A corte do Carnaval de Florianópolis deste ano é composta por três mulheres empoderadas de 24 anos. Além da paixão pela festa popular, todas compartilham a luta pelo reconhecimento da passista como uma figura da cultura, muito além de um corpo bonito.
Rainha e princesas Carnaval Florianópolis 2023 – Foto: Sofia Gonzalez/NDTV Record TV“Existe um estereótipo bem forte da mulher passista sexualizada, e isso a gente vem lutando ao longo de muitas gerações para quebrar”, afirma a Rainha Kamilly Oliveira.
A 1ª e a 2ª Princesas, Marina Telles e Lisnaria Souza, respectivamente, também apontam o assédio como algo recorrente. “Nós da corte somos desvalorizadas fora da escola. Muitos acham que a gente é garota de programa, acham que tem liberdade para tocar no nosso corpo, porque somos sambistas e mulatas. Merecemos respeito”, destaca Marina.
SeguirKamilly também afirma que até a fantasia do Carnaval mudou ao longo dos anos. “Hoje a gente procurar usar vestido, usar coisas que não destaquem o nosso corpo, destaquem a nossa performance. Por um lado é triste, porque nós não estamos expondo algo que deveria ser completamente natural e não sexualizado, porque o corpo da mulher é algo natural. Mas ao mesmo tempo estamos galgando por esse respeito.”
Competição saudável
Apesar de ser uma competição de alto nível, o coordenador do concurso, Fernando Rufino, garante que é alimentado de forma saudável.
“Eu digo para elas que o principal é respeito. Não precisa amar umas às outras, mas é preciso humildade, porque sem isso a gente não chega em lugar algum. Mas eu gostaria muito de ter uma corte unida, porque a gente passa a ser uma família de hoje até a terça-feira de Caranaval”, afirma Fernando.
Rainha, 1ª e 2ª Princesas do Carnaval 2023 – Foto: Sofia Leal/PMF/Divulgação/NDA Rainha Kamilly conta que, a partir do momento da inscrição, todas a candidatas são estimuladas a cultivar sentimentos de união e empatia umas pelas outras. “Acima da competição, todas já eram vencedoras por se disporem a representar as suas escolas.”
Lisnaria, a 2ª Princesa, ressalta que todas as nove passistas tinham capacidade de estar ali e representarem suas escolas de forma honrosa.
“A gente se apoia muito. E é muito importante, porque infelizmente são só três. Mas isso serve para incentivá-las a continuar no ano que vem. É um sonho, não tem como desistir de primeira, né?”, diz Lisnaria.
‘Desde o ventre da mãe’
A designer de interiores e administradora pública, Kamilly Oliveira, eleita Rainha do Carnaval 2023 de Florianópolis, conta que está no Carnaval desde o “ventre da mãe”, porque a família é do samba. Aos 3 anos de idade, Kamilly conta que já saiu em blocos de rua.
Toda a admiração pela festa popular nasceu com sua bisavó, Dona Sueli, que veio do Rio Grande do Sul. Passou pela Consulado e Protegidos da Princesa.
“E, além disso, ela era muito atuante no Morro do Céu. Então, ela levava os filhos para desfilar, inclusive minha avó, que se encantou pela Embaixada Copa Lord.” Daí, então, nasceu sua paixão pela agremiação do Monte Serrat, escola que representa atualmente.
Esse “amor hereditário” fez ela se candidatar à Rainha em 2019 pela primeira vez, mas não conseguiu chegar à corte. Por isso ela também deixa um recado às mulheres que tentam ingressar na corte. “Não desistam. Tem o tempo de cada uma. Naquela época eu não estava pronta”, lembra.
A sensação de estar de volta dois anos após a pandemia trouxe muita emoção à corte, que é “difícil de descrever, porque nós passamos momentos muito tristes com a perda de pessoas importantes durante a pandemia”.
O diretor de bateria da Embaixada Copa Lord, Paulo Ricardo Patrício, morreu ao ser atingido por um carro, que cortou sua frente, em julho de 2021. O rosto de Paulo estampa a bateria da escola.
Kamilly Oliveira recebendo a coroa – Foto: Sofia Leal/PMF/Divulgação/NDA corte do Carnaval de Florianópolis deste ano é composta por três mulheres empoderadas de 24 anos. Além da paixão pela festa popular, todas compartilham a luta pelo reconhecimento da passista como uma figura da cultura, muito além de um corpo bonito.
“Existe um estereótipo bem forte da mulher passista sexualizada, e isso a gente vem lutando ao longo de muitas gerações para quebrar”, afirma a Rainha Kamilly Oliveira.
A 1ª e a 2ª Princesas, Marina Telles e Lisnaria Souza, respectivamente, também apontam o assédio como algo recorrente. “Nós da corte somos desvalorizadas fora da escola. Muitos acham que a gente é garota de programa, acham que tem liberdade para tocar no nosso corpo, porque somos sambistas e mulatas. Merecemos respeito”, destaca Marina.
Além disso, Kamilly lembra que até a fantasia do Carnaval mudou ao longo dos anos. “Hoje a gente procurar usar vestido, usar coisas que não destaquem o nosso corpo, destaquem a nossa performance. Por um lado é triste, porque nós não estamos expondo algo que deveria ser completamente natural e não sexualizado, porque o corpo da mulher é algo natural. Mas ao mesmo tempo estamos galgando por esse respeito.”
‘A escola embarcou comigo no meu sonho’
A empresária Marina Telles foi eleita a 1ª Princesa do Carnaval deste ano. Ela foi rainha mirim da Consulado e hoje é rainha da escola. “É uma honra muito grande iniciar como uma sementinha.”
Ela destaca que o apoio da família, dos amigos e da agremiação foi fundamental para atingir seu objetivo. “Toda a escola embarcou comigo no sonho, me apoiou psicologicamente, todo mundo me preparou para esse concurso”, reflete. “É só gratidão, gratidão, gratidão.”
Em relação ao desfile no dia 18, a empresária diz que está muito ansiosa e com fortes expectativas. “Eu acho que vai ser um Carnaval de recomeço, de superação e de muito amor, que é o que a gente quer trazer para os foliões.”
“Gratidão do início ao fim”
A 2ª Princesa Lisnaria Souza é estudante de Biologia e participa do Carnaval desde pequena, mas se afastou das festividades para se concentrar nos estudos. Ela retornou ao Carnaval no ano passado.
Concurso aconteceu na noite deste domingo (5) – Foto: Sofia Leal/PMF/Divulgação/ND“Sou apaixonada, enlouquecida pelo Carnaval. Foi reacendendo aos poucos esse sentimento e tenho como palavra a gratidão, do início ao fim deste processo”, resume.
Ela representa a escola de samba Dascuiae está sempre no barracão para ajudar no que for preciso. “Esse é o papel de uma princesa. A gente tem que estar junto e por a ‘mão na massa’. O concurso foi muito emocionante. Minha mãe chorando do início ao fim. É uma experiência que não tem como descrever.”