O manezinho tradicional ainda existe e pode ser encontrado nos bares do interior da Ilha de Santa Catarina, nos ranchos de pesca e nas pracinhas dos bairros de pouco movimento, perto ou distante do Centro Histórico de Florianópolis.
Arante José Monteiro (à esq.) recebendo o Troféu Manezinho – Foto: Divulgação/NDTambém está nos poucos engenhos de cana e farinha que permanecem ativos, nas praias espiando cardumes de tainhas ou rondando as peixarias do Mercado Público. Alguns andam roçando o casario antigo do Ribeirão da Ilha ou levando o passarinho na gaiola para passear, em pontos tão díspares como o Monte Verde e a Caieira da Barra do Sul.
Neste sábado (1º), Dia do Manezinho por força da lei municipal 6.764, de 2005, uma das cenas possíveis é achar o morador típico da cidade no velho Senadinho, que era o ponto de encontro de nativos de todos os naipes, no calçadão da rua Felipe Schmidt.
Eles não são tão numerosos, porque muitos já partiram e o local perdeu o charme original. Mas ainda assim é ali que os remanescentes se cruzam, fazem brincadeiras entre si, contam piadas e dizem, com ar de mistério, que a esquina da Felipe com a Trajano esconde muitas histórias, algumas delas impagáveis ou proibidas de serem contadas no horário nobre.
Saudosismo
O que predomina nas conversas, ali, é o saudosismo. Numa roda entre conhecidos há três ou quatro décadas, o funcionário público aposentado José Alberto Flores, 76 anos, cita a extinta praia do Vai Quem Quer, poluída, ao lado do Mercado Público, e as sessões de séries e filmes de faroeste nos cinemas das ruas Padre Miguelinho e Arcipreste Paiva.
Manezinho da Ilha, Flores fala com conhecimento de causa sobre o Campo do Manejo, onde fica hoje o Instituto Estadual de Educação, e a Chácara do Espanha, onde as casas de moradia deram lugar a edifícios que taparam a vista de boa parte da cidade.
“Eu nasci e me criei na Agronômica, e vinha a pé, a qualquer hora do dia, para a cidade comprar remédios, passando por campinhos de futebol e vendo as pessoas se cumprimentando, assim como era comum nas ruas centrais”, conta Flores. “Atualmente, por questões de segurança, não caminho ali nem de dia. E é comum moradores da mesma rua não saberem quem são seus vizinhos”, ressalta.
O termo pejorativo que virou título honorífico
O termo manezinho já teve forte carga pejorativa, nomeando homens e mulheres nascidos e criados em vilas e balneários da Ilha que viviam da pesca e da agricultura de subsistência. Na preguiça típica dos bem nascidos na cidade, todos eram tratados por Manuel e Maria.
Como os ilhéus sempre tiveram gosto pelos diminutivos, Manuelzinho passou a designar esse nativo que falava rápido, tinha dificuldades para ser entendido pelo homem urbano e raramente havia passado dos primeiros anos escolares. Daí para “manezinho” foi um pulo.
Até que um manezinho juramentado, o jornalista Aldírio Simões resolveu chutar o balde – afrontando até forasteiros de outros Estados que se fixaram e passaram a dar ordens na Ilha. Nos anos de 1990, criou o Troféu Manezinho, premiando figuras locais que tivessem ampla identificação com o modo de vida dos nativos.
Aldírio Simões (à dir.) e Valdir Agostinho no Bar Fala Mané – Foto: Carlos Amorim/Divulgação/NDCom o tempo, e o sucesso da iniciativa, os ventos viraram e muita gente fina passou a disputar a indicação para o prêmio. Hoje, é comum ir a um escritório, consultório ou sede de empresa e ver o troféu criado por Aldírio Simões sobre um armário ou mesa de trabalho, dando ciência aos visitantes de que ali trabalha um mané reconhecido oficialmente e orgulhoso de seu título.
Saudades do Miramar e das disputas de remo na baía Sul
Uma característica do manezinho autêntico é o incômodo com a profusão de sotaques desconhecidos no dia a dia de antigamente, como é comum acontecer em Canasvieiras, nos Ingleses e no Rio Vermelho.
