Os negros são parte importante do desenvolvimento de Florianópolis. Desde o tempo da colonização da Capital, passando pela Floripa das décadas de 1920 e 1930, com destaque na política e literatura, até os dias atuais, com os movimentos artísticos, culturais, políticos, educacionais e tecnológicos.
Mural em homenagem a Cruz e Sousa – Foto: Victor Moraes/Divulgação/NDQuando se fala do movimento negro em Florianópolis e pessoas que fizeram a diferença no desenvolvimento da cidade, automaticamente o nome de duas personalidades vem à mente: Antonieta de Barros e Cruz e Sousa.
O poeta simbolista teve grande legado na literatura, fundou jornais, e promoveu a cultura. Já Antonieta desbravou vários segmentos como a educação, política, literatura. Ela também fundou jornais e teve grande importância para o empoderamento feminino não só na capital catarinense, mas em todo o Brasil. Foi pioneira sendo a primeira mulher deputada e negra do País.
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Ícone catarinense, Antonieta de Barros é homenageada em mural no centro de Florianópolis – Foto: Flavio Tin/Arquivo/NDMas a presença dos negros em Florianópolis vai muito além. Escritor, historiador, mestre em educação e responsável pela Editora Cruz e Sousa, Fábio Garcia ressalta que desde a colonização eles tiveram bastante importância para a formação da Florianópolis cosmopolita de hoje.
“Ao longo da colonização de Santa Catarina o negro teve destaque significativo, principalmente no litoral, com os que vieram junto aos paulistas, na condição de escravizados. Na região do planalto, a presença negra é mestiça e se dá a partir dos tropeiros. Já no Oeste é oriunda da Guerra do Paraguai”, explica o historiador.
Muito mais do que mão de obra escrava
Historiador e escritor Flávio Garcia é responsável pela editora Cruz e Sousa – Foto: Windson Prado/NDA população negra em Florianópolis, de acordo com Garcia, está na cidade desde sua origem. “A gente está acostumado a pensar, e a história muitas vezes a retratar, a presença do movimento negro apenas como escravo, mas essa população também ocupou outras funções e trouxe conhecimentos importantes em diversas áreas. Não é porque ele foi escravizado que ele não tinha nenhum conhecimento”, enfatiza o estudioso.
Garcia ilustra citando o pai do poeta Cruz e Sousa. “Em grande parte da vida ele foi escravo, mas também era um mestre pedreiro fantástico. Então, uma coisa não inviabiliza a outra”, esclarece o historiador.
Negros que foram destaque na política em Florianópolis
O movimento negro trouxe conhecimentos que compuseram nossa sociedade. “Na política, por exemplo, além de Antonieta de Barros, há de se destacar figuras importantes como Abdon Batista”, cita Fábio Garcia. Natural de Salvador (BA), o empresário veio a Santa Catarina e se estabeleceu na região de Joinville onde se tornou o rei do mate.
“Ele se aventura na política na mais populosa cidade catarinense, Joinville, e, em São Francisco do Sul. Foi vereador e vem a Florianópolis para se tornar governador do Estado por duas vezes. Foi o primeiro e único governador negro que Santa Catarina já teve”, pontua o escritor.
Fábio Garcia continua a falar com entusiasmo de Abdon Batista e cita que, no ano passado, foi preciso fazer uma ação para resguardar a história do político.
“Ele morou no Palácio Cruz e Sousa por duas ocasiões. Até 2022 não havia no Museu de Santa Catarina nenhum retrato de Abdon. Então, nossa editora convidou o artista plástico Bruno Barbi para elaborar um retrato do político. Tivemos que enegrecer Abdon Batista porque, até então, ele sempre era retratado como branco”, comenta o historiador.
Abdon Batista foi o único governador negro de Santa Catariana até hoje – Foto: Alesc/Divulgação/NDSegundo Garcia, depois do “primeiro quarto do século 20, o movimento enfraquece. Nas últimas eleições, por exemplo, não conseguimos reproduzir o feito de Antonieta de Barros que na década de 1930 se elegeu deputada estadual. Não temos nenhum deputado negro na Alesc atualmente, isso é lamentável e traz várias reflexões”, compara.
