O povo sobressaltado corria de diferentes pontos ao lugar do sinistro; as autoridades desde o Excelentíssimo Presidente, os empregados civis e militares acudiram igualmente, e em menos de 5 minutos via-se próximo ao edifício abatido mais de mil pessoas! (O Despertador, 27 de abril de 1866)
Quem olha hoje o imponente prédio neoclássico da Alfândega, localizado no Centro Histórico de Florianópolis, não imagina a história de terror que envolve a edificação que antecedeu a atual.
Casa da Alfândega em 1890 – Foto: Acervo Casa da Memória/NDA narrativa repleta de enigmas foi contada pelo projeto “Histórias do Patrimônio” produzido pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura). A iniciativa traz histórias e curiosidades sobre os patrimônios que abrigam os espaços culturais administrados pela fundação.
SeguirO primeiro prédio da Alfândega ficava onde hoje é a esquina da rua Conselheiro Mafra com a Praça 15 de Novembro, próximo à Praça Fernando Machado. O prédio explodiu misteriosamente, por volta das 7h do dia 24 de abril de 1866 e “estremeceu” a cidade.
Fragmentos do prédio voaram centenas de metros. Até o presidente da província, que morava onde fica o atual Palácio Cruz e Sousa, desceu à praça assustado com o som estrondoso do evento.
Jornais da época narram com detalhes o ocorrido que, até os dias atuais, não tem uma explicação definida.
O trecho da edição nº 342 do jornal desterrense “O Despertador”, impressa no dia 27 de abril de 1866, descreve o acontecimento em sua primeira página como um “desastre horrível!”.
“Seriam 7 horas, horrível explosão, originada, por certo, de material inflamável existente na mesma alfândega, fez abater todo o edifício até os alicerces, levando pelos ares grande parte do teto, indo cair a grande distância; a detonação foi tal que fez estremecer os edifícios mesmo os mais distantes da praça; muitas vidraças ficaram inutilizadas. O incêndio manifestou-se imediatamente, e os sinos das igrejas davam sinal dele!”, diz o jornal.
Trecho da nota divulgada no jornal O Despertador – Foto: O Despertador, edição nº 342/Hemeroteca Digital Brasileira/NDDepois da explosão, um incêndio de grandes proporções tomou o prédio. Os bombeiros tiveram a ajuda de navios a vapor, ancorados nas proximidades, para tentar apagar o fogo.
A edição de 9 de junho de 1866 do Jornal do Recife traz as impressões de um correspondente do Jornal do Commercio, na então Desterro, sobre a explosão.
O texto traz algumas especulações “de toda a sorte” acerca do que teria causado o incêndio.
“Uns precisam já a quantidade de barris de pólvora, quando não existe dado algum para se crer que ali havia pólvora, a não ser o da explosão; outros vão mais longe e dizem que houve propósito, sendo semelhante catástrofe o resultado de um crime premeditado”, narra o correspondente.
Ao final da tragédia, 10 pessoas morreram, três foram tiradas dos escombros gravemente feridas e outras 12 foram levadas ao Hospital de Caridade com ferimentos leves, conforme divulgado pelo jornal O Despertador. Dez anos depois, em 29 de julho de 1876, foi inaugurado o prédio atual.
Relação dos mortos no incêndio divulgada pelo jornal O Despertador – Foto: O Despertador, edição nº 342/Hemeroteca Digital Brasileira/NDA Casa da Alfândega
Com mais de 1,3 mil m², o prédio da Alfândega tem dois pisos e foi construído em estilo neoclássico. A nova Alfândega só começou a operar em fevereiro de 1877, após inspeção técnica. As atividades alfandegárias no local duraram mais de 90 anos.
De acordo com a superintendente substituta do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Santa Catarina, Regina Helena Santiago, todo recebimento e controle por parte do governo da chegada de mercadorias na Ilha era feito na Alfândega, por isso, foi construído ao lado do Mercado Público.
As atividades alfandegárias encerraram em 1964 com a decadência e fechamento do porto de Florianópolis.
De lá para cá, o imóvel abrigou alguns espaços culturais, como o Museu Histórico de Santa Catarina e a Galeria do Artesanato, administrada pela FCC. A edificação atual foi tombada em 1975 como patrimônio histórico.
Restauração
Em agosto de 2018, tiveram início as obras de revitalização do Largo da Alfândega com recursos provenientes do Iphan, no âmbito do PAC Cidades Históricas.
Em meados de 2019, a Casa da Alfândega foi incluída no projeto de restauro. Na ocasião, a Galeria do Artesanato, que estava no prédio desde 1988, mudou temporariamente para um casarão no entorno da Praça 15.
No dia 8 de fevereiro de 2020, o Largo da Alfândega foi reaberto ao público unindo o antigo com o moderno e retomando o local como ponto de encontro.
No início de fevereiro deste ano, foi a vez da Casa da Alfândega reabrir as portas. Entre as mudanças na estrutura, estão nova iluminação, rampas de acesso, portas automáticas e climatização.
Casa da Alfândega hoje – Foto: Leo Munhoz/NDNa ala norte, voltou a funcionar a Galeria do Artesanato. A entrada ao público é gratuita e os visitantes pagam apenas se quiserem adquirir uma das 3.700 peças dos 70 expositores de todo o Estado, disponíveis no local.
Além de abrigar a Galeria do Artesanato, a Casa da Alfândega também voltou a ser a sede da superintendência do Iphan em Santa Catarina na ala sul e central.
A Casa da Alfândega havia servido de sede para o Instituto até 2008, quando foi inicialmente identificada a necessidade da obra de restauração.