Há 40 anos, iniciou aquele que é, atualmente, o maior festival de dança do mundo. Diretamente de Joinville, a 1ª edição do evento, que estreou em julho de 1983, foi marcada pelo tempo frio e a chuva, mas também pelo calor vindo dos moradores da cidade do Norte catarinense.
Ballet Nella Hasner na 1ª edição do Festival de Dança de Joinville, em 1983 – Foto: Festival de Dança de Joinville/DivulgaçãoApesar de não ter sido uma das cidades atingidas pela enchente, a primeira edição do festival em Joinville ocorreu debaixo de chuva, em uma época de frio forte. Foram os trabalhos voluntários, a recepção dos joinvilenses e a solidariedade que aqueceram o festival. “A chuva realmente atrapalhou um pouco, mas não impediu que fosse um sucesso a primeira edição na Harmonia Lyra”, lembra.
O pontapé inicial para a realização do festival foi dado pela produtora cultural Albertina Tuma. Diretora da Casa da Cultura, Albertina já realizava inúmeros outros eventos artísticos, principalmente na área da cerâmica, porcelanato, artesanato e música, até que foi provocada a fazer um evento focado somente na dança. “Eu sonhei alto. Vamos fazer um festival’”, lembra.
Albertina Tuma foi uma das principais idealizadoras do Festival de Dança – Foto: André Kopsch/DivulgaçãoAssim surgiu o Festival de Dança de Joinville, que reuniu na cidade 600 bailarinos de 47 grupos vindos de diversas partes do Brasil, desde o Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Santa Catarina.
Foi naquele mesmo ano que várias cidades catarinenses foram atingidas por fortes enchentes. Albertina relembra que vários dançarinos premiados no festival decidiram destinar sua premiação a ajudar os atingidos.
A cidade abraçou o festival, que já fez números impressionantes na primeira edição. Albertina recorda que, em um dos dias de evento, a quadra ao redor da Harmonya Lyra tinha filas de pessoas. “A capacidade da Lyra era de 700, 800 lugares. Aquele dia tinha mais de 1.300 pessoas. O povo aceitou tão bem, eram muitos aplausos, uns batiam com o pé, era uma coisa incrível”, conta.
Recepção dos bailarinos
O festival envolveu a cidade de Joinville. Cecília Kerche, famosa bailarina que participa do festival desde a década de 1980, lembra de ver Joinville toda decorada com a temática da dança, das vitrines das lojas aos restaurantes e hotéis. O calor dos moradores emanava.
“Surpresa muito grande, não imagina o sucesso tão grande, unindo o Brasil todo, numa cidade pequena, que nunca tinha ouvido falar. A cidade abraçou a Albertina e o festival. Ela foi uma guerreira [de fazer o festival”, comenta Cecília.
Para receber os bailarinos que vinham de todos os lugares do Brasil, Albertina conta que a equipe digitava na máquina de escrever uma cartilha com um guia dos principais endereços da cidade. “Tudo o que um bailarino precisava”, diz. Junto, os bailarinos recebiam na recepção uma sapatilha de chocolate.
A rede hoteleira, na época, não era tão grande e não abrigava todo mundo que chegava na cidade. Durante anos, foram os moradores que abriram suas portas e recebiam em suas casas os bailarinos. Além disso, durante as férias de julho, as escolas tornaram-se grandes alojamentos.
“Joinville abriu suas casas para receber estes ilustres visitantes. As escolas faziam almoço, churrasco, era confraternização, surgiu namoro, casamento, amizades até hoje”, lembra Albertina.
Cecília também recorda destes momentos. Ela conta que, em um dos seus primeiros anos, sua irmã ficou com a escola em um alojamento. Cecília era bailarina convidada e foi hospedada em um hotel, sendo assim, durante uma visita na escola onde a irmã estava, ficou sem transporte e acabou ganhando uma carona de uma viatura da polícia.
“Cheguei a pegar carona com carro de polícia para chegar até o hotel. A cidade toda era envolvida. Todo mundo sabia as atrações, os nomes que viriam, as escolas. Era uma coisa mágica o festival”, recorda a bailarina.
Cecília Kerche em O Lago dos Cisnes em 2008. Apresentação ocorreu por meio do Teatro Municipal do Rio de Janeiro – Foto: Reprodução dos livros “15 anos de Dança” e “Palco da Consagração”Nem tudo são flores
Para o festival crescer, porém, a produção chegou a passar por algumas dificuldades. Na época, lembra Albertina, a Prefeitura de Joinville ofereceu toda a estrutura para o evento. Mas, faltava patrocínio para conseguir receber os bailarinos, trazer companhias internacionais, fazer o nome do evento que, anos depois, tornou-se o maior do mundo no segmento.
