Mapa da almôndega

Al-môn-de-ga, como o prefixo denuncia, é palavra árabe, cheia de sílabas, óleos e frituras, com direito a temperinho verde entre as letras.

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Essa história de perseguir a melhor almôndega já me levou a “pés-sujos” que a Anvisa fecharia na hora, mas também já me conduziu a algumas almôndegas dignas da sua pomposa etimologia.

Al-môn-de-ga, como o prefixo denuncia, é palavra árabe, cheia de sílabas, óleos e frituras, com direito a temperinho verde entre as letras. O que mais espanta é a simplicidade franciscana do bolinho.

Almôndegas em receitas diferentes fazem parte do cardápio – Foto: Eduardo Valente/arquivo/NDAlmôndegas em receitas diferentes fazem parte do cardápio – Foto: Eduardo Valente/arquivo/ND

Uma montinho de carne picada ou moída, miolo de pão, uma pimentinha e um caldeirão de fritura capaz de incandescer os óleos de qualquer inferno – inclusive o de Dante Alighieri.

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Não me refiro à almôndega esnobe, servida no L’Espinasse, de Nova York, ou no Tour D’Argent de Paris – onde costumavam jantar Sérgio Cabral e Eike Batista, com o nosso dinheiro, claro. Nesses templos de alta gastronomia a almôndega se transforma em um prato “gourmet”, com ervas e molhos que a descaracterizam.

Falo da velha e simpática almôndega de um autêntico “pé-sujo”, daqueles de exibir com orgulho ovo e palmitos boiando em vidros. Já comparei, aqui, uma almôndega à Agatha Christie, a primeira dama do romance policial.

E não é pelo “suspense” de saber se o bolinho é o mesmo “que matou o guarda”. É que Agatha foi casada com um arqueólogo. Assim, quanto mais velha ficava, mais sedutora lhe parecia.

A almôndega é quase esse fóssil: é da carne de um animal extinto pelo abate, torra nos óleos de grandes tachos e, quanto mais frita, mais irresistível nos parece.

O espantoso é que esse modesto exemplar da culinária popular já empilha dezenas de e mail sem minha caixa eletrônica, que, de tanta sugestão da melhor “almôndega”, já pipoca mais do que óleo fervendo na frigideira. São leitores preocupados com essa minha “fissura” por almôndegas. Leitor manda por e mail endereços de vários “pés-sujos” do Estreito, a relação completa dos bares almondegueiros.

E admite que, de vezem quando, abre a sua própria produção. Sai de casa “para comprar uns pãezinhos de trigo”, daqueles estalantes, enquanto a “patroa já está fritando umas almôndegas honestíssimas”.

Outro almondegueiro, que se apresentou pitorescamente como “Zé do Tempero” diz que almôndega boa é a do “Zezinho” ali do Mercado, “pé-sujo” pra lá de limpinho. E convida: “Querendo, lhe faço companhia neste sábado”…Obrigado, Zé do Tempero. Mas não se esqueça de levar o próprio.