Manezinho ‘Seu Aldo’ conta como prato típico da culinária de Florianópolis marcou sua vida

Aldo Correa de Souza, de 82 anos, começou a pescar com 7 anos e desde então prepara e consome a culinária típica manezinha

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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Com anchova, tainha, robalo ou garoupa e o que mais tivesse na rede, Aldo Correa de Souza, de 82 anos, aprendeu a comer pirão de peixe. O prato mais antigo de Florianópolis está presente no dia a dia do manezinho, morador da Armação do Pântano do Sul, desde criança.

Seu Aldo, como é conhecido, começou a pescar com 7 anos. Na época, ajudava o pai. E a farinha do pirão vinha da mandioca plantada pelos próprios pescadores, que inclusive, Aldo ajudava a colher.

Ao redor do prato típico da culinária da Capital, que celebra 350 anos nesta quinta-feira (23), o ex-pescador e bombeiro viveu suas histórias mais emocionantes.

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Aldo Correa, de 92 anos, é apaixonado por pirão de peixe – Foto: Leo Munhoz/NDAldo Correa, de 92 anos, é apaixonado por pirão de peixe – Foto: Leo Munhoz/ND

‘Como eles vão se criar’

“A história mais emocionante pra mim foi quando eu, meus pais e meus três irmãos estávamos comendo um pirão em volta da mesa. Conversa vai, conversa vem e meu pai pergunta para minha mãe: ‘O que vai ser deles quando a gente partir? Como eles vão se criar’. E ela respondeu: ‘Deus ajuda’. E ajudou mesmo. Nos criamos, e hoje, um pescador só com a 4ª série tem os filhos formados na Universidade Federal”, conta.

Ao contar que, dos quatro filhos, três se formaram na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), seu Aldo chora emocionado. Com olhos vermelhos relembra que, além do pirão de peixe, há muitas histórias. Entre elas, a de como ele, que trabalhou 30 anos como bombeiro, nunca tirou folga.

“Nunca tirei férias. Quando tinha férias eu me revezava com o trabalho de pescador. Eu queria mesmo era ajudar a criar meus filhos e dar estudo para eles. Queria que eles estudassem tudo que eu não estudei”, fala com a voz embargada.

Seu Aldo, comeu pirão de peixe em todas as fases marcantes de sua vida. Ao ser pescador, o manezinho, nascido e criado no Sul da Ilha, levava os pescados para casa e comia com pirão de peixe ou pirão d’água ou de feijão.

“Temos que lembrar que há diversos tipos de pirão. Eu, por exemplo, gosto com mais caldinho, mas tem gente que come mais seco. Mas é algo muito bom. Tem quem coloque arroz, eu nunca coloco, gosto assim mesmo”, conta enquanto prepara o pirão.

Seu Aldo conta as histórias enquanto prepara um pirão de peixe – Foto: Leo Munhoz/NDSeu Aldo conta as histórias enquanto prepara um pirão de peixe – Foto: Leo Munhoz/ND

As fotografias da história

Seu Aldo busca um álbum de fotografia para mostrar para a reportagem do portal ND+. Nele, se exibe ao lado do irmão e de um dos filhos com duas garoupas que, segundo ele, tinham 29 kg cada. Há ainda fotos com a esposa, Norma Maria de Souza, de 73 anos, com quem é casado há 58 anos.

Seu Aldo mostra fotos antigas da família relacionadas com a pesca – Foto: Leo Munhoz/NDSeu Aldo mostra fotos antigas da família relacionadas com a pesca – Foto: Leo Munhoz/ND

“Encontramos esses peixes na ‘Ponta do Facão’ mais virado para a praia da Lagoinha do Leste”, fala.

Nas imagens, é possível ver que a pesca sempre fez parte da história da família. Em uma delas, parentes se reúnem em uma mesa retangular grande para comer, inclusive, pirão de peixe.

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    Na foto, Aldo Correa está de bermuda azul, o filho está de laranja e seu irmão de blusa listrada - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Na foto, Aldo Correa está de bermuda azul, o filho está de laranja e seu irmão de blusa listrada - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
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    Familiares se reúnem para comer pirão de peixe - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Familiares se reúnem para comer pirão de peixe - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
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    Peixes sempre fizeram parte da história da família - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Peixes sempre fizeram parte da história da família - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
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    Na foto, a família exibe pescados - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
    Na foto, a família exibe pescados - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Como chegou aqui?

De acordo com o historiador Rodrigo Rosa, da Fundação Catarinense de Cultura, quando Dias Velho se deslocava de São Vicente para a Ilha de Santa Catarina, no século 17, fazia uma viagem que durava meses.

“Então, a mandioca que era plantada no caminho de ida e colhida na volta garantia o sustento dos grupos que o acompanhavam até a Ilha de Santa Catarina para a captura dos povos originários. Quando os açorianos são trazidos para a ocupação na metade do século 18, os poucos habitantes da Ilha já dominavam técnicas de produção de farinha que foram aprendidas com os povos originários que aqui habitavam”, conta.

A própria legislação que traz os açorianos para Ilha de Santa Catarina impunha algumas regras.

“Ordenareis que se ponham pronto naquela ilha, e mais partes da sua vizinhança aonde vos parecer necessário as farinhas para a ração que mando dar ao primeiro ano à gente que se transportar. A cada pessoa de quatorze anos para cima se darão trés quartas de farinha por mês da medida da terra, e um arratel e de peixe, ou carne por dia; às pessoas de quatorze até sete completos a metade desta ração e as desse até três anos completos a terça parte, aos menores de três anos nada”, trecho retirado da Provisão Régia de 9 de agosto de 1747 que determinava ao Brigadeiro Silva Paes em 1747. 

“Diante da escassez de outros alimentos e da dificuldade em diversificar a mesa, os produtos mais acessíveis, que eram a farinha e o pescado, tornam-se a combinação mais comum das refeições dos moradores da Ilha de Santa Catarina”, explica o historiador.

Para ele, esses motivos colaboraram para que os açorianos rapidamente incorporassem o hábito do consumo da farinha de mandioca introduzindo-a na manufatura da tecnologia trazida por eles, a dos engenhos, nascendo daí a produção de uma das farinhas mais conhecidas do Brasil durante a segunda metade do século 18, todo o século 19 e boa parte do século 20, a farinha da Ilha de Santa Catarina.

Junto ao consumo da farinha os habitantes trazidos dos Açores e seus descendentes também incorporam a prática da pesca, igualmente desenvolvendo técnicas de conservação, umas já trazidas da Europa e outras aprendidas na Ilha.

Para fechar, um café

Antes de terminar a conversa, seu Aldo passou um café para a equipe do portal ND+ – Vídeo: Ana Schoeller/ND

Ao se despedir da reportagem, seu Aldo pega uma pequena panela, um prato e prepara o pirão de peixe. Ao lado de um café, que ele também conta plantar durante toda sua vida, leva uma garfada do alimento na boca e finaliza: “Eu amo comer isso. Não tem coisa melhor, sabes?”