Deusa ‘pagã’, festa e cristianismo: as transformações na tradição da Páscoa

17/04/2022 às 04h30

Páscoa, que remonta à Antiguidade, se tornou uma das datas mais importantes para os cristãos e também para o comércio

Bruna Stroisch Florianópolis

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A Páscoa ganhou um significado ainda mais especial na vida de Fernanda Scussel Ferreira Lima, 38 anos, com a chegada da filha Manuela, hoje com cinco anos. Coelhinhos e brincadeiras como caça aos ovos fazem a alegria da pequena durante o feriado, que é passado em família.

Mas, qual a origem da Páscoa, o significado dos símbolos e as transformações pelas quais passou a data?

O surgimento da Páscoa remonta à Antiguidade e a sociedades que celebravam o início da primavera. Coelhos e ovos de chocolate são símbolos que marcam a data atualmente – Foto: Pixabay/Reprodução/NDO surgimento da Páscoa remonta à Antiguidade e a sociedades que celebravam o início da primavera. Coelhos e ovos de chocolate são símbolos que marcam a data atualmente – Foto: Pixabay/Reprodução/ND

O surgimento da Páscoa remonta à Antiguidade e a sociedades que celebravam o início da primavera após um rigoroso inverno no Hemisfério Norte.

Alex Degan, professor de História da Ásia do curso de História da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explica que as celebrações tinham relação com a agricultura. Isso porque a maior incidência de luz solar e a temperatura mais quente faz com que a natureza entre em um ciclo reprodutivo e exuberante.

A Europa antes do cristianismo também celebrava a chegada da nova estação através de festividades à deusa “pagã”  Ostara. A deusa da mitologia nórdica, anglo-saxã e germânica também é conhecida como Eostre, Ostera ou Easter.

“Easter” em inglês “Ostern”, em alemão vêm de Ostara, que é a deusa da primavera, da fertilidade e do renascimento. Os símbolos de Ostara incluem ovos, coelhos e flores da primavera, que denotam a fertilidade e a esperança da vida que vem com a nova estação.

Uma das principais tradições do festival que cultua Ostara é a decoração dos ovos. Outra tradição é esconder os ovos e depois achá-los – semelhante ao que ainda acontece na Páscoa.

Representação da deusa Ostara por Johannes Gehrts, 1901 – Foto: Reprodução/NDRepresentação da deusa Ostara por Johannes Gehrts, 1901 – Foto: Reprodução/ND

Na Europa, o tradicional festival de Ostara foi transferido para a celebração da ressurreição de Cristo para incorporar o significado cristão da Páscoa após anglo-saxões e alemães se converterem ao cristianismo.

Desse modo, os ovos de Páscoa são resquícios dessa fusão entre festivais “pagãos” e cristãos, e que permanecem visíveis até hoje nas culturas europeia e americana.

Pessach judaica

A origem da Páscoa também perpassa a libertação judaica, chamada Pessach, que significa “passagem”. De acordo com o professor Degan, o evento comemora a libertação dos judeus do cativeiro no Egito, onde ficaram por mais de 400 anos, em 1.446 a.C (antes de Cristo), tendo a figura de Moisés como o indutor da ação. O Êxodo tornou-se o foco da identidade judaica.

“É uma festa coletiva que celebra um mito de fundação. As festas cívicas ou religiosas possuem a importante ação de comemorar, ou seja, (re)memorar em conjunto. São importantes para a construção de vínculos e laços fundamentais para as identidades coletivas”, explica Degan.

Segundo o professor Giancarlo Moser, do curso de História da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), a Pessach também é, de certa forma, uma maneira de celebrar o início da primavera entre os hebreus.

Na Antiguidade, a Pessach era celebrada de várias formas, conforme Degan. Na Palestina, as famílias judaicas se esforçavam para peregrinar até Jerusalém.

Lá buscavam realizar cerimônias de purificação, com banhos e jejuns, realização de preces, cânticos e sacrifícios. Nas diásporas, as comunidades tendiam a se reunir em sinagogas para leituras de trechos da Torá e uma refeição comum.

