Leonardo Neves de Albuquerque tinha 16 anos quando os pais, a funcionária pública Bianca Neves de Albuquerque e o dentista Fernando Mendes de Albuquerque, mais o irmão caçula, Bruno, foram encontrá-lo no Canadá, no final do intercâmbio do segundo ano do ensino médio.
Ao visitarem pontos turísticos, foi no famoso Butchart Gardens – um dos jardins mais lindos do país – que veio a inspiração para escrever uma ficção sobre personagens extraordinários, resultando na publicação do primeiro volume de “As Crônicas de Eredhen”, em 2018.
Agora, com 23 anos, o advogado formado pela Faculdade Cesusc em 2020 e atuante no direito administrativo (licitações e contratos públicos) lança no dia 26 de maio, às 19h, na Livrarias Catarinense do Beiramar Shopping, em Florianópolis, a trilogia completa com mais de mil páginas, pela editora Schoba.
SeguirEm setembro, ele iniciará o curso de mestrado sobre propriedade intelectual na UCL (University College London), na Inglaterra, com duração de um ano, tempo que dividirá entre os estudos e a criação de uma nova obra literária.
Escritor e advogado Leonardo Neves de Albuquerque – Foto: Rudi Bodanese/Divulgação/NDNas tuas lembranças mais remotas, o que lias quando eras pequeno? O que te interessava ler?
Minha primeira lembrança envolvendo a leitura remonta à época em que eu colecionava os gibis da Turma da Mônica. Meu pai costumava comprá-los para mim nas bancas de revista toda semana. Apesar de o Cebolinha falar “elado” e de os gibis terem mais imagens que palavras, a leitura era gostosa e serviu de introdução ao universo das histórias.
Logo segui para adaptações infantis de clássicos da literatura mundial (como “Vinte Mil Léguas Submarinas”, “Drácula”, “Ilíada”) e para quadrinhos de super-heróis. Desde pequeno, os gêneros que mais me interessavam eram a fantasia e o mistério.
Eras aquela criança que trocava brincadeiras na rua ou games por algumas horas de leitura?
Na verdade, não. Eu passava boa parte do meu tempo livre brincando com amigos, com meus brinquedos e nos videogames. Mas acho que todas essas atividades serviram, cada qual da sua forma, para desenvolver minha paixão por conhecer e contar histórias.
Por exemplo: as brincadeiras com os meus amigos eram sempre faz de conta; inventávamos novas personalidades, imaginávamos mundos inteiros no parquinho de casa.
Meus brinquedos, por sua vez, eram personagens de narrativas elaboradas que envolviam desde bonecos Max Steel até carrinhos Hot Wheels. E os videogames me apresentaram conceitos que até hoje estão comigo (God of War, baseado na mitologia grega, é o melhor exemplo). Sempre gostei de ler, mas sinto que minha paixão por histórias se desenvolveu também fora das páginas.
Dois últimos volumes de “As Crônicas de Eredhen” foram finalizados durante a pandemia – Foto: Rudi Bodanese/Divulgação/NDComo começou o interesse pelas palavras?
O interesse pelas palavras sempre existiu, fossem escritas ou faladas. O ato de colocá-las no papel, no entanto, só veio quando conheci Sherlock Holmes. As tramas de sir Arthur Conan Doyle me inspiraram a escrever minhas próprias histórias de detetive. Como eu era muito novo (acho que não tinha nem 10 anos), os contos não passavam de uma página.
Meus pais gostavam muito e sempre incentivavam a produção. Até mostravam para amigos e visitas, o que me deixava ainda mais ansioso para escrever mais. Até tentei escrever sobre uma das brincadeiras faz de conta dos meus amigos, sobre monstros e zumbis.
Cheguei longe (mais de 40 páginas) e mostrei para a minha professora de redação do colégio. Não sei se ela chegou a ler, mas foi um marco na minha trajetória como escritor. Depois disso as coisas foram evoluindo.
Para escrever bem textos literários é necessário ler bons autores. Entre nacionais e estrangeiros, cite alguns que mais gostaste.
