O primeiro Mercado Público de Florianópolis foi construído quando a cidade tinha cerca de 20 mil habitantes e ainda se chamava Desterro, em 1851.
A edificação, localizada na praia em frente à atual praça 15 de Novembro, tirou das ruas os donos de barraquinhas que vendiam gêneros de todos os tipos, em precárias condições de higiene – uma situação que perdurava desde meados do século 18, reunindo oleiros, mascates, pescadores e colonos de diferentes pontos da Ilha de Santa Catarina.
Um pouco antes, a área central da capital da província havia passado por uma “repaginada” para receber Dom Pedro 2º, que visitou a região em 1845.
SeguirAlém de roçar a praça, então um local mal cuidado e malcheiroso, tirar as barracas das vias públicas era crucial para causar uma boa impressão ao imperador.
O Mercado Público de Florianópolis como ponto central da capital. E não é de hoje. – Foto: Arquivo/NDA medida gerou muita polêmica, mobilizando jornais da situação e da oposição, mas foi o embrião da construção do primeiro mercado, com recursos que comerciantes emprestaram ao governo.
Nas décadas seguintes, o aumento da demanda por víveres e produtos artesanais forçou a administração da província a cogitar a construção de um novo mercado. Houve acaloradas discussões por conta do local ideal para instalar o prédio, mas no final de 1896 foi lançada a pedra fundamental ao lado do largo da Alfândega.
Pouco mais de dois anos depois, em 5 de fevereiro de 1899, o Mercado Público de Florianópolis foi inaugurado, apenas com a atual ala norte.
O edifício era um dos mais imponentes da cidade, mas logo passou a exigir reformas e adequações. Uma rampa foi construída em 1912 para facilitar o desembarque da carne, pescado, frutas, legumes e louças de barro produzidos no interior da Ilha e no Continente. As ondas do mar batiam nos costados do prédio, daí a importância de boas condições para a atracagem das embarcações.
A cidade crescia, recebia investimentos em infraestrutura (redes de água e esgotos, energia elétrica, aterros, calçamentos, a ponte Hercílio Luz), e a construção de uma nova ala para o Mercado Público se tornava imperiosa.
Isso aconteceu em janeiro de 1931, com foco na venda de carnes e pescados. Em 1938 foram instaladas as primeiras câmaras frigoríficas. A Feira do Colono, na parte interna da ala antiga, oferecia frutas e verduras vindas em diferentes pontos da região.
Mercado Público chega aos 123 anos – Foto: Isabela Rodrigues/SouBemFloripa/NDDurante muito tempo as carnes e os peixes eram vendidos nas primeiras horas do dia, enquanto estavam frescos. No começo da tarde, eram “torrados” a preços baixos e depois inutilizados com creolina, impedindo que alguém consumisse produtos em vias de deterioração.
O frigorífico eliminou essa contingência e funcionou até 1988, quando a prefeitura fez obras de restauração do prédio e cada proprietário de box instalou seu próprio sistema de refrigeração.
Aterro mudou sistema de abastecimento
O crescimento do comércio não tirou do Mercado Público a condição de grande centro de venda de produtos in natura na cidade. E a ponte Hercílio Luz também não eliminou a rotina das canoas, batelões e baleeiras que traziam víveres do interior da Ilha e de municípios como Santo Amaro da Imperatriz, Rancho Queimado, Águas Mornas, Antônio Carlos e Angelina.
A trajetória do Mercado também foi escrita por comerciantes históricos, que ficaram mais de cinco décadas atrás de um balcão, às vezes passando o negócio para os filhos, e por personagens anônimos, que traziam peixes, frutas e legumes de longe, de barco ou carroça – Foto: Arquivo ND (2)Eles abasteciam a Capital de gêneros agrícolas e frutos do mar, mais ou menos o que faziam pequenos proprietários de hortas no Saco dos Limões, Carvoeira, Pantanal, Trindade e Agronômica, que transportavam verduras e legumes para a feira colonial, transportados em carroças, pequenos caminhões e até em carrinhos de mão.
A década de 1970 trouxe a consolidação do turismo como grande vocação da cidade e, ao mesmo tempo, a interrupção do contato do centro histórico com o mar, a partir da construção do aterro da baía Sul e da ponte Colombo Salles.
As embarcações foram substituídas pelos caminhões no abastecimento do Mercado Público. O comércio se expandiu, os bairros e balneários começaram a ganhar vida própria e surgiram os primeiros supermercados e centros comerciais de grande porte.
Nos anos 1980, o Mercado Público passou por algumas transformações conceituais. Bares e outros tipos de comércio deram um contorno mais cosmopolita à casa, já inserida no roteiro das atrações turísticas da cidade. Como sempre, houve contestações acerca da suposta elitização do estabelecimento. Sobre o assunto, o historiador Nivaldo Jorge da Silva escreveu:
“Esse processo consistiu na criação de locais dentro do Mercado que satisfaçam os desejos das classes mais altas da população”.