O Sêder é a grande refeição festiva das duas primeiras noites de Pessach. A palavra Sêder significa ordem, porque é uma integração ordeira e purificada da comida, da oração, da lembrança e do rito.

“Por exemplo, o vinho celebra a libertação da escravidão, as ervas amargas (rábano) recordam o sofrimento anterior e o pão Matsá/Ázimo (sem levedura) que relembra a fuga apressada”, conta Degan.

Família judia celebrando Pessach. Representação de Moritz Daniel Oppenheim, Amsterdã, 1882 – Foto: Reprodução/NDFamília judia celebrando Pessach. Representação de Moritz Daniel Oppenheim, Amsterdã, 1882 – Foto: Reprodução/ND

Páscoa para o cristãos

A Páscoa para os cristãos representa a ressurreição de Jesus Cristo. De acordo com o historiador Alex Degan, as primeiras Páscoas cristãs coincidiram com a Pêssach (em latim pascha).

O Domingo de Páscoa marca o ápice da Paixão de Cristo, sendo precedida pela Quaresma, que são 40 dias de jejum e meditação.

“Com o desenvolvimento do Cristianismo, que durou séculos, tornou-se imperiosa a comemoração anual do evento considerado o coroamento da história desta tradição religiosa. Novamente temos a utilização de uma festa para constituir vínculos memorativos e de identidade em um grupo”, diz Degan.

Segundo o professor, só no ano 325 d.C. no Concílio Ecumênico de Niceia é que a estrutura básica da festividade foi definida. O Concílio foi o primeiro evento promovido pela Igreja para discutir a fé cristã.

Confira a história da Páscoa – Vídeo: Gil Jesus/ND

Símbolos e rituais

“Em síntese, os rituais pascoais se vinculam ao renascimento, com a primavera; à libertação, do Judaísmo; e à Paixão e martírio de Jesus, do Cristianismo. As festividades são organizadas para relembrar esses processos”, aponta Alex Degan.

Segundo ele, o ovo possui um simbolismo profundo dentro das religiões do Mundo Antigo, significando renascimento e ciclo – redondo e fechado, emulando o nascimento e morte. O ovo também está presente no ritual judaico do Sêder, na Pessach. O Cristianismo herdou esta simbologia, atrelando-a à ressurreição.

“Em algumas regiões do Mediterrâneo Oriental e Leste Europeu é antiga a tradição de presentear com ovos decorados no início da Primavera e, depois, na festa da Páscoa. No começo do Período Moderno, no século 15, esta prática já está bem registrada, sendo disseminada no Leste Europeu no século 18”, acrescenta Degan.

Entre os séculos 19 e 20, com o crescimento das cidades no Ocidente, esta antiga tradição acaba recebendo uma atenção comercial, com a produção de ovos decorados como um artefato próprio para esta celebração.

Nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido começam a aparecer ovos feitos com chocolate, criados para atender um novo mercado consumidor urbano: as crianças.

O coelho e a lebre são animais também relacionados com antigos símbolos que evocam a fertilidade e o renascimento na primavera.

Entre os séculos 19 e 20, com a crescente urbanização do Ocidente e expansão do capitalismo, o coelho foi associado ao ovo de chocolate como uma referência pascoal.

Páscoa deste ano terá mais lembrancinhas de chocolate – Foto: Marco Santiago/Arquivo/NDPáscoa deste ano terá mais lembrancinhas de chocolate – Foto: Marco Santiago/Arquivo/ND

As tradições vão continuar?

O professor Giancarlo Moser acredita que os rituais e a celebração da Páscoa irão perdurar enquanto o cristianismo for um credo forte.

“Está presente há 2 mil anos e deve seguir muito mais tempo ainda. Cada vez que a humanidade entra em períodos de turbulência e incertezas, as pessoas tendem a se apegar ainda mais aos ritos, principalmente aos milenares, tradicionais”, argumenta.