Minhas inspirações são tantas que fica difícil resumir. Acho que, quando jovem, sempre fugi da literatura nacional em razão da forma como a escola a trata. Nunca foi algo prazeroso, sempre partiu de um senso de dever, de compromisso. Isso me afastou de obras fantásticas que só tive o prazer de ler anos depois, quando já era mais velho.
Mas alguns dos autores brasileiros que me encantam são Paulo Coelho, Machado de Assis, Jorge Amado e Pedro Bandeira. Ainda na língua portuguesa, eu não poderia deixar de mencionar José Saramago, embora seu estilo louco de escrever às vezes me dê nos nervos.
Os estrangeiros, tenho de admitir, moldaram minha experiência literária. Desde JK Rowling, Tolkien e Rick Riordan até Agatha Christie, Stephen King, John Green e Harper Lee (esta última, inclusive, escreveu o meu romance favorito: “O Sol É Para Todos”). Um nome com o qual me deparei mais recentemente, mas que merece igual destaque, é Brandon Sanderson, talvez o maior escritor de fantasia da atualidade.
“Quanto mais se lê, mais fácil a atividade se torna – e, arrisco-me a dizer, mais prazerosa”
Como vês a relação da juventude com a leitura na era digital?
Para mim, o grande mal da nova geração (e me incluo nela sem receio) é o imediatismo. A velocidade com que o conteúdo chega e é consumido vem aumentando exponencialmente. Como consequência, tarefas que exigem maior concentração (ou attention span, no inglês), como ler um livro, acabam se tornando pesadas demais. Isso explicaria a preferência dos jovens por séries e vídeos a livros.
A meu ver, é uma questão de treinamento. Ninguém nasce sabendo ler e escrever; são habilidades adquiridas e aprimoradas dia após dia. Quanto mais se lê, mais fácil a atividade se torna – e, arrisco-me a dizer, mais prazerosa, embora eu seja suspeito.
Basta que os jovens tratem de intercalar esse lazer imediato – TikTok, Instagram e afins – com uma atividade que recompense um maior investimento de tempo, como bons livros. É uma questão de equilíbrio.
Até porque não há como negar os efeitos positivos da era digital no âmbito da literatura. Cada vez mais as pessoas têm acesso a obras de domínio público graças à ubiquidade dos aparelhos digitais. A recomendação de livros se tornou ainda mais fácil com correntes de aplicativos e influencers que se dedicam a indicar boas leituras para os seus seguidores.
O próprio Kindle é uma maravilha moderna. Existe mérito no avanço tecnológico, especialmente para a literatura. O que precisamos fazer é focar mais no lado benéfico para compensar o nocivo.
O primeiro volume de “As Crônicas de Eredhen” foi publicado em 2018, e os dois seguintes saem agora. Como foi a repercussão na época?
Foi muito boa. O evento de lançamento foi grande e as vendas bateram recordes. Ouvi coisas muito positivas dos leitores. Foi um momento bem feliz.
O primeiro volume da trilogia, “Draconis”, foi publicado pela editora Novo Século. Os seguintes, “Virgo” e “Circinus”, foram finalizados já durante a pandemia, o que impossibilitava um lançamento presencial.
Por isso os publicamos com a editora Schoba, para que o trabalho estivesse em condições de ser lançado quando a situação amainasse. Agora resolvemos fazer uma nova edição do primeiro volume, com uma nova capa e texto atualizado, também pela Schoba, e lançar a trilogia toda.
Lançamento da trilogia completa será no dia 26 de maio – Foto: Rudi Bodanese/Divulgação/NDAntes de escrever, já tens a história pronta na cabeça ou a deixas criar vida própria para definir um final lá na frente?
Um pouco dos dois. George RR Martin, escritor de “As Crônicas de Gelo e Fogo” (popularmente conhecidas como “Game of Thrones”), disse que os escritores se dividem em dois grupos: os jardineiros e os arquitetos.
O primeiro planta uma sementinha e a deixa crescer sem maiores preocupações. Já o segundo planeja toda a obra e prevê cada detalhe. É um bom sistema de classificação, apesar do maniqueísmo.
