Ao contrário de Benjamin Button, aquele neném que nasceu velhinho e morreu criança, já nasci florianopolitano de 349 anos – e, como Floripa, nem penso em morrer. Todo mundo se queixa da vida que corre nos dias de hoje – com o excesso de gente pelas ruas e pelos shoppings.
Mas já foi bem pior, nos tempos em que os velhos carros se obrigavam a rodar sobre ruas e estradas. O aeromóvel transferiu o problema para o espaço ionosférico: todo mundo tem um carro ou uma motoca doar. E as colisões acontecem, com considerável número de vítimas, principalmente durante os chamados “feriadões”- nos quais todo mundo descansa de não fazer nada.
A Ponte Hercílio Luz é um dos principais atrativos de Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDA duração da vida humana foi substancialmente prolongada depois que um médico catarinense descobriu, em 2050, a vacina genérica contra o câncer, com base na célula-tronco anti-metástase. Com isso, tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar um Prêmio Nobel.
SeguirO principal evento esportivo da cidade é a “Maratona dos Centenários”, que todos os anos celebra a abolição da velhice. Os estragos que hoje chamamos “decrepitude” foram eliminados pela pílula da vida eterna, que previne a degradação biológica.Florianópolis é hoje uma metrópole de três milhões de habitantes, 60% dos quais octogenários,que ainda correm pelas novas alamedas das avenidas “beira-mar”, na Ilha e no Continente.
A nova sociedade extinguiu a família, como se concebia antigamente: já não se celebram casamentos, filhos ou bodas de envelhecimento. Ninguém aguenta mais a mesma pessoa por mais de um século. Desse tempo antigo, restaram arquivos fotográficos já amarelecidos, especialmente num estúdio do Centro da cidade, tombado pelo Patrimônio Artístico e Social.
As fotos, assinadas por um certo W. Anacleto, revelam vários desses velhos grupos sociais em determinado momento de suas vidas- um momento feliz, pois todos aparecem sorrindo. Com a evolução dos sistemas de computador, capazes de administrar serviços governamentais, aboliram-se as casas representativas e os ditos “representantes”, que desempenhavam mandatos de governador ou de prefeito.
Acabaram-se os partidos políticos e os cidadãos mais proeminentes estudam “Ciência da Administração”, apenas para acompanhar o desempenho dos “Cyborghs Públicos”,o grupo de computadores encarregados da gestão pública.
Com o fim da corrupção, todos pagam os seus impostos e poucos se queixam das soluções cibernéticas. A semana de trabalho é de apenas três dias e a maioria absoluta da população trabalha em casa,desde a pandemia dos anos 2020,quando a sociedade passou a usar somente o computador e abandonou a chamada “organização do trabalho”.
A vida noturna é verdadeiramente feérica. Para saudosistas como eu, há os “AAS” – ou“Armazéns Arqueológicos do Som”, onde se pode lembrar e ouvir os ritmos antigos, como o “Rock”. São muito bem lembrados o “Rock Around the Clock” -relíquia cantada por Bill Halley – e o video clip “Papa don’t Preach”, daquela sempre conservada Madonna, ainda hoje por aí, com o seu muque de músculos rajados aos 103 anos.
A eucaristia do belo, contudo, continua a abençoar este recanto “de terras e águas”, que é dos mais belos que o olho humano já viu. Ali de Itaguaçu, por exemplo, ainda é possível enxergar se o Cambirela em toda a sua vertical imponência.
O gigante continua deitado em berço esplêndido – a cabeça, o tronco, as pernas. O seu perfil azulado continua dando vida à montanha, como se a qualquer momento ele fosse atender ao brado do “Grande Escultor”:- Levanta-te e anda!