Por outro lado, para o professor Alex Degan, as tradições que giram em torno do feriado de Páscoa têm passado por intensas transformações nos últimos tempos.

“Acredito que sempre vamos ter mudanças nas formas de nos relacionarmos com as tradições. Elas não estão congeladas. As sociedades, os interesses e as dinâmicas mudam”, avalia.

“Há 100 anos, por exemplo, a ideia de troca de ovos de chocolate orquestrada por um coelho da Páscoa não tinha o alcance que tem hoje. Era algo restrito aos centros urbanos dos Estados Unidos e Inglaterra. Hoje é disseminado no Ocidente como um todo”, acrescenta.

A mercantilização – não só da Páscoa – remodela as datas festivas. “No século 20 houve o surgimento de algumas categorias de mercado, como a juventude e a infância, que passam a ser espaços de consumo e venda de produtos específicos. O ovo de chocolate e o coelhinho da Páscoa passam a se conectar com as demandas de mercado”, aponta.

Páscoa sob novos moldes

A psicóloga Vanessa Cardoso também percebe algumas mudanças nos rituais que envolvem a Páscoa nas últimas décadas. Segundo ela, há uma multiplicidade de religiões que não preconizam a data.

“Às vezes, numa mesma família há diferentes religiões ou a família opta por deixar que a criança escolha qual seguir. Por isso, não segue tradições ou comemora datas típicas do Cristianismo”, diz.

Diferentes composições familiares também vão trazer novos contornos a datas festivas, como a Páscoa.

“Famílias que têm filhos em guardas compartilhadas, por exemplo, também podem se comportar de maneira diferente perante à data. Por vezes, a família do pai se comporta de uma maneira e a da mãe, de outra”.

Outra questão que influencia na mudança de comportamento atualmente e que tende a mudar a maneira como a sociedade encara determinadas tradições diz respeito à rotina atribulada e à correria do dia a dia.

A psicóloga explica que a preparação para o feriado de Páscoa exige um “estado de presença”, isto é, tempo disponível para se estar junto. Estar com as crianças ou reunir a família para uma refeição são práticas que têm ficado cada vez mais raras.

“O tempo para usufruir do feriado de Páscoa e das tradições, como preparar uma cesta, esconder e pintar os ovos, tem se tornado cada vez menor. A correria e o estresse do dia a dia voltam os olhares das famílias para outras prioridades”, aponta Cardoso.

O encarecimento dos produtos de Páscoa também pesam na decisão das famílias de seguir tradições típicas da data. “Tem ficado cada vez mais caro esse ritual, mas penso que as famílias podem achar meios de se adaptar a uma nova realidade econômica”, diz.

De mãe para filha

Por mais que a Páscoa tenha passado por transformações ao longo do tempo, para Fernanda Scussel Ferreira Lima, a data não deixa de ser motivo de celebração e união.

Ela conta que desde que Manuela tinha cerca de um aninho, a família viaja para São Martinho, no Sul de Santa Catarina, para um passeio temático. Enquanto a menina se distrai com a decoração, os pais preparam o esconderijo da cesta de Páscoa e brincam de caça aos ovos.

“É um costume que temos desde que ela era bebê. Ela cobra o passeio e fica muito ansiosa. Aproveitamos para visitar familiares na região e no domingo, procuramos estar sempre juntos, em família”, diz Fernanda.

A tradição de comemorar a Páscoa passou de mãe para filha. Fernanda lembra que quando era pequena, a mãe também costumava seguir alguns rituais típicos da data, como preparar uma cesta e fazer a caça aos ovos.

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    Fernanda e a pequena Manuela no passeio de Páscoa em 2018 - Acervo pessoal/ND
    Fernanda e a pequena Manuela no passeio de Páscoa em 2018 - Acervo pessoal/ND
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    Manuela no passeio em 2022 com a cesta de Páscoa - Acervo pessoal/ND
    Manuela no passeio em 2022 com a cesta de Páscoa - Acervo pessoal/ND

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