado, executando projeto de recuperação fornecido pelo Ipuf/SEPHAN.
Por volta de 2013, o casarão passou por um processo de restauração que devolveu as características originais da fachada e do interior do imóvel. A recuperação custou cerca de R$ 90 mil e foi bancada pelos quase 100 moradores do Residencial Country Club.
Arquitetura
De acordo com o histórico da edificação, o estilo original da arquitetura é o neoclássico uruguaio. O prédio é composto de uma única construção de formato retangular caracterizada como casa de porão alto, com entrada lateral.
Casarão localizado na rua Rui Barbosa, no bairro Agronômica – Foto: Ipuf/Sephan/Reprodução/NDO estilo neoclássico uruguaio se caracteriza, entre outros aspectos, pela simetria e pela platibanda vazada. Trata-se de uma corrente do ecletismo – a chamada volta dos estilos históricos – que marcou a arquitetura do mundo ocidental na segunda metade do século 19.
O casarão da rua Rui Barbosa é considerado o segundo exemplo mais importante do estilo eclético/neoclássico no Estado, atrás somente do Palácio Cruz e Sousa.