Me situo num meio-termo: gosto de ter a história planejada, nem que seja apenas um esboço dos pontos principais, e desenvolvê-la a partir desse fundamento.
Não consigo simplesmente planejar cada ponto e vírgula, tampouco deixá-la correr solta. Em resumo, acho bom conhecer a história que se busca contar, mas é sempre bom deixar espaço para ela tomar o seu próprio rumo.
É plausível que no futuro arrisques um gênero diferente da ficção?
Com certeza. Gosto muito de estudar ciência política, história e filosofia. Divido minhas leituras entre ficção e esses gêneros mais técnicos. Desse gosto nasce aquela vontade de produzir algo próprio, de apresentar o meu ponto de vista. É uma ideia empolgante e intimidadora. Não sei quando, mas sei que vou encará-la.
“…escrever todo dia é uma ótima ferramenta”
Temos advogados brilhantes que também são autores literários reconhecidos, como Péricles Prade. A prática da leitura/escrita literária te ajuda a ter desenvoltura no exercício da advocacia, e vice-versa, já que ambos tem por finalidade a persuasão, o convencimento?
Sempre ouvi que um dos requisitos para estudar direito era gostar de ler. Logo no início do curso descobri que isso é verdade. O principal meio pelo qual o direito se concretiza é a palavra escrita, seja nas leis ou na forma como os operadores as interpretam e aplicam.
Os livros também são assim, já que dependem do ânimo do escritor e do entendimento do leitor. Mas há outro denominador comum: a comunicação. Os advogados buscam se comunicar de forma clara, coerente e persuasiva – não muito diferente de um escritor de ficção.
Nesse ponto, sinto que escrever todo dia é uma ótima ferramenta. Além de constante, a melhor escrita, para livros ou petições, é aquela que melhor transmite a quem lê o que o autor quer dizer. Essa valiosa lição veio também do dr. Joel de Menezes Niebuhr, grande advogado e escritor com quem tenho o prazer de trabalhar todo dia.
Também me espelho em Péricles Prade por todo o seu trabalho como ficcionista e operador do direito. Os últimos anos me mostraram que a minha experiência jurídica e as minhas incursões literárias se complementam e se aprimoram paralelamente.
Tem-se a impressão que advogados, quando se manifestam formalmente, dizem apenas o necessário. Esta postura profissional gerou algum conflito ou prendimento na hora de escrever o livro?
Os advogados costumam se ater à questão jurídica em análise. Por isso é tão importante que a sua comunicação (até mesmo verbal) seja direta e concisa.
Aqui sinto que a literatura confere mais abertura e liberdade ao autor. Perdi a conta de quantas vezes uma linha narrativa de um dos meus livros me levou em direções diferentes das que eu havia planejado. A história se desenrola de forma quase orgânica, com vida própria, o que tende a acrescentar à trama.
A escrita jurídica, por outro lado, não se beneficia disso. É preferível ser objetivo e ater-se ao ponto. Talvez venha daí a sua impressão. Mas para mim nunca foi um problema; na verdade, gosto muito e acho estimulante a tarefa de escrever de formas diferentes de acordo com a natureza do texto. É um exercício intelectual muito bem-vindo.
Em setembro, Leonardo iniciará o curso de mestrado em Londres – Foto: Rudi Bodanese/Divulgação/NDDizes que escrever é uma forma de viver outras vidas. Que vidas querias viver?
Toda aquela que não encontro na realidade. A literatura (e aqui, mais especificamente, a fantasia) me permite vivenciar situações impossíveis no nosso conceito de mundo. É uma forma de dar vida a sonhos, de experimentar ideias ousadas e escapar das regras do cotidiano.
Por exemplo: acho empolgante ler sobre um mundo mágico em que existe uma escola de magia e um lorde das trevas. Também me soa maravilhosa a ideia de ser um semideus descendente dos olimpianos. É óbvio que isso jamais aconteceria na vida real.
Para sintetizar o sentimento, sempre recorro ao diálogo entre Harry e o grande Alvo Dumbledore:
“-Professor, isso é real, ou está acontecendo somente na minha mente?
-É claro que está acontecendo na sua mente, Harry, mas por que isso significa que não é real?”