Em meio à pandemia de Covid-19, a família de Romilda Günther e Sérgio Luiz de Souza, moradores do bairro Ponta das Canas, na região norte da Ilha de Santa Catarina, segue com o feitio artesanal da farinha de mandioca.
O manezinho Sérgio Luiz de Souza não abandona o engenho de farinha nem durante a pandemia – Foto: Anderson Coelho/NDNo engenho centenário que começou com seus bisavós, Sérgio acende o fogo para colocar a farinha no tacho, enquanto Romilda coloca a massa prensada no cevador, peneira e conversa. Se não fosse pelas máscaras, o distanciamento e o costumeiro frasco de álcool em gel sobre a pia – cena que se tornou comum desde o mês de março, quando o novo coronavírus começou a se espalhar pelo Brasil – ninguém se lembraria da pandemia por ali.
De acordo com Romilda, pouco mudou na rotina do engenho. “Na raspagem da mandioca sempre vinha muita gente, mas as senhoras que me ajudavam são idosas e nem saíram de casa por causa da pandemia esse ano. Só tive duas ajudantes de fora, o resto nós que fizemos”, conta.
SeguirO home office, novidade para tantos trabalhadores, faz parte do dia a dia da agricultora e dona de casa, que se desdobra entre as tarefas de alimentar os animais, cuidar da casa e ajudar a fazer a farinha.
Também é prática comum para Sérgio, que abandonou a escola no 5º ano para trabalhar com o pai na pesca e sempre viveu a cultura dos engenhos de farinha. “Me criei dentro do engenho e sou o único dos quatro irmãos que continuou nessa atividade. Várias pessoas vêm aqui tentar comprar as peças para enfeitar restaurantes e casas, mas para mim não têm preço, são as recordações da minha família, enquanto eu viver não vendo nada disso aqui”, afirma.
“Queria ensinar as crianças como é feita a farinha, mas precisa de incentivo”, diz Sérgio Luiz de Souza – Foto: Anderson Coelho/NDEm meio a nuvem de farinha, ele se emociona ao contar que aprendeu tudo com a família. Desde o cultivo da mandioca até o ato de fornear. Mostra os tipitis (cestos usados antigamente para prensar a massa de mandioca) feitos pelo pai e os cestos e balaios que ele mesmo faz, pendurados por toda parte.
“Trabalhei na pesca industrial em Santos, depois voltei e fui zelador nos prédios da Praia Brava, por 25 anos. Depois fiquei só na roça, mas não dava para se manter. Fiz curso de vigilante e trabalho nessa função até hoje”, conta.
Mesmo assim, nunca abandonou o engenho. “Plantava mandioca nas folgas e nos finais de semana. E até hoje tiro férias na época da farinhada, entre abril e agosto, quando a mandioca está madura. Depois, ela começa a brotar e não dá mais para fazer a farinha, o rendimento é baixo porque a raiz acumula muita água”, explica.
Produção artesanal e orgânica
“Nossa farinha é orgânica desde a plantação, não usamos nada de veneno. Mas para vender tem que ter o selo, uma marca. Não temos incentivo, só vendemos para os vizinhos. Acho que tem gente que nem sabe que ainda tem engenho em Florianópolis. Aqui, na Ponta das Canas, tinha mais de 20 engenhos, hoje só tem três”, diz Sérgio.
Romilda Günther: “é uma riqueza isso aqui” – Foto: Anderson Coelho/NDEste ano, o engenho deve produzir cerca de 300 quilos de farinha, entre a produção própria e de dois agricultores da vizinhança. “Ficamos com uma parte para consumo nosso e o resto vendemos para os vizinhos, em sacos de 13 quilos por 80 reais”, diz Romilda.
O pedreiro Nelson Constâncio, de 51 anos, trouxe sua produção de mandioca para moer no engenho da família Souza. Em troca, ajuda na raspagem da mandioca e a girar a prensa. “Nos conhecemos desde crianças e meus pais também tinham essa tradição de plantar para fazer farinha. Mas não sei se no próximo ano eu vou fazer”, diz Nelson.
