Na sexta-feira (2), Blumenau completa 172 anos de história! A cidade, que cresceu e se desenvolveu no meio de um vale, se destaca pelas belezas naturais, pela persistência de seu povo, por suas festas, como a Oktoberfest, que atraí milhares de turistas de todo o mundo e, principalmente, pela preservação da sua história e tradições.
E a história de Blumenau tem uma guardiã muito importante. Para celebrar os 172 anos de Blumenau, a reportagem do Portal ND+ entrevistou a pessoa que mais conhece a história do município: a historiadora e Diretora de Patrimônio Histórico e Museológico, Sueli Maria Vanzuita Petry.
Apesar de não ser blumenauense de nascença – Sueli nasceu em Indaial e se criou em Gaspar – foi em 1974, quando fazia mestrado em História na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que a curiosidade fez com que ela se aproximasse da história de Blumenau. Acompanhe a entrevista e conheça um pouco mais sobre a história da cidade.
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Historiadora e Diretora de Patrimônio Histórico Museológico de Blumenau, Sueli Petry – Foto: Raquel Bauer/NDPortal ND+: A senhora é natural de Indaial. Como surgiu seu interesse pela história de Blumenau?
Sueli Petry: Em Indaial eu vivi apenas três anos. Meu pai era ferroviário e foi nomeado como chefe de estação de trem de Gaspar quando, em 1954, foi feita a ligação Blumenau-Itajaí. Ele ficou administrando essa estação e a minha infância toda foi em Gaspar. Eu sou mais gasparense do que indaialense. Porém, quando a ferrovia fechou, ele foi transferido para Joinville e eu fiquei, porque eu já estava trabalhando em Blumenau, estudando em Itajaí, fazendo meu curso de História. Quando eu concluí a faculdade, eu fui fazer meu mestrado em Florianópolis. Na finalização desse curso nós precisávamos fazer um trabalho de conclusão de curso e, justamente no 2 de setembro, eu sempre via desfilar as sociedades de atiradores. Essas sociedades de atiradores me encantavam pela características, aquelas pessoas que vinham do interior. O desfile era bem diferente dos de hoje, era somente sociedade de atiradores, eles vinham em blocos grandes, pessoas muito simples, humildes, mas com uma alegria, um garbo no desfilar e eu perguntava para as pessoas o que era e ninguém sabia me dizer. Isso me despertou o interesse em estudar esse assunto como objeto de pesquisa. Assim nasce o meu envolvimento com a história de Blumenau.
Portal ND+: Qual parte da história de Blumenau que a senhora mais gosta?
Suely Petry: Blumenau nos encanta em todos os aspectos, tem uma história muito rica e com muito ainda por fazer. Nós tivemos sempre aquela história oficial, mas a medida que eu fui me aprofundando, vendo as nuances, os bastidores, como a história como foi construída, eu percebi uma ausência, que é a presença das mulheres na construção da cidade. Elas são as grandes construtoras, também, da cidade. O que mais me encanta é justamente esse lado, da participação das mulheres na nossa Blumenau na economia, na vida artística, na vida cultural, na vida social, enfim.
Portal ND+: Pode citar um exemplo dessa participação das mulheres?
Sueli Petry: O nosso teatro [Carlos Gomes] foi fundado em 1860 com a liderança de uma mulher, a Rose Gaertner. Uma mulher que, para a época, século 19, estava a frente do seu tempo. Uma mulher que veio para cá e que iniciou um projeto que até hoje Blumenau se orgulha… de ter o seu teatro, de estarmos sempre envolvidos culturalmente com essas áreas. A filha da Rose, a Edith Gaertner, também tem uma participação muito importante na nossa história. Apesar de toda a vivência dela ser na Alemanha, ela tem uma participação muito grande na história da cidade porque a sensibilidade da preservação, da memória, do patrimônio cultural veio dela. Ela doou para o município toda aquela área que hoje envolve o complexo do museu da Família Colonial. Isso aconteceu na década de 50, quando Blumenau completou seu centenário. Ela já era uma visionária no sentido de preservar essa memória. Ela não tinha filhos, não casou, não deixa herdeiros, ela até teria herdeiros, uma prima que, inclusive, quando a Edith fez essa doação, essa prima entrou na justiça contra ela julgando que ela estivesse louca por estar doando as terras ao município. Hoje nós temos essa área preservada que nós chamamos de patrimônio histórico da cidade.
Rose e Edith Gaertner. – Foto: Arquivo Histórico José Ferreira da Silva/NDPortal ND+: Acha que o Dr. Blumenau teria orgulho do que se transformou a cidade que ele iniciou?
Sueli Petry: O Blumenau tinha um sonho que era formar esse núcleo de colonização. Jamais ele imaginaria que chegaria ao ponto em que estamos hoje. É evidente que seria um orgulho muito grande. Ele também veria que toda aquela estresse, porque Blumenau foi um homem que estava sempre estressado para dar conta da cidade, da colônia na época, de cumprir com os seus compromissos, as cobranças dos colonos eram muito grandes, então ele era realmente uma pessoa muito preocupada, e ver que essa preocupação se transforma em uma grande realidade é motivo dele estar muito satisfeito.
Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, fundador de Blumenau. – Foto: Raquel Bauer/NDPortal ND+: A senhora considera que Blumenau está preservando bem a sua história?
Sueli Petry: Temos muito a preservar. Muitos de nós vamos para Europa para ver como era a Europa de 200/300 anos atrás. Nós temos só 172 anos e as nossas referências em relação a história da cidade são tão poucas. Nós temos que ter referenciais para que os futuros descendentes dessa cidade, os futuros continuadores dessa história, sintam aquilo que os nossos antepassados deixaram esse legado para nós, para que tenhamos essa responsabilidade de preservar. Nós temos que ter as referências de quem somos e para onde vamos. Se não tivermos essa referência, que sentimento nós temos, qual é a nossa pertence em relação a Blumenau?