A notícia da morte do artista, escritor e acadêmico Rodrigo de Haro causou grande impacto na cultura catarinense nesta quinta-feira (1º). Aos 82 anos, o poeta morava em uma casa na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.
“Vai fazer uma falta muito grande”, lamentou o sobrinho, Diogo de Haro. Amigos e entidades culturais de Santa Catarina também se manifestaram sobre a perda, que foi classificada pelo governador do Estado como “imensurável”.
Rodrigo de Haro em registro fotográfico de 2016, na casa onde morava na Lagoa da Conceição, em Florianópolis – Foto: Flavio Tin/Arquivo/NDNascido em Paris, na França, o filho do pintor Martinho de Haro seguiu os passos artísticos do pai e também se tornou um ícone na arte catarinense.
Seguir“Ele já estava com a saúde bem debilitada, tinha um tempo que eu não tinha contato. A falta é muito grande, há muito tempo que sinto a falta dele”, diz Diogo de Haro. Os dois se viram pela última vez ainda em dezembro de 2019, antes da pandemia da Covid-19 que impossibilitou novos encontros.
Pianista, o sobrinho de Rodrigo de Haro lembra que conversava com o tio sobre projetos musicais para realizarem juntos, mas que infelizmente não serão concretizados. “Ele era uma pessoa muito forte, era inspirador estar com ele”, afirma.
O impacto na família é grande, ainda mais depois da morte recente de Gilberto Gerlach, que tinha uma relação próxima. “É um arcabouço cultural que fez parte do nosso convívio familiar, e que faz muita falta nesse momento. A saudade é muito grande”, conclui Diogo de Haro.
O velório de Rodrigo de Haro ocorre nesta sexta-feira (2), e será restrito à família.
Reações de amigos e entidades
Sua grandeza e importância é ressaltada no relato da escritora e amiga Lélia Pereira Nunes. “Ele era grande em tudo, como pessoa, como artista… recebi essa informação com muita tristeza, estamos todos arrasados”, lamentou.
Néri Pedroso, jornalista e integrante da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte) conta que conheceu o artista por intermédio da profissão, em museus e galerias de arte. Ela o descreve como um “homem de forte personalidade e artista que deixa um grande legado em dois campos do saber”.
“Rodrigo era uma imensidão, homem erudito, pesquisador profundo de temas complexos, um pensador, um intelectual – raro de se ver em Santa Catarina. Ao mesmo tempo em que mantinha a mente fervilhante de arte e poesia, com pleno domínio de diferentes técnicas e linguagens, há o lado mosaicista, uma faceta que considero extraordinária porque ele eleva o estatuto do mosaico com um requinte alcançado por poucos. Gosto de lembrar desta dimensão que poucos apontam, talvez por preconceito ou porque hierarquizam modos de fazer e pensar arte – no caso arte pública, aquela que dá acesso a todos, democrática em sua essência”, aponta Néri.
“Rodrigo deixa na cidade trabalhos de mosaico de alto valor simbólico. Tudo o que se falar dele sempre será redutor, porque não alcança com integridade o que ele foi e continuará sendo na história cultural do Estado. Às vezes irascível, quase sempre amoroso e atento, adorava uma boa conversa, porque um curioso a respeito da condição humana, um corajoso na abordagem de alguns temas, alguém com um radar excepcional, captava antes de todos o que estava por vir. Ele projetou Santa Catarina como poucos fizeram. Vai fazer falta!”, relata Néri Pedroso.
O governador do Estado, Carlos Moisés (PSL), utilizou sua conta no Twitter para lamentar a morte do artista.
A perda do grande artista Rodrigo de Haro é imensurável. Seu legado de uma vida dedicada às artes permanecerá em nossas memórias. Que Deus conforte os corações dos familiares e amigos.
— Carlos Moisés (@CarlosMoises) July 1, 2021
A FCC (Fundação Catarinense de Cultura) também emitiu uma nota de pesar sobre o falecimento de Rodrigo de Haro.
“A Fundação Catarinense de Cultura lamenta profundamente a perda do renomado artista Rodrigo de Haro, aos 82 anos, ocorrida nesta quinta-feira (1º)”, diz a nota, que finaliza com destaque a “trajetória dedicada às artes visuais, literatura, teatro, música e cinema, compondo uma personalidade única, forte e instigante” do artista.
A historiadora, produtora cultural e ex-presidente da FCC, Ana Lúcia Coutinho, também lamentou a perda. “É com extrema tristeza que recebo a notícia da morte de Rodrigo de Haro. A arte catarinense perde uma pessoa ímpar. Estamos de luto. Rodrigo nos deixa um legado incrível fruto da sua exigência interior. Viva a sua arte”, afirmou.
O colunista do Grupo ND e integrante da Academia Catarinense de Letras, Moacir Pereira, classificou Rodrigo de Haro como um dos artistas mais completos da história de Santa Catarina.
“O falecimento do grande artista Rodrigo de Haro representa uma perda realmente irreparável para o mundo artístico catarinense e brasileiro e a cultura de nosso Estado”, escreveu o jornalista, entre uma série de homenagens.
Sonho que não teve tempo de realizar
“É uma perda inestimável para a arte e cultura catarinenses. Um artista de sensibilidade e criatividade ímpar, que no momento estava finalizando um dos maiores murais da América Latina, em torno da Reitoria. Além de um grande artista, um ser humano maravilhoso, doce e amigo. Deixará um vazio imenso nos nossos corações”, descreve a secretária de Cultura e Arte da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Maria de Lourdes Borges.
A secretária ressalta que o mural, chamado Livro Aberto da América, em torno da Reitoria da UFSC, era uma das grandes aspirações do artista a finalizar.
“É considerado um dos maiores e mais importantes murais da América Latina. Ele tem 440 metros quadrados. Um dos desejos de Rodrigo de Haro, que ele sempre falava, era de que ele não queria ir embora sem finalizar este mural”, diz Borges.
Obras de Rodrigo de Haro
Apesar de nascido na Capital francesa, o artista se criou na Ilha de Santa Catarina. Por anos, dividiu-se entre São Paulo e Florianópolis, o que ajudou a abrir ainda mais espaços para suas obras.
Principais trabalhos:
Trinta poemas. São Paulo: Edição do autor, 1961
Pedra elegíaca. Porto Alegre: Edições Flama, 1971
Amigo da labareda. Poesia. São Paulo: Massao Ohno, 1991
Mistério de Santa Catarina. Florianópolis: Athanor, 1992
Porta. Florianópolis: Athanor, 1992
Naufrágios. Florianópolis: Paralelo 27, 1993
Caliban. Florianópolis: Athanor, 1995
Livro da borboleta verde. Florianópolis: Fenasoft, 1998
Andanças de Antônio. Florianópolis: Insular, 2005
Ofícios secretos. Poesia hermética. Florianópolis: Insular, 2011.
A poesia de Rodrigo de Haro faz referências ao Zodíaco, ao tarô, a videntes em êxtase, a crenças e seitas imemoriais, à sensualidade que seus traços ressaltam em desenhos sem grande ambição formal.
Ao mesmo tempo, se reporta a figuras e paisagens da Ilha de Santa Catarina, personagens que conheceu e lugares rústicos que o progresso escondeu ou apagou de cinco ou seis décadas para cá.
Filho de um dos grandes artistas da história da arte catarinense, teve muita influência de tudo que viveu na casa do pai, Martinho de Haro.