Tradição que se perpetua
Os engenhos de farinha surgiram com a chegada dos açorianos, entre 1748 e 1756, em Florianópolis. A cidade chegou a ter mais de 400 unidades produtivas, das quais 18 seguem ativas, segundo levantamento da ONG Cepagro, feito em 2018.
Nelson Constâncio também cresceu com a cultura da farinha – Foto: Anderson Coelho/NDNo caso dos Souza, a estrutura foi trazida da Praia Brava – local que chegou a abrigar cerca de oito unidades, para a Ponta das Canas. Ele pertenceu aos avós maternos de Sérgio, Sebastião Gabriel das Neves e Maria Ana das Neves. Então, passou para seus pais Anilton Manoel de Souza e Maria Catarina de Souza Neves, antes de chegar às suas mãos.
A prensa foi comprada de volta de um argentino para quem a mãe dele havia vendido a peça. O tacho da bisavó, feito de raiz de figueira, tem mais de cem anos e ainda é usado para fazer beiju (feito com massa de mandioca, assado após o feitio da farinha) doce e salgado.
Posteriormente, uma parede foi desmanchada para a construção da casa de Sérgio e Romilda, em anexo, mas a estrutura principal se mantém, cheia de histórias e marcas do tempo. Em meio a conversa, chegam os filhos Heloísa (16) e Luiz Gabriel (14). Eles contam que querem que a cultura se mantenha, mas a menina diz que sozinha não vai dar conta.
Da esquerda para direita: Sérgio, Luiz Gabriel, Heloísa e Romilda – Foto: Anderson Coelho/NDO menino já aprendeu a usar a prensa e a fazer os balaios, ajuda no plantio e na colheita. “Só não quero que ele deixe os estudos como o pai. Pode estudar, se formar, ganhar um bom dinheiro e continuar com o engenho”, diz Romilda.
A família mantém barco e redes de pesca, atividade compartilhada com os dois filhos mais novos, de 14 e 16 anos. “Pescamos à noite, com redes de arrasto; além disso temos algumas cabeças de gado, porco, galinhas e plantamos árvores frutíferas. É uma riqueza isso aqui”, conta Romilda.
Encontro na Oktoberfest
O casal está junto há 24 anos e tem três filhos (o mais velho, 22 anos, já saiu de casa). Com 52 anos, Romilda chegou a Florianópolis aos 21, deixando os pais e 15 irmãos em Marechal Cândido Rondon (PR).
Sua ideia, após anos de trabalho na roça, era conseguir trabalho na cidade, ficar solteira e adotar uma criança. Trabalhou um tempo como doméstica e juntou dinheiro para ir à Alemanha, terra de seu avós.
“Mas nunca cheguei a ir. Conheci o Sérgio em uma excursão para a Oktoberfest, em Blumenau, mas avisei ele que não queria nada sério, pois já estava com a ideia de viajar”, conta Romilda. Não era bem o que destino havia reservado. Logo, ela se descobriu grávida e os dois assumiram o relacionamento.
Romilda e Sérgio se conheceram durante excursão para Oktoberfest, há 24 anos – Foto: Anderson Coelho/NDRomilda mudou-se para a casa da sogra, onde aprendeu a nova atividade. “Aprendi a fazer beiju e cuscuz grávida do primeiro filho. Eles só comiam beiju, leite, pirão d’água e peixe. Eu não comia pirão, fiquei magrinha. Depois ensinei a sogra a fazer queijo, manteiga e pão caseiro”, relembra. “Vivemos uma vida à moda antiga, mas fico feliz de poder continuar o que meus sogros deixaram para nós”.
Com a farinha no rosto, Sérgio fica pensativo. “É uma tradição muito bonita, queria mostrar para as crianças das creches e escolas de onde vem a farinha, quem sabe alguma delas se interesse. Precisamos de incentivo para essa cultura não se perder”, afirma.