Quarta-feira de Cinzas ‘nem sempre foi na quarta’; entenda a origem da data

Período da Quaresma, que antecede a Páscoa, foi alterado durante o passar dos séculos e influenciou o dia que hoje marca o fim do Carnaval

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Após os dias de folia do Carnaval, uma data é inevitável no calendário dos brasileiros, a Quarta-feira de Cinzas. Para entender a data, é preciso lembrar que a festa mais popular do país antecede o início da quaresma, o período de quarenta dias de purificação, segundo o calendário da Igreja Católica, que vai da famosa quarta-feira de cinzas até o domingo de Páscoa.

Data marca período antes da quaresma – Foto: Unsplash/Divulgação/NDData marca período antes da quaresma – Foto: Unsplash/Divulgação/ND

Conforme o historiador Marcelo Machado, pesquisador do tema, a data marca o começo desse período de jejum, penitência, arrependimento e conscientização da imortalidade, na tradição católica.

“Na terça-feira anterior ao dia é quando você ‘bota para quebrar’,  ‘bota o pé na jaca’ durante o Carnaval, exagerando que puder porque, dali para frente, são 40 dias de recesso disso tudo.”

O historiador explica que, como quase todas as tradições, o dia é chamado “de cinzas” por um ritual. “O nome ‘cinzas’ vem de quando os padres colocam cinza dos ramos queimados do Domingo de Ramos”, conta.

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O Domingo de Ramos faz alusão à tradição católica que conta sobre quando Jesus fez sua entrada em Jerusalém. A data mencionada nos quatro evangelhos da Bíblia mostra quando Cristo foi conhecido como “filho de Deus”.

Até hoje, missas são realizadas na data, e os participantes, abençoados com cinzas pelo padre que conduz a cerimônia. Nela, os fiéis têm ainda a testa marcada com um “borralho” que costuma ser deixado até o pôr do sol, antes de ser lavado.

Missa de imposição de cinzas segue até hoje – Foto: Vaticano/Divulgação/NDMissa de imposição de cinzas segue até hoje – Foto: Vaticano/Divulgação/ND

Quaresma tinha período menor

De acordo com o site oficial da Igreja Católica, desde o início do século 2, os cristãos se preparam para a Páscoa com dois dias de jejum e penitência. Depois, estas práticas foram estendidas para toda a Semana Santa.

Já no ano 325, o Concílio de Nicéia (um concílio de bispos cristãos), reconhecia a preparação da Páscoa por 40 dias, segundo o “modelo” de Jesus, que passou 40 dias no deserto, sem contar os 40 anos do Povo de Israel no deserto e os 40 dias de jejum de Moisés, no Monte Sinai, ou de Elias, no Monte Horeb.

No início, a Quaresma começava seis domingos antes da Páscoa, mas, visto que não se jejuava aos domingos, no século 5, foi tirada a Quinta e Sexta-feira santas do Tríduo pascal e as datas foram reconhecidas como Quaresma.

Mais tarde, a Quaresma foi antecipada de quatro dias, chegando assim à atual Quarta-Feira de Cinzas. Com o início da Quaresma, começava também a penitência pública para os que se sentiam culpados de pecados graves (negação da fé, homicídio, adultério): vestidos com roupas penitenciais e aspergidos de cinzas, eles passavam pelas cidades, quase como recordação da “expulsão do Paraíso”.

Em fins do ano 1.000, a prática da penitência pública foi diminuindo, mas foi mantida a imposição das cinzas a todos os fiéis. No século XII, começou o uso das cinzas obtidas das oliveiras do ano anterior.

Rituais parecidos

O historiador relembra que há rituais parecidos com essa “queima” das cinzas do Domingo de Ramos, que originou o nome da data.

Há também um antigo ritual judaico, que remete à fragilidade da vida humana, transitória e sujeita à morte. Nela, as pessoas jogavam cinzas de ervas queimadas em suas cabeças como símbolo de arrependimento perante Deus.