“Até nos restaurantes os garçons chegam com cardápio em espanhol”, queixa-se o aposentado José Alberto Flores. Ele reclama do fim da velha tranquilidade, dos caminhos de terra, das casas esparsas no Rio Tavares e no Campeche, por exemplo, e especialmente da demolição do bar Miramar, pelo ex-governador Colombo Salles, nos primeiros anos da década de 1970. “Foi uma burrada”, sentencia.
Inauguração do Miramar, tradicional bar demolido na década de 1970 – Foto: Reprodução/NDJosé Flores era um dos muitos garotos que se jogavam nas águas da baía para pegar as moedas jogadas pelos frequentadores do Miramar. Também recorda das disputas com colegas que estudavam no Instituto Estadual para ver quem pulava o rio da Bulha, atual avenida Hercílio Luz, antes que a prefeitura cobrisse o canal com concreto. A cidade parava para ver os remadores que participavam de competições nas baías, num tempo em que o remo era o esporte mais popular da Capital.
Pelé na sacada, Garrincha no hotel, Gal no Mercado
A palavra “paraíso” é usada várias vezes, e por distintas figuras da cidade, quando se fala da velha Floripa. Na mesa que segue na esquina da Felipe Schmidt e Trajano, há essa unanimidade. Além de Flores e do empresário Lourival Dutra, a expressão está na boca do ex-bancário e ex-comerciante Altair Filho e do servidor público aposentado Nestor João Pereira.
Altair Filho também fala das regatas de remo. Num episódio marcante, a cantora Gal Costa fez questão de comer pirão com peixe no Mercado Público. Uma cena mais corriqueira se dava no dia de pagamento dos jogadores do Avaí. Eles iam até a entrada do banco e a um sinal do gerente, entravam com suas pochetes para receber o salário.
Lourival Dutra cita o dia em que Pelé fez um comercial na sacada do prédio do outro lado da esquina do Ponto Chic, e Garrincha se hospedou com o Botafogo no hotel Majestic. É Dutra quem diz que ali “aconteceu de tudo”, inclusive conchavos e acordos políticos. “Teve até marido apanhando de mulher aqui no Senadinho.”
Manoel de Menezes com Garrincha em frente ao hotel Laporta – Foto: Reprodução/NDProfundo conhecedor da região, Flores especula sobre os supostos túneis que ligariam a Catedral ao Morro da Cruz e bares históricos como o Gato Preto, Roma, Roda Bar e Sombrero. Mas o fim do Ponto Chic foi o maior baque.
O Ponto Chic era um lugar democrático
O Ponto Chic, bar e café que se confundia com o Senadinho, deixou saudades porque era lugar de ricos e pobres, de bancários e juízes, de personagens como o rei momo Lagartixa, Lourdes da Loteria, o pintor Meyer Filho, o folclorista Franklin Cascaes, o ex-governador Aderbal Ramos da Silva e a ex-primeira-dama Kyrana Lacerda.
E por ali passavam também o “senador” Alcides Ferreira, cacique político do interior da Ilha, prefeitos, deputados, empresários – e pedintes, porque o calçadão é um dos lugares mais democráticos de Florianópolis. “O Ponto Chic faz muita falta para a cidade”, diz o empresário Lourival Dutra, o Loro.
Para ser manezinho precisa (entre outras coisas)…
- Ter assistido desfile de escolas de samba e de carros alegóricos ao redor da praça XV de Novembro
- Ter comprado quebra-queixo, pé de moleque, maria-mole, balas Rococo, tabletes Valda e copo de groselha em uma venda na cidade
- Ter tomado sorvete de butiá, picolé de coco ou “beijo frio” nas sorveterias Ilhabela, Satélite ou Barão
- Ter nascido na maternidade Carmela Dutra, na Carlos Corrêa ou de parteira
- Falar muitas palavras no diminutivo: cafezinho, pãozinho, bolinho de chuva
- Andar pelas bancas de peixe do Mercado Público sem tapar o nariz
- Ter tomado banho na Lagoa da Conceição sem medo de pegar pereba
- Ter tirado foto com o lambe-lambe da figueira da Praça XV
- Saber abrir um siri “garra azuli” sem estropiar os dedos e nem o crustáceo
- Ter saído vestido de mulher no Bloco dos Sujos no Carnaval
Termos usados por manezinhos eternizados no Museu de Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/Arquivo/ND