Movimento negro perde força no final da década de 1930
O historiador Fábio Garcia esclarece um ponto importante. De acordo com ele, nas décadas de 1920, 1930, o movimento perdeu força. “Nosso povo tinha notoriedade e destaque, sobretudo no campo educacional, social e até na política. Entretanto, veio o embranquecimento dos brasileiros, com a chegada dos imigrantes europeus”, cita o pesquisador.
O estudioso continua dizendo que a ascensão do movimento negro é retomada após a ditadura militar, sobretudo no governo Fernando Henrique Cardoso.
“Esse presidente reconheceu de fato que somos um país racista e que precisávamos pensar sobre isso, traçar políticas públicas para mudar essa realidade. Foi então que começaram as ações cotistas, culturais, sociais e o fortalecimento das organizações do movimento negro”, conta Garcia.
Outros nomes de negros de destaque em Florianópolis
Feito a ressalva, Fábio Garcia pontua outros nomes importantes para o desenvolvimento de Florianópolis por áreas. Confira!
Trajano Margarida foi destaque como professor nas cidades de Florianópolis, Itajaí e Brusque. Ele também atuou fortemente na literatura – Foto: Divulgação/NDEducação
“É quase impossível falar de educação em Santa Catarina, até a década de 1930 sem citar a presença negra. Muitos eram os professores que se formavam, geralmente como normalistas, em Florianópolis e levavam esse conhecimento ao interior. Destaques para Trajano Margarida, Antonieta de Barros, Leonor de Barros, Olga Brasil, Maria Clara entre outros”.
Literatura e Esporte
“Sim, é possível traçar um panorama entre os dois campos. O ponto de ligação é o intelectual de marca maior, teatrólogo, prosador, historiador, contista, farmacêutico e entusiasta do esporte, Ildefonso Juvenal. Entre as décadas de 1914 e 1930 ele promove ações importantes em Florianópolis. Publicou 17 livros e deixou mais de 400 artigos em jornais e revistas. Sem dúvida é um dos principais nomes da literatura, depois de Cruz de Sousa, no sentido de variedade de conteúdo abordado.”
A solenidade revela a participação dos intelectuais negros no desenvolvimento literário, econômico e social de Santa Catarina, no período pós-abolição – Foto: Acervo FCC/Divulgação/ND“No que se refere ao esporte, em 1914, Ildefonso monta um grupo de regatas formadas apenas por negros. Naquela época, o futebol não era popular, a sensação era o remo. Em 1922, ele organiza em Florianópolis o Clube de Regatas Henrique Dias, em um clube de negros chamado Centro Cívico Recreativo José Boiteux, que ficava onde hoje é a Praça Getúlio Vargas, a Praça dos Bombeiros.”
“Ainda no esporte, destaque para Diamantino Alves que integrou o Grupo de Remos Henrique Dias. O filho dele vai fazer parte dos times de futebol da década de 1940 e 1960”.
Jurídica
“Vez ou outra, aqui em Santa Catarina, vinham profissionais negros, sobretudo de Pernambuco, para ocupar postos nas comarcas e em Florianópolis. Um deles, nos anos de 1920 e 1930, se tornou muito conhecido. Foi Heráclito Carneiro Ribeiro, único negro a ocupar cargo de desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina até hoje. Ele é uma figura interessante porque o pai dele, Ernesto Carneiro Ribeiro, foi professor de matemática, filosofia, grego e lecionou para o Castro Alves e Rui Barbosa”, finaliza Garcia.
Floripa 350
O projeto Floripa 350 é uma iniciativa do Grupo ND em comemoração ao aniversário de 350 anos de Florianópolis. Ao longo de dez meses, reportagens especiais sobre a cultura, o desenvolvimento e personalidades da cidade serão publicadas e exibidas no jornal ND, no portal ND+ e na NDTV RecordTV.