O mar sempre atraiu Narbal Corrêa. Pescador, mergulhador e pesquisador em arqueologia subaquática, ele é um dos chef de cozinha mais prestigiados de Florianópolis. Após muitas pesquisas incentivadas pela curiosidade de descobrir os porquês sobre os alimentos, o chef manezinho entrega ao público um novo livro que desvenda a história da culinária na Ilha de Santa Catarina.
“Desde pequeno sempre fui muito curioso. Queria saber a origem da gastronomia. Eu ouvia as pessoas falarem que laranja, alho e cebola vieram da Ásia e eu me perguntava: mas como isso chegava aqui? Sabia que tinha sido pelos navegantes, claro, e ficava cada vez mais curioso. Então comecei a fazer pesquisa, primeiro arqueológica, relatos dos navegantes e virava a noite estudando, pesquisando na hemeroteca”, conta o autor.
Há dois anos, em uma viagem de barco para a Antártida, ele levou um vasto material bibliográfico na mala para aproveitar o tempo e passar da cabeça para o papel o livro “que já estava quase pronto”.
SeguirQuando Narbal chegou ao século 16 em sua pesquisa, pensou em convidar um amigo historiador para ajudá-lo. Foi então que Amílcar D’Ávila de Mello entrou no projeto.
“Era para ser um livro pequeno com os meus relatos e acabou se transformando em uma grande obra sobre a culinária de Florianópolis”, comenta Narbal.
Desde o homem do sambaqui
Desde os primeiros vestígios de ocupação da Ilha de Santa Catarina, do homem do sambaqui, os guaranis, os espanhóis até os açorianos, Narbal e Amílcar desvendam a origem dos alimentos da época.
As dificuldades, como se supõem, eram muitas, mas a riqueza natural era ainda maior e supriu as necessidades dos primeiros ilhéus. Era preciso se virar com o que tinha.
Narbal Corrêa é também pescador, mergulhador e pesquisador – Foto: Divulgação/NDO livro, recém-impresso, é bilíngue (português e inglês) tem o prefácio do jornalista e historiador Eduardo Bueno, autor de uma série sobre a história do Brasil.
“Que dupla auspiciosa é essa que brotou do alvissareiro encontro entre Narbal Côrrea e Amílcar D´Avila de Mello. Pois se um mergulha no mar e nos temperos, o outro se deixa imergir profusa e profundamente na história, a ponto de ter escrito o melhor livro que já li sobre os primórdios de Santa Catarina, relato vetusto e obsessivo no qual o período que me levou a estudar e a escrever sobre história do Brasil vem escrupulosamente descrito, sem perder o ritmo da aventura”, escreve Bueno.
Atualmente o chef Narbal atua como consultor em dois restaurantes em Balneário Camboriú e no Morro de São Paulo, na Bahia, de onde conversou com o ND.
Receitas adaptadas
‘E vem do mar – Breve história dos alimentos e da culinária na Ilha de Santa Catarina’ é o segundo livro de Narbal Corrêa. No primeiro, ‘A cozinha do bom pescador’, lançado em 2012, antes de ensinar todos os passos de como preparar frutos do mar, o chef contou como se interessou pela cozinha, pela pesca e pela arqueologia subaquática.
Na nova obra, além de trazer a história dos alimentos florianopolitanos, Narbal surpreende apresentando receitas feitas com os ingredientes pesquisados.
“Como na pré-história que não tinha sal, eu usei metade água do mar metade água fresca, adaptei sempre usando os produtos disponíveis à época para executar uma receita. Os primeiros ocupantes, o homens de sambaqui, tinha poucos recursos. Tinha poucos alimentos e equipamentos (para usar no preparo)”, conta o chef atemporal.
Uma receita que o chef Narbal acredita que pode ter sido preparada pelos primeiros ocupantes da Ilha é o peixe assado na fogueira. O pescado era enrolado na folha de taioba e levado ao fogo. No livro, o pescador-cozinheiro ensina como fazer a receita pré-histórica e também como adaptá-la para os dias atuais.
Controvérsias desfeitas
A dúvida de Narbal sobre a afirmação de que a base da culinária da Ilha de Santa Catarina é açoriana foi o que motivou a pesquisa.
“Sempre ouvi falar sobre isto e eu não concordo. Então quis criar uma definição e a gente fez isso no livro. A cozinha de Florianópolis recebeu influências de indígenas, portugueses, africanos e foi formatada por mãos açorianas. Eles (os açorianos) se adaptaram com a ajuda dos locais que apresentaram a eles a mandioca, que eles não conheciam”, afirma.
O autor esteve nos Açores, onde conheceu a culinária e constatou que lá é muito diferente de cá.
“Eu vi que os produtos são diferentes. Aqui não temos os peixes que têm lá, assim como eles não têm mexilhão nem ostra. A única coisa que tem parecida com a nossa cozinha é o cozido, apesar de que o deles é monocromático e o nosso é colorido, mais bonito”, garante.
Livro E vem do mar é bilíngue – Foto: Reprodução/NDServiço
- Livro: E vem do mar – Breves história dos alimentos e da culinária na Ilha de Santa Catarina
- Autores: Amílcar D’Ávila de Mello e Narbal Côrrea
- Editora: Lilás Editora
- Distribuição gratuita