A Embaixada Copa Lord deu início ao seu desfile por volta das 4h20 de um domingo de temperatura mais alta que a sensação. Com um vento sul que pareceu encanado, o clima na madrugada, ao menos no céu, era gelado.
Nada disso, no entanto, foi suficiente para retirar o público da estrutura da Passarela Nego Quirido que, mesmo com o adiantado da hora e a sensação de frio, se manteve irredutível e muito animado para ver a agremiação sediada no Morro da Caixa, região central de Florianópolis.
Com um desfile denominado “O Orocongo do Gentil”, a Copa Lord se propôs a entregar um “carnaval para mexer com o brio” de toda sua comunidade.
SeguirTanto na justificativa do enredo, como nos depoimentos dados pelos integrantes nos microfones da NDTV, a comunidade fez questão de exaltar o processo de restruturação da agremiação frente a dois anos de pandemia – e consequente sem desfiles.
Todo esse sentimento foi imediatamente transformado em energia para a escola que passou por cima do adiantado da hora, do suposto frio e todas adversidades empacotadas nesse contexto.
Não o bastante, a escola passou por um impasse logo no começo do desfile depois que um integrante da comissão de frente acabou passando mal e precisou ser retirado pelo socorro presente no local. Apesar do susto não foi nada grave, segundo repassado pelos enfermeiros.
Integrante da comissão de frente da Copa Lord precisou de atendimento médico – Vídeo: Thainá Klock/ND
E não se trata de uma mera opinião, mas sim, a constatação diante de um público que explodiu ao longo dos mais de 60 minutos regulamentares de travessia da escola.
Orocongo do Gentil
O Orocongo Gentil foi uma ideia da escola de relacionar o homem da comunidade e seu instrumento musical, em uma intenção de olhar para o morro e enxergar “mundo”, identificando as conexões que formam nossas relações de pertencimento e identidade, segundo o carnavalesco William Tadeu.
“Ao elegermos a relação entre um homem de nossa comunidade e seu instrumento musical como enredo, praticamos o exercício diário de olhar para o morro e enxergar o mundo, identificando as conexões que formam nossas relações de pertencimento e identidade. Edificamos a memória de um ancestral de nossa gente”
Ainda de acordo com o que foi roteirizado, é a personificação do menino preto do morro, “do nosso Morro da Caixa”.
“É a glória do homem do povo que faz sua história. É olhar para o morro e ver o mundo”.
Com os primeiros raios de sol a Copa Lord finalizou seu desfile e, com ela, a esperança de uma segunda-feira radiante.
Estrutura
Fundada em 1955, a segunda escola mais antiga de Florianópolis apostou na história de Gentil Camilo Nascimento Filho, o Gentil do Orocongo, que morreu em 2009. O músico foi um dos únicos divulgadores do orocongo — instrumento de origem africana, com o aspecto de um violino mais rústico, que passou a fazer parte de seu nome.
A comissão de frente, sob a temática “Gentil encarna no deserto com sua musicalidade” esbanjou técnica com uma coreografia que representou o delírio, uma miragem do deserto.
O real e a imaginação se confundiram e entre músicos e bailarinos, Gentil do Orocongo encarnou no deserto com sua musicalidade e guiou a festiva caravana pelo deserto.
A bateria “Músicos da terra que incendeia”, guiada pelo mestre Diego Cunha, embalou o público do Complexo Nego Quirido representando os músicos cabo-verdianos, com seus figurinos típicos estilizados com chamas.
Na décima ala, as Baianas homenagearam o batuco, o canto de resistência das mães negras de Cabo Verde. Pintadas em tons vulcânicos, as fantasias estabeleceram um paralelo entre essas mulheres marcadas pela africanidade e a visão do cabo-verdiano que encontrou na Bahia outras mulheres que lembravam as de sua terra.
Na reta final do desfile da amarelo, vermelho e branco, o destaque de chão Rocélio representou Oxalá em alusão à presença das religiões de matriz africana no cancioneiro de Gentil do Orocongo.