Na busca por patrocínios, Albertina com a equipe organizadora do evento e alguns bailarinos chegaram a ir até as fábricas da cidade com palcos improvisados para dar “um gostinho” do que seria o festival. Numa dessas, Ana Botafogo chegou a dançar dentro de uma grande metalurgia de Joinville, conta Albertina.
Palco nas fábricas – Foto: Reprodução dos livros “15 anos de Dança” e “Palco da Consagração”“Até se tornar conhecido, foi duro mostrar que era um evento que veio pra ficar”, lembra Albertina. Aos poucos, os patrocínios foram conquistados e grandes empresas passaram a colaborar com o festival.
Edições seguintes
Albertina Tuma durante a 5ª edição do evento – Foto: Reprodução dos livros “15 anos de Dança” e “Palco da Consagração”Enquanto Albertina esteve à frente do festival, foi dado início a atividades que seguem até hoje na programação do evento, como a famosa Feira da Sapatilha. Suas primeiras edições foram realizadas na Casa da Cultura e a estrutura era montada com as carteiras disponíveis na instituição. Hoje, a atividade ocupa quase todo o Expocentro Edmundo Doubrawa. A noite de gala e dos campeões também vem dos primeiros anos do evento.
Cecília, inclusive, se apresentou como bailarina convidada por 20 anos do festival. “É um marco na carreira, antes e depois do Festival possibilitou o Brasil todo me conhecer. Várias escolas com seus alunos me conheceram e seguiram minha carreira mais de perto, ansiosos para que a cada ano eu voltasse ao festival. Sou muito grata, expandiu a visibilidade no país”, cita a bailarina. Além de dançar no festival, Cecília já foi jurada e conselheira, tendo participado ativamente na sua construção.
Além dos grupos brasileiros, a partir da 6ª edição, o festival passou a ser também internacional, com bailarinos e grupos dos Estados Unidos, Suíça, Cuba, Argentina, Chile, Venezuela e Portugal. “O festival foi crescendo assustadoramente, projetando Joinville mundialmente”, destaca Albertina.
Grupo Dorcinha, no 13º Festival de Dança de Joinville, realizado em 1995 – Vídeo: Festival de Dança de Joinville/Divulgação
Momentos inesquecíveis
Para Albertina, que trabalhou no festival até sua 12ª edição, entre os momentos inesquecíveis estava a apresentação de Cecília Kerche. “Foi algo maravilhoso [a vinda dela]. Fez apresentações maravilhosas no Ivan Rodrigues, da plateia pedir biz, fazer uma ovação”, lembra.
A produtora de eventos também lembra da importância dos palcos na rua. Lembra da Praça da Bandeira chegar a reunir 15 mil pessoas em uma apresentação. O bailarino Carlinhos de Jesus reuniu 5 mil espectadores na Praça Nereu Ramos.
Carlinhos de Jesus na Praça Nereu Ramos – Foto: Amir Sfaier Filho/Reprodução dos livros “15 anos de Dança” e “Palco da Consagração”Com os olhos cheios de lágrimas, Albertina lembra do espetáculo “Lamento dos Escravos”, que uniu pessoas do Kênia Clube de Joinville o Grupo Raça, importante equipe de dança. “Quem viu, quem estava lá, jamais vai esquecer este momento. Foi emocionante.”
Maior festival de dança do mundo
Em 2005, o festival foi eleito o maior do mundo pelo Guiness Book, o livro dos recordes, após reunir 4 mil bailarinos no evento. Neste ano, espera-se 10 mil bailarinos. Em 2022, o público superou 200 mil visitantes, considerando todos os palcos e atrações do evento.
Em 2005, o festival foi eleito o maior do mundo pelo livro dos recordes, o Guinness Book, após reunir 4 mil bailarinos no evento. Em 2022, o público superou 200 mil visitantes, considerando todos os palcos e atrações do evento. Neste ano, espera-se 10 mil bailarinos.
“A gente deu muito da gente. Tudo no começo, não vou dizer que não foi amador, mas esse carinho de receber as pessoas tirou do eixo Rio-São Paulo os grandes festivais e Joinville passou a ser a grande vitrine da dança”, destaca Albertina.
Atualmente, o evento é organizado pelo Instituto Festival de Dança de Joinville. A 40ª edição ocorre entre os dias 17 e 29 de julho.