Cada família tem suas tradições, pode ser uma comida, uma viagem para um lugar, um evento ou até uma profissão. Assim começa a história da 5ª geração de pescadores, com Josilene Maria da Silva, em Florianópolis.
Josi tem 36 anos e é pescadora desde os 18 anos, sendo a 5º geração da sua família – Foto: Julia de Araujo/NDNascida e criada em Florianópolis, Josi tem 36 anos, mora na Armação do Pântano do Sul e trabalha como pescadora desde os 18 anos, logo que acabou a escola. Filha, neta, bisneta e tataraneta de pescadores, ela conta que cresceu acompanhando o pai pelo mar catarinense e, logo que pode, se juntou à tripulação do irmão.
“Eu vivia com com meu pai no barco, acompanhando ele. Porém, só quando terminei meus estudos, que comecei a trabalhar na pesca. É a tradição da minha família, sempre foi algo que a gente gostava e gosta”, declara Josi.
SeguirEm uma família de 11 pessoas, entre os pais e os irmãos, Josi também falou que apesar de gostar do que faz, na época também começou porque precisava. Ao perder a mãe, ainda na adolescência, precisou seguir seu coração e tomar a decisão mais segura para a sua vida.
Josi trabalhando na pesca em uma das suas jornadas do dia a dia – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND“Eu acabei a escola e até pensei em tentar entrar para a polícia, mas tem teste físico e tudo mais. Eu precisava naquele tempo de um trabalho e fui fazer o que eu conhecia”, ressalta a pescadora.
Um dos seus irmãos deixou com que ela trabalhasse para ele, logo ela se tornou seu braço direito e, foi conhecendo mais sobre o dia a dia da profissão, aprendendo os truques para lidar com o mar e também se apaixonando pelos barcos e os caminhos que ele a levava.
No mar é lugar de mulher, SIM!
Nunca foi fácil, não apenas pelo trabalho braçal e as longas horas na água, mas também porque a pesca é um ambiente onde existem muito mais homens que mulheres. Se destacar pode ser difícil mas não é impossível.
“Eu já ouvi muitas piadinhas durante todo esses anos. Mas nunca deixei que me abalasse. Hoje, podem até falar, mas eu duvido alguém ter coragem de falar na minha cara”, explica Josi. “Teve momentos que passei, sabe, de homens tentando se assanhar, mas eu nunca deixei barato”, finaliza ela.
Ela construiu o seu barco, do jeito que é hoje em dia – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDNão foi apenas um espaço que ela conquistou. Josi se dedicou, lutou, mostrou sua força e hoje tem a sua embarcação, se tornando independente na profissão.
“Para fazer a pesca você precisa de ajuda, de uma tripulação que vá contigo. Não da pra ir sozinha. Eu comecei ajudando, até tocar com a minha tripulação”, conta a pescadora, apontando para os dois homens que a acompanham nas visitas.
Em todos esse anos ela já enfrentou o mar em seus piores dias, mas também pôde apreciar o caminho, viajar pelas águas mais bonitas e viver momentos incríveis.
Hoje em dia Josi não trabalha apenas com a pesca, ela reformou todo o seu barco e, agora trabalha com a visitação dos turistas até a Ilha do Campeche, no sul de Florianópolis.
“Eu construí tudo aqui, aos poucos. Pintei, serrei, bati martelo e deixei do jeito que precisava para poder trabalhar com as visitas. A pesca pode ser difícil em algumas épocas, sabe!”, ressaltou ela.
No mar tem amor e maternidade
Josi não se apaixonou apenas pelas águas de Santa Catarina, ela também encontrou seu parceiro Jairo, que é educador infantil e que sempre a apoiou e, tem orgulho da mulher forte que vive ao seu lado.
“O meu marido é amigo do meu irmão. A gente foi se conhecendo, aí ele começou a me chamar de namorada, eu disse: Mas tu nem pediu nada, sou tua namorada então? E ele: É sim!” contou ela aos risos. “Então a gente tava namorando e depois casamos, hoje, 14 anos depois, temos um filho de 8 anos, o Enzo”, explica a mãe orgulhosa, mostrando a foto do filho.
Mãe de Enzo, que na foto tinha 1 ano e já acompanhava Josi no trabalho – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDEnzo já nasceu com gosto de água salgada, ao lado da mãe nos dias de trabalho. Josi engravidou mas não conseguiu parar, trabalhou enquanto pode e logo depois que seu filho nasceu, ela já queria voltar.
“Quando ele fez três meses e meio, eu já voltei a trabalhar. Acordava cedo, arrumava as coisas dele, ajeitava ele no bebê conforto e lavava pro barco comigo”, conta ela.
E foi assim que ele cresceu, acompanhando a mãe na sua jornada diária e, também aprendendo a profissão da família. “Ele diz que vai ser veterinário e pescador”, conta Josi.
Orgulhosa de tudo que construiu, Josi é uma das mulheres incríveis que estão todos os dias batalhando pelo seu espaço e mostrando todas as suas faces.
“Nesse trabalho, a gente é um pouquinho médica, um pouco mecânica e até meteorologista. Eu sou pescadora, sou mãe, dona de casa, o que precisar”, finaliza Josi.