Mais de meio século “respirando” o Mercado Público de Florianópolis

O ilhéu Euclides Damásio Filho tem o Mercado Público no DNA; neste sábado o ícone da capital completou 123 anos de (muita) história

Foto de Paulo Clóvis Schmitz

Paulo Clóvis Schmitz Florianópolis

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O ilhéu Euclides Damásio Filho tem o Mercado Público no DNA. Aos 65 anos, ele lembra que aos dez, ao lado do pai, também lojista, já circulava pelos corredores e arredores do prédio, cuidando das frutas e verduras que a família cultivava no Ratones e vendia aos consumidores da cidade.

Neste sábado (4) o icônico Mercado Público completou 123 anos de história.

“Às vezes desconfio que nasci aqui dentro”, brinca o comerciante, dono de uma loja de calçados na ala norte. As bancas de produtos in natura ficavam fora do Mercado, mas se integravam a ele como as barracas de louças de barro, muito tradicionais, que ficavam perto da praia contígua, na atual rua Francisco Tolentino.

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A trajetória do Mercado também foi escrita por comerciantes históricos, que ficaram mais de cinco décadas atrás de um balcão, às vezes passando o negócio para os filhos, e por personagens anônimos, que traziam peixes, frutas e legumes de longe, de barco ou carroça – Foto: Arquivo/NDA trajetória do Mercado também foi escrita por comerciantes históricos, que ficaram mais de cinco décadas atrás de um balcão, às vezes passando o negócio para os filhos, e por personagens anônimos, que traziam peixes, frutas e legumes de longe, de barco ou carroça – Foto: Arquivo/ND

As lembranças de Euclides Damásio remetem ao tempo em que Ratones era uma sucessão de fazendas que abasteciam os florianopolitanos com frutas, verduras e legumes.

Pelo menos 20 carroças com produtos saíam às 4h da tarde dali em direção ao centro, onde chegavam perto das 5h da manhã seguinte. As carretas, como eram chamadas, passavam por ruas de chão batido que cruzavam Santo Antônio de Lisboa, Cacupé, Saco Grande e até o Itacorubi.

O asfalto chegou há menos de 40 anos, e foi quando um morador, de caminhão, passou a trazer a produção sua e dos vizinhos para a cidade, numa empreitada bem menos atribulada.

Meio século atrás o mar ainda batia nas costas do Mercado, as embarcações desembarcavam ali os produtos coloniais, carnes, frutos do mar e louças de argila vindas de diferentes pontos da região, incluindo o Continente. Euclides Damásio e o pai se sentavam para ver a draga depositando a areia que constituiu o aterro da baía Sul, sem entender muito bem o que queriam os governantes com aquela intervenção sem precedentes.

Até então, era comum ver gente pescando ali, a poucos metros do Mercado. “Em dias de vento, o mar batia forte no muro”, recorda o lojista. “A gente chegava de caminhão e gritava para as pessoas, porque todos se conheciam. Hoje, depois da mudança do mix, o povão se afastou um pouco do Mercado. Não é mais comum as pessoas saírem do Norte da Ilha, por exemplo, para comprar calçados aqui. A vantagem é que hoje há mais fiscalização e segurança para todos”.

Atualmente, os principais remanescentes da fase antiga do Mercado são os peixeiros. “Nas outras áreas, a renovação foi de mais de 80%”, atesta Damásio. A chegada dos supermercados, a partir dos anos 1970, eliminou as bancas de frutas e verduras, que perderam a clientela.

“Eu mesmo tive que trocar de atividade, por causa dessa transformação no varejo da cidade”, afirma. No entanto, mesmo no ramo dos calçados houve impacto nas últimas décadas, com a queda no movimento e a redução de 30 para apenas seis lojas em operação.

Do tronco bruto para a canoa

O machado e os instrumentos que medem e modelam a madeira chamaram a atenção do público, esta semana, ao lado do Mercado Público. Ali, o pescador e canoeiro Nildo Frutuoso, conhecido como Mestre Dico, transformou um tronco de garapuvu em uma canoa em miniatura que deve ser exibida a partir deste sábado, dentro da programação de aniversário da casa.

O Mercado Público é um local por onde passaram e passam figuras icônicas da cidade, personagens anônimos e autoridades, moradores do entorno e turistas que vêm de longe, às vezes até do exterior, e não abrem mão de conhecer um pouco de Florianópolis por meio de seu centro comercial mais autêntico. E não é de hoje. – Foto: Arquivo/NDO Mercado Público é um local por onde passaram e passam figuras icônicas da cidade, personagens anônimos e autoridades, moradores do entorno e turistas que vêm de longe, às vezes até do exterior, e não abrem mão de conhecer um pouco de Florianópolis por meio de seu centro comercial mais autêntico. E não é de hoje. – Foto: Arquivo/ND

Ele já fabricou barcos maiores, mas o tempo era exíguo e a solução foi optar por uma peça de menor porte. O canoeiro exibe outros barquinhos que produziu – uma tentação para quem gosta de artesanato baseado em temas da Ilha de Santa Catarina.

Mestre Dico vive da pesca, mas a atividade é sazonal e a fabricação de barcos se tornou uma fonte extra de renda para ele e a família. Ele trouxe o filho, na última quinta-feira (3) e aproveitou para ensinar a ele o que sabe, na esperança que a tradição de produzir as “canoas de um pau só” seja mantida na Ilha.

“Hoje, temos mais troncos do que canoeiros”, afirma, ressalvando que o garapuvu não pode ser derrubado e seu aproveitamento só ocorre quando uma árvore é derrubada pelo vento. “Às vezes, o tronco apodrece sem ser aproveitado”, lamenta.

Um barco de garapuvu para a pesca precisa de duas semanas para ficar pronto. Seu Dico mostra uma fotografia no celular com a última canoa que entregou, com sete metros de comprimento, toda pintada e envernizada. Ele também é chamado para exibir seu talento em eventos, feiras e exposições, onde encanta as crianças, especialmente, com suas miniaturas.

Aos 62 anos, o canoeiro diz que “a pesca ainda dá para comer”, porque a atividade sofreu com a redução dos estoques de peixe e com o rigor da legislação que controla o segmento. Morador da Costa da Lagoa, ele aprendeu a pescar com o pai quando tinha oito anos de idade e descobriu os segredos para construir canoas por conta própria, como autodidata.

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