A “farra das passagens aéreas” foi o maior escândalo político desde a redemocratização. Com 560 parlamentares investigados, teve mais alvos do que a Operação Lava Jato e a CPI dos Anões. A diferença é que ninguém foi punido e só uns poucos devolveram o dinheiro.
Essa história faz nova escala, agora em livro, de autoria de quatro experientes jornalistas – Eduardo Militão, Eumano Silva, Lúcio Lambranho e Edson Sardinha – com informações inéditas. Nas asas da Mamata (Matrix Editora, 312 páginas, R$ 62,00) reconstitui e atualiza o caso e já no primeiro capítulo mostra o então deputado federal Jair Bolsonaro e a mulher, Michelle, viajando em lua de mel nas Cataratas do Iguaçu, com passagens pagas pelo Congresso Nacional. Pelo menos foi esta a justificativa apresentada e registrada na prestação de contas à Câmara dos Deputados. Os bilhetes de passagens da TAM custaram pouco mais de R$ 1.700.
Livro “Nas Asas da Mamata” lembra da farra das passagens aéreas no Congresso Nacional – Foto: Divulgação/NDOs abusos praticados por parlamentares com verbas de transporte aéreo, desviadas para turismo de parentes e amigos dentro e fora do Brasil e negociadas em um lucrativo mercado paralelo, proporcionou que dezenas de senadores e deputados gastassem verba pública sem punição.
SeguirA obra mostra como o Ministério Público e o Judiciário falharam na apreciação do caso e revela a lista de quem mais voou para o exterior sem tirar um tostão do bolso ou que cedeu bilhetes para parentes e amigos viajarem.
Números da farra das passagens aéreas entre 2007 e 2009 no Congresso Nacional – Foto: Divulgação/NDUm dos motivos desse escândalo fazer um pouso forçado, segundo os autores, é que Michel Temer criou as regras e, depois, atuou para abafar as punições. Para isso, contou com a ajuda de José Sarney e com a boa vontade de Lula, na ocasião envolvidos na formação da chapa Dilma-Temer, vitoriosa em 2010.
O valor usado para fins particulares ultrapassou os R$ 105 milhões – sequer 1% foi devolvido. Na Câmara, foram gastos R$ 102 milhões (valores corrigidos pela inflação) apenas entre janeiro 2007 e fevereiro de 2009. No Senado, uma amostra limitada de desvios somou outro R$ 1,4 milhão (valores históricos) ou R$ 2,9 milhões (valores corrigidos pela inflação). Só uma ínfima parte foi recuperada: R$ 301 mil (valores históricos), segundo a Câmara, e R$ 786 mil (valores históricos), segundo levantamento dos autores de “Nas asas da mamata”.
Entre os 560 políticos que aproveitaram verbas do Congresso para viajar fora do trabalho estão o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre, e o senador Chico Rodrigues, então vice-líder do governo Bolsonaro flagrado com dinheiro na cueca. Eles citaram que Roseana Sarney foi uma das parlamentares mais difíceis de rastrear, pois ela conseguiu bloqueios judiciais, mas foi constatado que 17 pessoas fizeram turismo a convite dela com o dinheiro público.
Série de reportagens premiada originou o livro
Os autores começaram a investigar o caso em 2008, numa série de reportagens premiada que saiu no site Congresso em Foco no ano seguinte. O livro, porém, começou a ser escrito em 2014. Eles também prometem revelar na publicação como se deram os processos de arquivamento de todas as denúncias feitas no Judiciário sobre o tema.
Lúcio Lambranho revela que a ideia do livro ganhou mais corpo há dois anos, mas ficou ainda mais forte com a entrada de Eumano Silva. Ele coordenou a apuração no Congresso em Foco como chefe e deu texto final e estrutura ao livro. Esse é o terceiro livro de Silva. Os demais autores se consideram marinheiros de primeira viagem.
“O que queremos ressaltar é que só um trabalho em equipe pode dar resultados como esse. Com a série, vencedora do Prêmio Embratel de Jornalismo Investigativo em 2009, e o Esso que o Congresso ganhou no mesmo ano, Senado e Câmara foram obrigados a mudar as regras. Na época, o TCU fez uma conta de que mais de R$ 25 milhões foram economizados desde então.”
Lúcio Lambranho, jornalista e coautor de “Nas Asas da Mamata”
“Desde 2009, quando publicamos a série, já tínhamos a ideia de manter a cobertura sobre o caso sempre permanente. O Congresso em Foco fez uma especial quando a farra completou um ano. Depois, Militão fez várias séries sobre o tema, principalmente sobre os processos na Justiça. Então, foi natural a gente se juntar e reunir tudo no livro”, diz.